O português como língua estrangeira!

7 02 2010

O professor de português precisa ampliar competências e articular habilidades para ser proficiente no ensino de língua portuguesa como língua estrangeira.

No processo de aprendizagem, é preciso levar em conta:

  • diversidade cultural dos alunos;
  • interação aluno/professor;
  • métodos e abordagens no ensino de língua estrangeira.

Além disso, o professor precisa compreender a língua do aluno para que haja interação e as dúvidas possam ser esclarecidas, se necessário na língua materna do aluno.

É preciso formação diferenciada em relação ao professor formado pelo curso de Letras. Há pós-graduações e cursos específicos para professores que pretendem trabalhar com LP como LE.

O professor tem de:

  • ser especialista em língua portuguesa (conhecimento acadêmico);
  • desenvolver tarefas utilizando tipologia de exercícios diversos a fim de promover o aprendizado;
  • aguçar conhecimentos em sua própria cultura: mitos, lendas, personalidades, história da língua e do país, comidas típicas, etc.;
  • colocar-se no papel de aprendiz para compreender o processo de aquisição de uma outra língua (quando o professor experimenta aprender uma LE, reconhece os mecanismos de aprendizagem, possibilitando-o refletir sobre o processo de aquisição de uma LE).

Para explicar algumas expressões e dizeres o professor precisa utilizar recursos variados: música, arte, fotos, imagens, desenhos, etc. Tente explicar, por exemplo, para um estrangeiro a palavra “saudade”, ou então “dar um jeitinho” ou mesmo “samba no pé”.

O professor deve buscar materiais de apoio e preparar suas aulas com base de que seu aluno não possui a “bagagem” cultural e línguística suficiente da língua a ser ensinada. É necessário fornecer aos alunos cultura e informação com exercícios regulares e diferenciados, adotando, assim, uma metodologia adequada, a fim de desenvolver no aluno a compreensão da língua portuguesa numa situação de comunicação.

PAULA CRISTINA





Sem palavras?

5 02 2010

Uma vez, ouvi dizer que os seres humanos diferem dos outros animais, ditos irracionais (segundo nossos parâmetros) em função da capacidade de se comunicar de forma complexa. Haveria outros motivos para distinguir homem e bicho, mas quero tentar falar um pouquinho sobre a comunicação humana. Mais propriamente, desejo falar de um estágio, ou parte, ou fase desta comunicação: a leitura.

A leitura é, entre outras coisas, o que nos permite conviver em sociedade, porque lemos, não apenas palavras, mas  o mundo, ora decifrando, ora decodificando tudo o que dele surgir. A leitura verbal, baseada na fala e na escrita, ao menos no Ocidente, se vale de uma faceta do signo linguístico, de sua imagem acústica, para que se tenha a compreensão ou a decifração da mensagem por meio do código linguístico. Já a leitura não-verbal revela a representação de um sistema em que as palavras não fazem parte…

Como podemos ler, então?

Quando disse que a leitura se destina à interpretação do mundo, você pode entender que qualquer  tipo de linguagem, seja artística, simbólica, literal… pode ser lida. Calados, muitas vezes “falamos” mais da gente do que se falássemos, efetivamente, sobre nós mesmos. Nossas preferências indicam o que gostamos, nossas roupas dizem muitas vezes nossas intenções, tudo o que escolhemos, muitas vezes, revelam até mesmo  o que nós queremos que os outros pensem da gente…  e, consciente ou inconscientemente, isso acontece. As escolhas, essencialmente individuais, mostram algo que queremos comunicar por meio de signos que revelam nossa auto-imagem, ou a imagem que os outros indíviduos possam ter de nós. Estes signos, portanto, prescindem das palavras. Quando compreendemos o mundo, as outras pessoas, pela maneira que se mostram, pelo que o querem passar… dizemos que lemos sem nenhuma palavra, nenhumazinha.

Como isso é possível?

O código é o elemento que nos proporciona a leitura. Fora o código linguístico, existem muitas outras estruturas de comunicação que codificam a representação do mundo em que vivemos, do qual queremos falar. Decodificar, dessa forma, seria conhecer o código, desvendando-o, interpretando-o. Para tanto, além da codificação, precisamos também saber como é que os signos se comportam, como se organizam para o estabelecimento da leitura e da concretização do ato de comunicar. Além disso, também devemos ter em mente que muito do “arsenal” de compreensão de mundo que temos vêm das associações que fazemos. Partindo de uma sintaxe linear (o que é característico da leitura verbal) ou de uma organização comparativa entre objetos, pessoas, fatos sociais e  situações cotidianas principalmente (característica da leitura não-verbal), não importa, a gente sempre acaba lendo.

Ocorre que o texto não-verbal é destituído de um código definido. Seus signos são como os fragmentos de um meteoro, dispersos. Não existe uma organização clara dos signos, eles não são convencionais neste tipo de texto. A simultaneidade dos sons, das cores, dos cheiros, dos sabores, contudo, produzem uma nova ordem e permitem a produção e a organização dos símbolos, dos índices, dos ícones que proporcinam a decodificação deles e, finalmente, formam a comunicação.

Essa produção de um signo que possa estabelecer a comunicação não-verbal e sua leitura, apesar de aparentemente aleatória, se constrói gradativamente, se consolida devido à nossa bagagem cultural, ao nosso repertório. Há determinadas leituras que podem até parecer universais, mas as convenções ficam de lado e dão espaço à individualidade, ao caudal de possibilidades que  propõe ao leitor.

A Semiótica, lógica da linguagem, tem se deparado com a questão das palavras e das “sem palavras” constantemente. Considerando tudo o quanto possa comunicar como texto, poderíamos pensar que a leitura não-verbal possa ser uma sugestão de uma experiência nossa pautada, muitas vezes, em algo cotidiano. Uma impressão, porque toda e qualquer interpretação é possível, mas nunca é totalmente correta ou completa.

Leitura não-verbal: os fragmentos sígnicos nos dão uma ideia, uma impressão do mundo. Para alguns, essa imagem não tem nada de errado. Os signos estão em harmonia, há naturalidade e tudo o quanto existe na imagem faz parte da ambientação do mundo contemporâneo, liberal. Para outros, há um descompasso tão grande, que a leitura pode se mostrar como uma afronta, um desrespeito, uma total inversão de valores. Como podemos ler essa imagem, o que ela nos diz?

Para alguns o céu azul e limpo é uma beleza: praia, sol, vida. Para outros, os que dependem da chuva nas plantações, os que vivem e dependem da terra, os que são flagelados pela seca... a leitura dessa imagem é a morte.

Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves





Que Livros deixaremos para os nossos filhos?

2 02 2010

 

 

Quem já visitou o Museu da Língua Portuguesa – ou acompanha nosso blog (http://movimentoculturalgaia.wordpress.com/2009/08/21/o-rol-de-bosi-voce-ja-leu/), conhece  uma lista feita pelo professor Alfredo Bosi com os 120 livros célebres e  obrigatórios da Literatura Brasileira.

 Não é intenção minha criticar a lista, muito pelo contrário, ela, como disse a Carolina Cecatto em seu post, engloba toda literatura brasileira e nos traz belas surpresas simbolistas, quebrando, de certo modo, alguns estigmas que este movimento carregou e carrega, pela falta de conhecimento de professores de literatura mal formados e mal informados. A minha intenção é chamar a atenção para o veio depois de José Paulo Paes  e seu  Um por todos, de 1986. Afinal lá se vão vinte e quatro anos, uma geração inteira passou, e outra já começou o contato com os livros.

 Nossa literatura, claro, não parou em 1986, tampouco a poesia morreu em João Cabral de Melo Neto, como alguns querem que acreditemos. E se livros como O caçador de pipas, A Cabana e O Código da Vinci tornam-se  febres entre os brasileiros e permanecem por meses nas listas dos mais vendidos a culpa é dos professores de literatura do ensino fundamental, que teimam em enfiar goela abaixo, autores que os alunos não estão preparados para ler. O resultado todos nós sabemos: “Ler é chato” , dizem 9 em cada 10 alunos.

 No último semestre de 2009, ao frequentar uma escola pública, para cumprir horas de  estágio,  tive uma grata surpresa quando assisti a uma aula de literatura do ensino médio. A professora, de maneira inteligente, aproveitou a onda da saga Crepúsculo para apresentar aos alunos Edgar Alan Poe, e depois com muito tato falou de um “tal”  Dalton Trevisan. Bom…quem conhece um pouquinho dos exemplos acima, deve estar se perguntando: O que tem o cú com as calças?  Resposta: Nada! Mas…se este foi o jeito que ela achou para fazer os alunos pararem 20 minutos para ler um conto do Trevisan quem sou eu para criticar.

  O que realmente é fato, é que o livro concorre, nos dias de hoje, com meios tão imediatos de entretenimento que possui o mesmo caminho que a cultura traçou depois da revolução francesa: a divisão em arte ou entretenimento. Isto é, produtos feitos para o grande público e com qualidade questionável são colocados anualmente aos montes e conseguem se manter através da sua própria venda; como é o caso da maioria dos filmes de Hollywood, isto chamamos entretenimento. Por outro lado, produtos com conteúdo que questionam os padrões estéticos vigentes ou que não alcançam um público vasto –devido a vários fatores que não caberiam neste espaço,  precisam daquilo que antigamente era conhecido como mecenas; hoje como Petrobrás, Eletrobrás, BNDS, enfim…

 Em resumo, se nada for feito, bons autores, ficarão sujeitos aos Mecenas, enquanto as livrarias terão best-sellers abarrotando a estante dos 10 mais vendidos da semana. Espaço que já sabemos é comprado como se fosse uma gôndola de supermercado. O que não estou dizendo que seja ruim, na verdade existe uma industria editorial que não sobreviveria um ano apenas com bons livros. Exceto se conseguir um bom contrato com o governo na venda de livros didáticos, ma essa é outra história para uma próxima vez.

 Decidi colocar abaixo, uma lista  com 10% da quantidade de livros que contém no rol do Professor Bosi, mas que é um bom começo, ao meu ver, para quem quer incutir nos alunos a nova (ou nem tanto, afinal tem gente com mais de 80 anos) literatura brasileira.

A ordem é aleatória.

  1. Comédias para se ler na escola – Luiz Fernando Veríssimo
  2. Dois Irmãos – Milton Hatoum
  3. Budapeste – Chico Buarque
  4. Não Verás País Nenhum- Ignácio de Loyola Brandão
  5. O Fazedor de Amanhecer – Manoel de Barros
  6. Manual Prático do Ódio – Ferréz
  7. O Cheiro do Ralo – Lourenço Mutarelli
  8. A Polaquinha – Dalton Trevisan
  9. A Casa dos Budas Ditosos –  João Ubaldo Ribeiro
  10. Agosto – Rubem Fonseca
  11. As horas Nuas – Lygia Fagundes Telles
  12. O Matador – Patrícia Melo

 Convido-os a fazer com que esta lista chegue aos 120 livros. Antes uma pergunta:

Denis Silva





O Último Round, ou Um outro modo de mirar.

30 01 2010

Último Round é um livro inóspito. Talvez o mais inóspito do seu autor, Julio Cortázar, tão diferenciado quanto Rayuela e Historias de Cronópios y de Famas.

Este é um livro de textos curtos, de contos, prosa poética, ensaios, poemas, desenhos e fotografias. O ato de juntar todas estas modalidades, aliado ao projeto gráfico diferenciado, coisificou o livro, transformando-o numa espécie de almanaque folheável, algo que desconstrói o formato clássico do livro (linear e lógico). Uma obra que pode ser lida do ponto em que for aberta, da frase que primeiro saltar à vista, ou mesmo desde a capa, de onde o livro começa de fato.

Aqui o lirismo se funde ao lúdico, ao curioso e ao inusitado: no território onde pode ser que a poesia costuma se esconder, na desautomatização dos gestos, ou, em palavras do próprio autor, “un otro modo de mirar”, a reinvenção da vida.

O livro está disponível em português pela Civilização Brasileira, dividido em dois tomos. Minha edição é a terceira, da Siglo Veintiuno, de 1972. Traduzo aqui como exercício duas passagens do livro; a segunda, um poema lírico-surrealista (que evoca as imagens de Dali, etc.); a primeira, uma prosa imaginativa, própria da forma como uma criança contaria uma história, que convida o leitor a um território outro, mágico, inóspito.

The Canary Murder Case II

É terrível, minha tia me convida para o seu aniversário, compro de presente um canário pra ela, chego lá não tem ninguém, meu calendário é defeituoso, na volta o canário canta aos montes no bonde, os passageiros entram em estado de cólera[1], tiro o bilhete do animal para que o respeitem, ao abaixar-me dou com a gaiola na cabeça de uma senhora que me mostra os dentes, chego em casa banhado de alpiste, minha mulher fugiu com o escrivão, caio duro no saguão e esmago o canário, os vizinhos chamam a ambulância e o levam em uma maca, fiquei a noite inteira jogado no saguão comendo o alpiste e ouvindo o telefone na sala, deve ser minha tia ligando, e liga pra que eu não me esqueça do seu aniversário, ela sempre conta com o meu presente, minha pobre tia.

O Sonho

O sonho, essa neve doce

que beija o rosto, rói até que encontre

debaixo, suspenso por fios musicais,

o outro, que desperta.

In: CORTAZAR, Julio. Ultimo Round. 3ª ed. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1972.

Lucas de Sena Lima


[1] No original, Amok. Amok é uma palavra proveniente do malaio para designar um estado de fúria violenta incontrolável, causada por um distúrbio psicopatológico. (N. do T.)





Louco ou não? Só conhecendo para dizer…

28 01 2010

Muito já foi escrito e falado sobre O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, a universal e atemporal história do espanhol Miguel de Cervantes, publicada em dois volumes no início do século XVII.

A história é conhecida até para quem nunca leu a obra. Um senhor de um rincão da Espanha é obcecado por ‘novelas de cavalaria’, e resolve sair pelo mundo praticando o que depreende dos muitos livros que lera. Movido por uma fé imensurável em valores já estranhos à sociedade em que vive, ele distorce tudo o que vê e encontra, colocando-se em situações inimagináveis – onde o perigo ou o absurdo disputam terreno com o ridículo.

Dom Quixote e os gigantes, por Gustave Doré

Existe um excelente texto (apesar de extenso) a respeito do livro no site da Academia Brasileira de Letras, escrito por Ivan Junqueira. Nele, o imortal tece relações temáticas, filosóficas, sociais…, de maneira bastante interessante e iluminadora.

É um artigo (corrigindo: é uma conferência…) relativamente difícil, pelo nível de referências que traz. Mas vale demais a pena.

O livro em si também é complexo. Não só em relação à história, mas quanto à linguagem, aos diálogos intertextuais que propõe, ao repertório exigido do leitor, ao próprio tamanho da história.

Compreensível, pois falamos de uma obra de 400 anos de idade…

Mas é um livro atual. E mais: necessário. Verdadeiro tesouro da humanidade – basta ver sua popularidade e a quantidade de referências que recebe, das mais variadas formas e nas mais diversas áreas.

Menciono a continuação “alheia” , escrita (por Alonso Fernández de Avellaneda) antes de a segunda parte do livro ser lançada por Cervantes – e cuja existência é mencionada na continuação original pelo próprio Cavaleiro da Triste Figura, levando-o a mudar totalmente o rumo da própria história.

E ainda outras continuações posteriores, em tempos e países diversos…

Enfim, não há como não se transformar bastante ao se passar por aquelas páginas.

Isso tudo faz pensar que deveria ser um livro mais lido, mais trabalhado – é raro, mesmo em estudantes da área de Humanas, encontrar quem tenha tido disposição de lê-lo por ‘livre e espontânea vontade’.

Eis uma questão: como tornar o Dom Quixote acessível a novos leitores – e não só a eles?

Dom Quixote das crianças (Ed. Brasiliense)

Uma maneira de se aproximar do livro é usar a ponte estabelecida por autores que já pensaram nisso. Um grande exemplo é Monteiro Lobato, com seu Dom Quixote das crianças, de 1936. Nele, Emília encontra o livro em uma prateleira da biblioteca do Sítio; Dona Benta se propõe a lê-lo para as crianças, mas diante das dificuldades, ela prefere contar a história de cabeça.

Uma ótima abordagem, que traz a história às crianças sem o ”preço” da simples adaptação da obra, que sempre implica em perdas inevitáveis. De fato, Monteiro Lobato não propõe um livro “substituto” da obra original: antes, concede o acesso a ela através de suas personagens imortais, como Emília, o Visconde, Pedrinho e Narizinho… dessa forma, desperta a curiosidade, e deixa claro que a fonte está ali, e para se aproveitar mais, é só ir até ela.

Não que a história do pessoal do Sítio do Picapau Amarelo não tenha valor por si só – muito pelo contrário. Mas, neste caso, é também uma via para a obra clássica, a ‘geradora do diálogo’. Algo que não pode ser desprezado.

E esse itinerário todo fatalmente nos levará à pergunta que ainda não encontrou sua resposta: Dom Quixote era louco ou não era?

Taí…

Alexandre Oliveira