
Uma vez, ouvi dizer que os seres humanos diferem dos outros animais, ditos irracionais (segundo nossos parâmetros) em função da capacidade de se comunicar de forma complexa. Haveria outros motivos para distinguir homem e bicho, mas quero tentar falar um pouquinho sobre a comunicação humana. Mais propriamente, desejo falar de um estágio, ou parte, ou fase desta comunicação: a leitura.
A leitura é, entre outras coisas, o que nos permite conviver em sociedade, porque lemos, não apenas palavras, mas o mundo, ora decifrando, ora decodificando tudo o que dele surgir. A leitura verbal, baseada na fala e na escrita, ao menos no Ocidente, se vale de uma faceta do signo linguístico, de sua imagem acústica, para que se tenha a compreensão ou a decifração da mensagem por meio do código linguístico. Já a leitura não-verbal revela a representação de um sistema em que as palavras não fazem parte…
Como podemos ler, então?
Quando disse que a leitura se destina à interpretação do mundo, você pode entender que qualquer tipo de linguagem, seja artística, simbólica, literal… pode ser lida. Calados, muitas vezes “falamos” mais da gente do que se falássemos, efetivamente, sobre nós mesmos. Nossas preferências indicam o que gostamos, nossas roupas dizem muitas vezes nossas intenções, tudo o que escolhemos, muitas vezes, revelam até mesmo o que nós queremos que os outros pensem da gente… e, consciente ou inconscientemente, isso acontece. As escolhas, essencialmente individuais, mostram algo que queremos comunicar por meio de signos que revelam nossa auto-imagem, ou a imagem que os outros indíviduos possam ter de nós. Estes signos, portanto, prescindem das palavras. Quando compreendemos o mundo, as outras pessoas, pela maneira que se mostram, pelo que o querem passar… dizemos que lemos sem nenhuma palavra, nenhumazinha.
Como isso é possível?
O código é o elemento que nos proporciona a leitura. Fora o código linguístico, existem muitas outras estruturas de comunicação que codificam a representação do mundo em que vivemos, do qual queremos falar. Decodificar, dessa forma, seria conhecer o código, desvendando-o, interpretando-o. Para tanto, além da codificação, precisamos também saber como é que os signos se comportam, como se organizam para o estabelecimento da leitura e da concretização do ato de comunicar. Além disso, também devemos ter em mente que muito do “arsenal” de compreensão de mundo que temos vêm das associações que fazemos. Partindo de uma sintaxe linear (o que é característico da leitura verbal) ou de uma organização comparativa entre objetos, pessoas, fatos sociais e situações cotidianas principalmente (característica da leitura não-verbal), não importa, a gente sempre acaba lendo.
Ocorre que o texto não-verbal é destituído de um código definido. Seus signos são como os fragmentos de um meteoro, dispersos. Não existe uma organização clara dos signos, eles não são convencionais neste tipo de texto. A simultaneidade dos sons, das cores, dos cheiros, dos sabores, contudo, produzem uma nova ordem e permitem a produção e a organização dos símbolos, dos índices, dos ícones que proporcinam a decodificação deles e, finalmente, formam a comunicação.
Essa produção de um signo que possa estabelecer a comunicação não-verbal e sua leitura, apesar de aparentemente aleatória,
se constrói gradativamente, se consolida devido à nossa bagagem cultural, ao nosso repertório. Há determinadas leituras que podem até parecer universais, mas as convenções ficam de lado e dão espaço à individualidade, ao caudal de possibilidades que propõe ao leitor.
A Semiótica, lógica da linguagem, tem se deparado com a questão das palavras e das “sem palavras” constantemente. Considerando tudo o quanto possa comunicar como texto, poderíamos pensar que a leitura não-verbal possa ser uma sugestão de uma experiência nossa pautada, muitas vezes, em algo cotidiano. Uma impressão, porque toda e qualquer interpretação é possível, mas nunca é totalmente correta ou completa.

Leitura não-verbal: os fragmentos sígnicos nos dão uma ideia, uma impressão do mundo. Para alguns, essa imagem não tem nada de errado. Os signos estão em harmonia, há naturalidade e tudo o quanto existe na imagem faz parte da ambientação do mundo contemporâneo, liberal. Para outros, há um descompasso tão grande, que a leitura pode se mostrar como uma afronta, um desrespeito, uma total inversão de valores. Como podemos ler essa imagem, o que ela nos diz?

Para alguns o céu azul e limpo é uma beleza: praia, sol, vida. Para outros, os que dependem da chuva nas plantações, os que vivem e dependem da terra, os que são flagelados pela seca... a leitura dessa imagem é a morte.
Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves
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