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Archive for the ‘Arte’ Category

 Por: Denis J. Xavier

 

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu alguém dizer: Sim eu assisti, mas prefiro o livro!. Pois bem, não é de hoje que a sétima arte utiliza textos literários transformando-os em roteiros e criando assim uma discussão eterna sobre o que é melhor: Filme ou Livro?. As adaptações de obras literárias para o cinema começaram tão logo os irmãos Auguste e Louis Lumiére fizeram a primeira projeção da história, e continuarão por muito tempo, pois esta é uma fonte inesgotável de histórias.

E mesmo com todos os prêmios dedicados aos roteiristas, são famosas as críticas de muitos autores à transformação de seus textos em filmes. Hemingway, por exemplo, reclamou de O velho e o mar. Mas há autores que ficam felizes com os trabalhos feitos a partir de suas obras. Um deles foi José Saramago, que teceu elogios à adaptação de Don McKellar, para seu livro Ensaio sobre a cegueira, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, em 2008.

Para mim esta disputa não se faz necessária, e alguns roteiros adaptados corroboram minha opinião. Um deles é Dom Quixote. Orson Welles fez um filme belíssimo. Nem melhor, nem pior que a leitura do livro de Cervantes; é, sim, uma experiência diferente. Outro caso de ótima adaptação é o do filme Mutum, da cineasta Sandra Kogut, adaptado da obra Campo Geral de Guimarães Rosa. Um dos mais belos filmes brasileiros dos últimos dez anos, que provoca sensações outras em comparação à leitura da obra.

Ao final deste texto há um filme datado de 1903. Uma adaptação de As Aventuras de Alice no país das Maravilhas. Os quase 9 minutos mais parecem um filme de terror tosco de nossos dias. Chega a ser bizarro, mas o intuito é mostrar como a adaptação deste texto foi feita há pouco mais de 100 anos. Antes disso, vejamos a diferença entre um trecho de uma obra literária e seu correspondente em roteiro:

 

Livro e filme: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

Trecho do livro: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto que o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método…”

 

Trecho do roteiro¹:

Dia chuvoso. Brás Cubas dentro de um caixão. Fecham o caixão e começa a sair o féretro com umas 10 pessoas acompanhando, guarda-chuvas abertos. Vemos o rosto de Brás dentro do caixão (câmera dentro do caixão).

FANTASMA FALA

(Off) Algum tempo pensei se a história deveria começar pelo começo ou pelo fim, isto é, se eu contaria antes o meu nascimento ou a minha morte.

O caixão percorre o cemitério e chega a uma cova aberta. VIRGÍLIA em especial destaque durante o percurso.

 

Na comparação destes dois trechos há muitas diferenças. Mas, para você que leu o livro de Machado de Assis, a quantidade de pessoas na cena do enterro não te chama a atenção? E o destaque a Virgília durante o enterro? Enquanto, na obra, Machado pede paciência ao leitor para poder manter em segredo por algum tempo a terceira senhora, no filme ela aparece logo no começo do enredo. Ainda que, no filme, seja revelada pouco depois, sua identidade acaba aparecendo antes do momento em que isso acontece no livro.

Apesar de tudo o que se diga sobre adaptações, quem deixa a paixão pela obra literária de lado normalmente consegue ter prazer com as duas artes. Compreende que são formatos diferentes e que aquilo que cabe nas páginas de seu livro favorito muitas vezes não cabe em 120 minutos de um filme. Por isso, deixe fluir. Boa leitura e bom filme a todos.

 

Fontes:

(¹) Roteiro baseado no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Alice no País das Maravilhas (1903).

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Por: Nathaly Alves

 

Mímese: imitação das aparências, das essências, das ações, ou dos estados de alma?

Particularmente significativo para o entendimento do fenômeno artístico, principalmente do literário, o conceito de mimesis tem sido objeto de análise de muitos estudiosos desde os filósofos da Grécia Antiga.

Mímese, grosso modo, significa “imitação” e, nesse sentido, pode possuir diversas interpretações.

Para Platão, a arte, sob o prisma mimético, dizia respeito às opiniões e às aparências representadoras do mundo dito real. Segundo esta concepção, portanto, a mímese representa a imitação das aparências (da realidade).

Segundo a doutrina platônica, porém, faz-se válida a lembrança de que a realidade em si é meramente uma imagem, praticamente um vulto, por assim dizer, do plano das ideias eternas. Pensando desta forma, a arte se configuraria como uma espécie de espectro da realidade, um simulacro que não mostraria reconhecimento verdadeiro em um plano de realidade.

Por outro lado, Aristóteles relaciona o conceito de mímese à imitação das essências do mundo. Desta maneira, o imitar não estaria sujeito à mera duplicação de uma imagem referente, por exemplo. A configuração mimética, de acordo com o ensinamento aristotélico, implicaria em um profundo conhecimento da natureza humana. Atrelada ao conceito de mímese de Aristóteles, o objeto da arte se tornaria real na medida em que se dirigisse purificação que liberta os seres: a catarse.

Outros estudos gregos da Antiguidade, como os de Pitágoras, versam que o fenômeno mimético não é senão a “expressão dos estados de alma”, que implicariam até mesmo em uma possível terapia para autor e leitores da arte, à medida que os sentimentos seriam tratados quando expostos.

De qualquer forma, a mímese entendida como espelho passou por séculos até o conceito aristotélico foi verdadeiramente decodificado em seu real significado por Kant, Hegel (filósofos) e Hölderlin (escritor). A partir das considerações destes estudiosos, a mímese passou a ser encarada como manifestação da plenitude da realidade.

Pensando propriamente em literatura, percebe-se que a linguagem – convencional e arbitrária – configura uma realidade mais essencial que virtual. A realidade é transmutada em simbologia de essências universais, pois imitar não é copiar. A arte complementa a natureza sem, necessariamente, confundir-se com ela.

Mímese, em síntese, pode ser considerada atualmente como imitação, tal como os gregos proferiram. Mas, reprodução de sua capacidade de gerar, de criar. Além disso, antes da imitação da força natural, da realidade, da materialidade, da substancialidade, enfim… Pode-se entender que, hoje, a arte, por meio da mímese, recria a realidade, absorvendo sua essência revigorando-a. Criando seu próprio universo.

 

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A gente começa a ler o livro antes de lidar com qualquer palavra. A leitura começa no tato, no olhar. Um livro pequeno, com os cantos arredondados, em papel cartonado, parecendo um livro infantil, embora seja inteiro preto e branco. Deve ser por isto que Mario Bellatin, que escreveu a quarta capa, assinalou: “Estou convencido de que uma das características de um livro contemporâneo é que, antes de ser uma leitura, ele é uma experiência”. Uma experiência sensorial, o prazer do livro físico.

Os Anões é o terceiro livro para adultos da gaúcha Veronica Stigger, ex-jornalista, hoje professora e crítica de arte. São textos curtos, histórias que exploram nosso sadismo e nosso fascínio pelo estranho, o inabitual dentro do habitual.

O livro é dividido em três partes: “Pré-Histórias”, “Histórias” e “Histórias da Arte”. Dialoga, o tempo todo, com a história da arte e com a antropologia, mostra uma fauna de criaturas selvagens, inclusive ela mesma, a artista Veronica, aparece algumas vezes no livro.

Há aqui o deslocamento de textos e situações para o suporte livro, numa espécie de ready-made, quando uma anotação para uma amiga, um rascunho com um endereço ou um anúncio publicitário, se transforma em arte. E há o curioso registro sobre a mercantilização da arte, como em textos nos quais os nomes de grandes artistas servem de anúncios de venda de apartamentos, jogos de talheres, etc.

E há ainda, sobretudo, as imagens do absurdo, em linguagem descritiva e fluente. Imagens de Kafka, mas, aqui, não somente o irreal e ilógico que dão sentido ao termo “kafkiano”, também o oposto, o excesso de realidade a que estamos expostos. Numa temporada de caça ou numa colheita de cogumelos que acaba mal, o homem, para satisfazer vontades estranhas, põe em risco a vida:

Caça

Primeiro dia da temporada de caça. Dois caçadores já morreram por engano, e uma camponesa foi atingida nas nádegas por um disparo perdido. A bala foi retirada com sucesso e a camponesa passa bem.

O conto que dá título ao livro traz a história de um casal de anões que tenta furar a fila e é vítima de um linchamento coletivo, tornando-se repositório da cólera geral. (O conto se encerra como na famosa cena kafkiana de A Metamorfose). O anão, figura representativa do grotesco, do diferente, abre um embate entre cidadãos normais versus os deficientes, os seres éticos versus aqueles com “graves falhas de caráter”. O conto seguinte sugere, sutilmente, uma continuidade:

Teste

− Que tal fazer, então, o mesmo teste com mulheres gordinhas, de cabelos crespos?

Em um conto mais à frente, uma clara e interessante referência à pessoa da autora. Ela se suicida no seu apartamento novo durante uma festa; depois, seu namorado lê aos convidados um conto deixado por ela, que ninguém entende (conto que aponta a incompreensão de um ato suicida e a incomunicabilidade da arte). Ainda mais à frente, uma história de um amor estranho, suicida, nas cenas dos contos Curta Metragem I e II, em linguagem de roteiro de cinema, um gênero curioso e questionado na literatura. Um dos contos mais impressionantes é “Quand avez-vous le plus souffert?” (Quando você mais sofre?) em que, numa cena de ternura materna, a mãe estrangula uma criança com um fio de lã.

O livro termina com um fac-símile de um documento da autora, e seu curioso equívoco de registro que a coloca como pertencente ao sexo masculino, o que põe em jogo a contestação da noção de gênero, sexual e literário.

Veronica Stigger/Divulgação

Os Anões é um livro de cenas deliciosas  belas ideias, e de reflexões sobre a arte. Não é um livro de artifícios de linguagem, metáforas engenhosas, trabalho linguístico. É um livro de instantes, que, apesar de por vezes parecer desnecessariamente detalhados, nos proporciona momentos de gozo assim que percebemos: que bela sacada esta, que situação louca. E não voltamos a ser os mesmos.

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Lucas de Sena Lima

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A filosofia de Nietzsche é um instrumento de combate, um instrumento conceitual indispensável para uma crítica radical dos valores da sociedade contemporânea.

Hoje ninguém mais duvida da existência de uma intensa e extensa crise de valores das sociedades atuais. Mas foi ainda no século XIX que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche realizou, e não a primeira, a crítica mais radical das sociedades modernas, que ele considerou como niilistas e decadentes. (Texto de orelha do livro Nietzsche e a  Verdade, de Roberto Machado)

(…). Nietzsche foi um dos primeiros pensadores a apontar a existência de um lado sombrio da Modernidade, disfarçado geralmente sob uma aura de progresso científico e avanço tecnológico. (Texto de orelha do livro  A Genealogia da Moral, tradução de Mário Ferreira dos Santos)

“Deus está morto!” – com esta afirmação Nietzsche aponta o maior acontecimento da “história universal” e localiza, assim, o ponto de partida de sua reflexão filosófica. Deus é sinônimo de transcendência, de idealidade; ele é o fundamento e a garantia dos valores absolutos: Belo, Bem, Verdadeiro. (Luciana Zaterka, http://www.fflch.usp.br/df/gen/pdf/cn_01_05.pdf)

 E então…?

  • Ler os textos de Nietzsche não é tarefa fácil e, ainda se fosse, falar de Filosofia requer um certo cuidado porque mexe, afinal, com os nossos pensamentos. Questionar a si e a sociedade em que vivemos é algo doloroso porque veremos, de fato, o caos que se apresenta. E por falar em caos porque não pensar em Nietzsche? Nietzsche revelou o seu desagrado ao mundo idealizado em que sonhavam as pessoas morar, e com isso ganhou alguns apelidos: Nietzsche foi chamado já de pessimista, ateu, louco e por aí vai uma infinidade de pré-julgamentos.
  • Nietzsche foi um bom filho, um bom aluno e um bom professor (era professor universitário) e sofre muito a influência dos escritos de Arthur Schopenhauer, “o cavaleiro solitário”, mais um dos “pessimistas”. Na verdade, em linhas gerais Schopenhauer não se enquadrava no século XIX e introduziu o pensamento budista no pensar alemão da época. Para ele, a felicidade só poderia ser de fato alcançada com a anulação de toda e qualquer Vontade, sendo o homem um ser de Paixões e Vontades… Somente em estado de Nirvana* o homem anularia as Vontades.
  • Com essa influência e outras e as próprias reflexões, Nietzsche vai percebendo o quanto a sociedade está decadente e então temos a célebre frase “Deus está morto”. Nietzsche nega a existência dessa Transcendência (Deus) nessa sociedade decadente. E quem mata Deus, então? Nietzsche ou as próprias pessoas?
  • Nietzsche também fala das regras morais para conduzir os homens em sociedade, questionando a liberdade de ser: “Essa moral heterônoma, imposta, escolhida pelos dominadores, imposta pelo passado e predominante no presente pela vontade dos que representam os interesses do passado, é odiosa para mim. Quis substituir o “tu deves” pelo “eu quero”. O homem não é homem enquanto não puder praticar esse grande ato de liberdade, que o tornará senhor de si, quando respeitará a dignidade alheia por amor à sua própria dignidade, e assim o fará porque quer e não porque deve.” (Nietzsche, A Genealogia da Moral.)

AOS QUE AFIRMAM QUE O HOMEM É INCAPAZ DE ATINGIR ESSE REINO DE LIBERDADE, REPLICO-LHES QUE É A SUA FRAQUEZA QUE FALA ATRAVÉS DE SUAS PALAVRAS.

FRIEDRICH NIETZSCHE

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significa “extinto” ou “apagado”; isso equivale a dizer que o ego é extinto. O ego é transcendido.

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PAULA CRISTINA

Para saber mais:

http://www.fflch.usp.br/df/gen/index_port.html

http://www.fflch.usp.br/df/gen/pdf/cn_01_05.pdf

http://neurosefreudiana.wordpress.com/2009/07/12/friedrich-nietzsche-e-o-auto-conhecimento-e-ausencia-de-si/

http://filosofiaevertigem.wordpress.com/2009/05/29/nietzsche-tracos-biograficos/

 

 

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por: Carolina Cecatto

 

Quem aqui nunca leu um gibi da Turma da Mônica pra se entreter? E quem aqui nunca saiu com um riso após ler essas HQ’s?

A Turma da Mônica foi criada por Mauricio de Sousa em 1959. De lá pra cá os personagens do cartunista sofreram mudanças em seus traços, mas seus trejeitos sempre foram constantes.

Digo isso, porque li há uns meses, um artigo do Dioclécio Luz, do site Observatório de Imprensa, que me fez refletir sobre o ponto de vista dele e, consequentemente, discordar. Se vocês quiserem/tiverem um tempo podem ler aqui o tal artigo.

Ao discordar, num primeiro instante, perguntei-me inclusive o que me fazia ficar ali e perder meus bons minutos lendo um artigo que chafurdava na lama a principal HQ da minha infância. E assim foi: aquele artigo serviu-me de apoio para argumentar pontos favoráveis às HQ’s de Mauricio de Sousa. Vou falar por que é legal ler A Turma da Mônica e, para tal intento, vou contrapor o que li no artigo do Dioclécio.

A Mônica, a dona da rua, foi mencionada pelo já citado resenhista como sendo de comportamento extremamente violento, capaz de incentivar de maneira péssima as crianças que leem as HQ’s. Se por um lado temos esta faceta, é necessário observar até que ponto se dá esta influência: exemplos de casa vistos pela criança ou mesmo na escola podem ser determinantes. Tirando este fator, deve-se pensar um pouco além daquilo que se vê: o fato de uma criança acompanhar, por mais incrível que possa parecer, algumas cenas de violência num gibi – levando-se em consideração as adequações de faixa etária – serve de canal no qual a criança encontra um jeito de externar toda a sua raiva e repressão, sem precisar, para isso, descontar fisicamente num colega de escola. O gibi serve pra canalizar, focar essa energia que a criança carrega. Ao ler, parte dessa energia se esvai na leitura. Lindo, não? (Devo estas informações ao professor Reynaldo Damázio, num curso de HQ’s que fiz com ele).

Sobre a Magali, foi dito sobre o estigma de comilona. Tudo bem, isso é fato. Agora, como eu já disse, ficar no superficial não satisfaz. Bem, a Magali não é só uma garota que come e não engorda. Não é uma personagem que instiga a obesidade infantil. Ela incentiva a criança a comer. Prova disso é que a personagem ainda faz campanha junto com a mãe do Dudu para que ele se alimente. Quer uma personagem mais legal para os pais usarem de exemplo na hora de alimentar uma criança? A gente bem sabe como é difícil entreter algumas crianças na arte da comida.

Outro personagem que foi citado, o Chico Bento, merece algumas observações. Chico foi colocado como sendo uma personagem vista por um aburguesado, a visão que este tem do campesinato. À parte dos termos bem ligados ao socialismo, vamos entrar na questão linguística e, no bom clichezão, tentar ampliar os horizontes. Chico Bento é uma personagem que mostra esse meio rural, de forma caricatural sim, mas entendo que Mauricio, ao criá-lo, quis mais aproximar aquela realidade do que satirizar ou simplesmente rotular o meio rural. E, como disse antes, a questão linguística, no caso, a variante linguística que nos é apresentada vem também como forma de aproximar, dizer que mesmo nos muitos dialetos, podemos nos comunicar, salvo algumas expressões locais, é claro. É uma forma de tirar certos preconceitos linguísticos e também de conhecer um pouco mais dos vários tipos de falantes nesse nosso Brasil.

O gibi de Mauricio calha muito bem nesse sentido, inclusive recomendo altamente ser utlizado em sala de aula para atividades, se possível. Quando a gente analisa esta nona arte, precisamos expandir o pensamento. Se você presencia uma criança que curte leituras como essa, pode ter certeza que não é só porque a Mônica é violenta, ou porque a Magali é comilona e o Chico Bento é só um ícone do olhar burguês sobre o homem do campo. Há muito mais camadas por se descobrir. Algumas citei. Outras, cada  leitor poderá descobrir por si.

Antes que me esqueça: outro motivo que me fez escrever aqui foi porque, depois de muito tempo, voltei a ler os gibis da Turma da Mônica. Parte se deve à tumblr do Porra Mauricio. O site sacaneia as tirinhas do gibi, mas é engraçado – e o melhor: Mauricio de Sousa curtiu. Depois desse site muita gente, fiquei sabendo, voltou a comprar seus gibis.

Pra fechar parcialmente a questão, tenho que fazer minhas vezes de fã, de leitora que adora HQ’s da Turma da Mônica e que entende que a gente quando se afinca numa leitura é porque ali tem muito de nós, simples assim. O legal da Arte é se fazer caleidoscópica. É por essas e outras que vemos muitas interpretações, algumas às vezes muito taxativas (não trabalha com possibilidades), o que enfraquece a análise. Maravilha também é perceber outra coisa que a Arte deixa no rastro: repercussão e olhares distintos.

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Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves


A civilização egípcia  que se manteve ativa por mais de três mil anos. Foi responsável pela criação de um império religioso-científico eminente. Criadores de alguns princípios da matemática, da astronomia, da medicina e da agrimensura, os egípcios também foram desenvolvedores de um código linguístico incrivelmente complexo e  rico, os hieróglifos, a que demos uma rápida atenção no último post.

Permeada em uma atmosfera de fascínio e de mistério, e amparada sobre intensa efervescência cultural, principalmente promovida pelas lendas, floresceu a mitologia egípcia.

A mitologia dos egípcios agasalha as mais diversas divindades, as quais comumente podemos relacionar, em grau de similaridade, com outros panteões. O grego, por exemplo, apresenta variadas expressões mitológicas semelhantes às do Egito.  Preferimos, contudo, relembrar apenas as deidades consideradas “principais”, as mais significativas. Além disso, como dissemos, existem inúmeros deuses que foram criados e cultuados pelo povo. Muitas destas entidades cósmicas, porém, apresentam forças, virtudes ou falhas, arquétipos, enfim, semelhantes.

Há especulações que mencionam os atlantes como os criadores da mitologia do Egito (sabendo que a sua grande ilha iria sucumbir, os sábios deste povo, conhecido pelo mistério de seu desaparecimento e de sua possível super-tecnologia, enviaram a outra região entidades especiais, que, por sua vez, maravilhadas com o povo que vivia ao entorno do Nilo, decidiram lá se estabecer e ensinar a agricultura).

Outros, pensam se tratar os deuses do Egito Antigo, dos faraós da era pré-dinástica. Eles teriam governado com justiça, estabelecendo os limites do país e ensinando a civilização e a agricultura ao povo. Dessa crença, advém a ideia de  que é comum e correta a prática dos casamentos entre e os faraós e as rainhas ocorrerem muitas vezes entre irmãos. O  laço consanguíneo próximo, acreditava-se, purificava mais a união nobre e, os deuses também se casam entre irmãos. O casamento, portanto, elevava a condição humana.

Deuses egípcios (para algumas linhas de pesquisa os Neteru*)

Os deuses do princípio criador

Nun (as águas primordiais, a partir das quais todo o mundo foi engendrado; é a divindade ancestral) e Aton (o rei de todos os deuses, aquele que criou o universo. É o mesmo deus que gerou Shu, o ar, e Tefnut, a umidade).


Eneada – os nove principais

Amon – deus sol: o deus-carneiro de Tebas, rei dos deuses e patrono dos faraós. É o senhor dos templos de Luxor e Karnac. Tem por esposa Mut e por filho Khonsu. Seu culto data de 2000 a.C. Sob o nome de Amon-Rá é criador da ordem divina. Ele é o sol que dá vida ao país. Amon tornou-se um título monárquico, mesmo título que Ptah e .

Shu (deus do ar e da luz) e Tefnut (deusa da umidade e da graça): este casal constitui a sístole e a diástole universais e a atmosfera. Shu é a personificação da atmosfera diurna que sustenta o céu. Tem a tarefa de trazer o deus Sol, seu pai, bem como o faraó à vida ao alvorecer. É a essência da condição seca, do gênero masculino, calor, luz e perfeição. É representado como o homem que segura Nut, a deusa do céu, para separá-la de Geb, o deus da Terra (seus filhos). Já Tefnut espera o sol libertar-se do oriente para recebê-lo. A deusa é irmã e mulher de Shu. É o símbolo das dádivas e da generosidade, também conhecida por afastar a fome. Este casal representa o “ritmo do universo”.

Get (a Terra) e Nut (o firmamento): Get é o suporte físico do mundo material, sempre deitado sob corpo da esposa. Ele é o responsável pela fertilidade e pelo sucesso nas colheitas, estimulando o mundo material dos indivíduos e lhes promovendo enterro no solo após a morte. Este deus umedece o corpo humano na terra e o sela para a eternidade. Nas pinturas é sempre representado com um ganso acima de sua fronte. Nut é deusa do céu que acolhe os mortos no seu reino. Com o seu corpo esbelto, ornamentado por estrelas, encarna a curvatura da abóbada celeste que se estende sobre o planeta. É como um carinhoso abraço da deusa do céu sobre Geb, o deus da Terra. Nut e Geb são pais de Osíris, Ísis, Seth, Néftis e Hathor. Osíris e Ísis já se amavam no ventre da mãe e a perversidade de Seth evidenciou-se, logo ao nascer,  rasgando o ventre materno. Note-se, agora, uma disparidade com o mito de criação grego: Gaia (Géia) é a personificação feminina do planeta, mantendo um relacionamento de passividade com Urano, o céu (masculino).

Osíris (o deus do julgamento, dos mortos, pai e senhor de todo o Egito): sua gênese consta nos relatos da criação do mundo, sua geração é a ultima a acontecer e não representa mais os elementos materiais (como o céu, a terra, etc.). Há um mito que narra a ressurreição da vida relacionada com a cheia do Nilo, que mantém relacionamento com este deus. Osíris é morto, destruído e ressuscitado, relembrando, assim, a morte e a vida da vegetação e de todos os seres. Desta maneira, ele é o deus dos mortos e da ressurreição, rei e juiz supremo do mundo dos mortos. Acredita-se que ele tenha sido o primeiro Faraó e que ensinou aos homens  a civilização e a agricultura ao entorno do rio sagrado. Pensa-se ainda que seu mito teria similaridade com a história de Cristo.

Ísis (deusa mãe, protetora do Egito): resultado da união do material e do espiritual, é a mais popular de todas as deusas egípcias, considerada a deusa da família, o modelo de esposa e mãe, invencível e protetora. Usa os poderes da magia para ajudar os necessitados. Ela criou o rio Nilo com as suas lágrimas. Reza a lenda que, após a morte de seu amado esposo, ela transforma-se em um milhafre para chorá-lo, reúne os seus despojos, empenhando em trazê-lo de volta à vida. De sua pura união com ele, concebe um filho, Hórus.  Perfeita esposa e mãe ela é um dos pilares da tessitura sócio-religiosa egípcia. Sua coroa memora um assento com espaldar (trono) que é o hieróglifo correspondente a seu nome nome. É importante dizer que o conceito da “imaculada concepção”  e de beleza exemplar advém de seu mito. Além de haver possível conexão entre o seu mito e o de Deméter (divindade grega).

Néftis (mãe terra e senhora dos mundos infernais): sempre acompanha Ísis no processo post mortem. Mesmo sendo esposa de Seth, ela permanece solidária à Ísis, ajudando-a a reunir os membros espalhados do esposo defunto da irmã, por quem era apaixonada, e também toma a forma de um milhafre para velá-lo. Como Ísis, ela protege os mortos e os sarcófagos. É ainda na acompanha a Mãe do Egito e o sol nascente,  defendendo-o contra a terrível deusa serpente Apófis.

Seth (deus da maldade e da guerra): foi considerado Senhor do Alto Egito durante o domínio dos Hicsos. Embora inicialmente fosse um deus de índole benfazeja, com o passar do tempo tornou-se a personificação do mal e da inveja. Era representado por um homem com a cabeça de Tífon, um animal imaginário formado por partes de diferentes seres, com a cabeça de um bode, orelhas grandes, como um burro. Associavam-no ao deserto aos trovões e às tempestades. A pugna entre Osíris e Seth é  a representação da terra fértil contra a aridez do deserto.  Tinha apreço por alguns crocodilos do Nilo que personificavam os defeitos humanos, assim como os nossos medos. Em suma, Seth é o par antitético de seu irmão Osíris.

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* anjos de deus: as diversas facetas de um mesmo deus, criador de tudo.

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Em um próximo post, falaremos sobre as divindades superiores do Egito.

Até lá…

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Em 2005 a Editora Globo editou o primeiro volume das Obras Reunidas do poeta Roberto Piva.

Piva é o flaneur paulistano do tempo em que a cidade revelava uma geração fértil de poetas, retratados no documentário Uma outra cidade (Ugo Giorgetti, 2000). Estreou na literatura em 1961 com sua “Ode a Fernando Pessoa”, dois anos mais tarde lançou seu primeiro livro: Paranóia. Sua Obra Reunida está dividida em três volumes, cujo segundo – Mala na mão & asas pretas – traz os livros da sua maturidade poética, escritos entre 1973 e 1983, e os manifestos escritos em 1984, sob o título de “O Século XXI me dará razão”. Os livros reunidos neste volume, seguidos dos epítetos (entre parênteses) que lhe deu o amigo e crítico de sua obra Claudio Willer, são:

Piazzas (a fruição e a contemplação)

Abra os olhos & diga Ah! (e o entusiasmo)

Coxas (e a orgia ritual)

20 poemas com brócoli (e as analogias)

Quizumba (e a possessão)

Entre as principais características desta fase intermediária da sua produção estão o sexo e a liberdade, a liberdade trazida pelo sexo (aqui visto como arma e bandeira política), a orgia como ritual, o círculo de amigos como tribo, o “desregramento de todos os sentidos” (Rimbaud), as paroles en liberté, o tesão como “trombeta belicosa”, o amor louco adolescente, e todas as suas influências estéticas, sempre ecléticas e universais.

Chama a atenção a quantidade de menções e citações, influências expressas que mostram as leituras de formação do poeta, que vão de Dante a Pasolini, de Whitman a Garcia Lorca, de Álvares de Azevedo a Murilo Mendes, passando por Jorge de Lima e João Guimarães Rosa, e de Chet Baker à bossa nova no campo musical. Encontramos muito este recurso, o da citação das referências literárias como matéria para a escritura, na prosa contemporânea; mas é na poesia de Piva que esta prática ganha poder. A poesia como invocação, chamando para o terreiro estas vozes ancestrais.

O mais recorrente é vermos sobre o autor a alcunha do “poeta maldito” e o enquadramento da sua poética no rol enxuto de poetas surrealistas brasileiros. Notamos também nos livros reunidos em Mala na mão & asas pretas um poeta diretamente influenciado pela Geração Beat norte-americana, principalmente quanto à mistura da poesia à vida experimental, ao jazz e ao “Sonho & a Paixão”. Na verdade, enquadrar e qualificar Piva é um esforço vão e raso. Suas dimensões de poeta atravessam gêneros e estilos, sua poesia é o resultado de leituras libertárias, jamais dogmáticas.

A edição das Obras Reunidas traz ricos ensaios de analistas da obra do poeta. Figuram nos livros as análises do Prof. Alcir Pécora (organizador da obra e professor da UNICAMP), Claudio Willer (já citado, amigo e companheiro de geração e também poeta), Eliane Robert Moraes (professora de Literatura da FFLCH-USP), além da reunião de todos os manifestos publicados pelo autor e uma vasta bibliografia de seus textos editados, traduzidos e sua fortuna crítica ao final dos livros.

O poeta, hoje com 72 anos de idade, passou por sérios problemas de saúde desde o começo deste ano. Há tempos passa por sérias dificuldades financeiras, dependendo da ajuda de amigos e de eventos que arrecadam fundos para seus tratamentos médicos. Poesia não dá dinheiro e costuma dar menos reconhecimento do que o merecido. Esperamos que, com as reedições de suas obras, as vendas e o reconhecimento aumentem para que esta grande voz da poesia seja mais e mais lida e vivida pelos seus leitores.

A Editora disponibiliza trechos deste livro no Google livros, aqui.

Lucas de Sena Lima

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