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Archive for the ‘Cinema’ Category

 Por: Denis J. Xavier

 

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu alguém dizer: Sim eu assisti, mas prefiro o livro!. Pois bem, não é de hoje que a sétima arte utiliza textos literários transformando-os em roteiros e criando assim uma discussão eterna sobre o que é melhor: Filme ou Livro?. As adaptações de obras literárias para o cinema começaram tão logo os irmãos Auguste e Louis Lumiére fizeram a primeira projeção da história, e continuarão por muito tempo, pois esta é uma fonte inesgotável de histórias.

E mesmo com todos os prêmios dedicados aos roteiristas, são famosas as críticas de muitos autores à transformação de seus textos em filmes. Hemingway, por exemplo, reclamou de O velho e o mar. Mas há autores que ficam felizes com os trabalhos feitos a partir de suas obras. Um deles foi José Saramago, que teceu elogios à adaptação de Don McKellar, para seu livro Ensaio sobre a cegueira, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, em 2008.

Para mim esta disputa não se faz necessária, e alguns roteiros adaptados corroboram minha opinião. Um deles é Dom Quixote. Orson Welles fez um filme belíssimo. Nem melhor, nem pior que a leitura do livro de Cervantes; é, sim, uma experiência diferente. Outro caso de ótima adaptação é o do filme Mutum, da cineasta Sandra Kogut, adaptado da obra Campo Geral de Guimarães Rosa. Um dos mais belos filmes brasileiros dos últimos dez anos, que provoca sensações outras em comparação à leitura da obra.

Ao final deste texto há um filme datado de 1903. Uma adaptação de As Aventuras de Alice no país das Maravilhas. Os quase 9 minutos mais parecem um filme de terror tosco de nossos dias. Chega a ser bizarro, mas o intuito é mostrar como a adaptação deste texto foi feita há pouco mais de 100 anos. Antes disso, vejamos a diferença entre um trecho de uma obra literária e seu correspondente em roteiro:

 

Livro e filme: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

Trecho do livro: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto que o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método…”

 

Trecho do roteiro¹:

Dia chuvoso. Brás Cubas dentro de um caixão. Fecham o caixão e começa a sair o féretro com umas 10 pessoas acompanhando, guarda-chuvas abertos. Vemos o rosto de Brás dentro do caixão (câmera dentro do caixão).

FANTASMA FALA

(Off) Algum tempo pensei se a história deveria começar pelo começo ou pelo fim, isto é, se eu contaria antes o meu nascimento ou a minha morte.

O caixão percorre o cemitério e chega a uma cova aberta. VIRGÍLIA em especial destaque durante o percurso.

 

Na comparação destes dois trechos há muitas diferenças. Mas, para você que leu o livro de Machado de Assis, a quantidade de pessoas na cena do enterro não te chama a atenção? E o destaque a Virgília durante o enterro? Enquanto, na obra, Machado pede paciência ao leitor para poder manter em segredo por algum tempo a terceira senhora, no filme ela aparece logo no começo do enredo. Ainda que, no filme, seja revelada pouco depois, sua identidade acaba aparecendo antes do momento em que isso acontece no livro.

Apesar de tudo o que se diga sobre adaptações, quem deixa a paixão pela obra literária de lado normalmente consegue ter prazer com as duas artes. Compreende que são formatos diferentes e que aquilo que cabe nas páginas de seu livro favorito muitas vezes não cabe em 120 minutos de um filme. Por isso, deixe fluir. Boa leitura e bom filme a todos.

 

Fontes:

(¹) Roteiro baseado no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Alice no País das Maravilhas (1903).

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Por: Carolina Cecatto

Imagine você chegar em sua casa, após um dia de trabalho fatigante, e se deparar com uma teletela na parede da sala. Teletela? Que raios é isso? É um aparelho parecido com uma Tv, menor até, que dá diretrizes e condiciona a cada pessoa que possui esse aparelho. De onde eu tirei tanta imaginação? Não há imaginação. É a ficção (em partes já real) que se pode conferir lendo 1984 de George Orwell.

Ao entrar em contato com a história escrita por Orwell, não pude deixar de analisar algumas coisas que entram em xeque nessa sociedade controlada pelo Grande Irmão, do qual só temos conhecimento através de pôsteres mostrando a sua face, tranquila e ao mesmo tempo rígida.

O Grande Irmão é o líder do Partido Interno (o Ingsoc, na novilíngua), em palavras antigas, o Socialismo Inglês. Nestes termos, entra uma crítica de Orwell não ao socialismo em si, pois era adepto, mas à perversão dos sistemas, tanto que nem por isso deixamos de ter a menção do sistema capitalista na obra. Este último é citado, mas como algo que foi deixado pra trás, numa história conhecida por poucos, ou melhor, por aqueles que se opuseram ao Ingsoc e conhecem a outra ‘verdade’, por meio do livro de Goldstein (arqui-inimigo do Grande Irmão).

Comentei no parágrafo anterior a respeito de ‘palavras antigas’ e ‘novilíngua’. Esta é outra artimanha do Partido para ter o controle da população. Não bastasse as teletelas, que vigiam as expressões e movimentos de cada cidadão do Partido, temos um novo tipo de idioma em voga. A ‘novilíngua’ foi criada pelo Ingsoc e trabalha com a condensação e/ou remoção de palavras. A ideia era que o indivíduo tivesse um grupo de palavras muito restrito com o qual pudesse se comunicar, comprometendo dessa forma o seu pensamento, que ficaria cada vez mais atrofiado e limitado. E, uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passaria a não existir. Assim, o Partido possuía mais uma forma de manter o controle da população: restringindo a fala e a escrita (bem diferente de proibir a menção do nome das coisas, diga-se). Eis aqui alguns exemplos de condensação:

Duplipensar: duplicidade de pensamentos, saber que está errado e se convencer que esta certo.
Crimideia: Crime ideológico, pensamentos ilegais.
Impessoa: Uma pessoa que não existe mais, e todas as referências a ela devem ser apagadas dos registros históricos.

Outro detalhe interessante é a preocupação do partido em manter os instintos da população controlados: “Inconsciência é ortodoxia”. “Por que mantê-los controlados?”, você me perguntaria. E eu responderia, tendo a obra como elo, que ter seus instintos incendiados e sem um foco específico, poderia causar tumulto, balbúrdia, efusão de sentimentos e isso geraria insatisfações revertidas em motins e revoluções da população – fato que o Partido evitaria ao extremo. Dessa forma, as pessoas eram proibidas de fazer sexo por prazer ou por vínculos afetivos, aliás, elas não podiam demonstrar seus sentimentos (!). O sexo era para fins reprodutivos, dessa maneira o Partido ganharia mais membros. Os casais, antes de se unirem, tinham que possuir a aprovação do Partido – que tinha que ter absoluta certeza de que ali não havia desejo algum. Havia inclusive a Liga de Jovens Anti-Sexo, ou seja, desde cedo a cartilha do Partido era incutida.

Então você pode se perguntar: pra onde tanto desejo reprimido seria canalizado? Uma das respostas está na agressividade, especificamente denominada no livro de “Semana do Ódio”. Nesta semana, havia uma comoção pelos membros do Partido para extravasarem toda a sua raiva sobre a imagem que aparecia na teletela, a imagem de Goldstein. E assim, todos gritavam, esbravejavam, esmurravam o ar, com o intuito de demonstrarem todo o seu ódio a um inimigo que nunca viram.

É uma população em que os vínculos afetivos não podiam existir, onde o Amor tinha um Ministério, mas era para a Tortura de quem saía do eixo proposto pelo IngSoc. Pensar era proibido. Os movimentos eram controlados e tidos como suspeitos. As pessoas se olhavam de modo suspeito. O trabalho dos membros do Partido consistia em alterar sempre o passado, através dos jornais, da literatura etc., de forma que o Partido sempre acertasse em suas previsões. O passado era sempre reinventado, não havia História. A verdade… qual seria a verdade?

Ler 1984 é encontrar a chamada distopia – uma utopia negativa. A obra revela o totalitarismo em seu auge. E eu, como leitora, não poderia deixar de observar que há reflexo dessa obra na nossa realidade, que eu nem sei se é real… Câmeras, relacionamentos superficiais, desconfiança, controle de massas, mídia manipuladora, repressão de sentimentos, mortes em massa, trabalhadores condicionados, informações inúteis que preenchem a nossa cabeça…

Haveria muito mais ainda pra se falar dessa grande obra e a sensação que se tem é de que algumas coisas dela insistem em permanecer no nosso presente. Mas ao lê-la queremos evitar que estas certas coisas perdurem. Consegue perceber a importância desse livro?

Veja o trailler do filme: http://bit.ly/vOMOV

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No próximo dia 07 de Março, no Kodak Theatre, acontecerá a festa de entrega do Oscar 2010. Neste ano a grande dúvida, que paira, é se o tão falado Avatar  será o vencedor da noite. Afinal muitos torcem o nariz para a ficção cientifica que já se tornou a maior bilheteria de todos os tempos. Enquanto outros torcem para que o filme vença a disputa contra os outros 9 filmes concorrentes. 

Wings - O Primerio ganhador

 

Disputas à parte, a história do maior prêmio do cinema mundial é receada de grandes atores, ótimos roteiros e clássicos belíssimos, mas também de polêmicas a respeito de alguns vencedores na categoria mais importante da noite: Melhor Filme.  

Na primeira entrega do prêmio, em 1929, apenas 3 candidatos concorriam à estatueta que se chamava “The Academy Awards of Merit”. (nome oficial até nossos dias). O vencedor foi “Wings”.  

Depois dele, filmes como: “Aconteceu Naquela Noite” (1935), “…E o vento levou” (1940), “Casablanca” (1944) e “A um passo da eternidade” (1951), entre outros se consagraram como clássicos do cinema de todos os tempos, isso depois de vencer o grande prêmio da noite.  

Certa vez, eu decidi assistir a todos os vencedores de melhor filme do Oscar  (ainda faltam muitos) e tive gratas surpresas: Dança com Lobos (1991), O último Imperador (1988), Conduzindo Miss Daisy (1990) e outros mais. 

 Tive também algumas decepções. Em 1999, achei que não havia chance de algum outro filme desbancar “A Vida é Bela”, mas nos empurraram Shakespeare Apaixonado goela abaixo. Dois dos vencedores (Beleza Americana e Forrest Gump) foram os ganhadores por serem ou fazerem um retrato (ou estereótipo?) do povo americano. O primeiro caçoava de si mesmo, o segundo inventava acontecimentos da história americana; engraçado, mas apenas para americano ver.  

O meu vencedor

De todas as injustiças, as que eu julgo mais graves são: “Laranja Mecânica” e “O Segredo de Brokeback Mountain”. Talvez, por serem filmes que incomodam, que quebram com paradigmas e convenções sociais foram preteridos. Contudo são mais lembrados que os vencedores do prêmio no ano em que concorreram.  

Abaixo duas listas. A primeira dos concorrentes deste ano. A segunda de todos os vencedores da categoria até 2009. Quem quiser se aventurar não vai se arrepender.  

Em negrito aqueles que já assisti e recomendo. Esses eu garanto!  

Ah, antes que eu me esqueça, minha aposta para este ano. Avatar, com certeza em melhor filme e em mais meia dúzia de outros prêmios. E se Morgan Freeman não ganhar como melhor ator, será uma grande marmelada, ele como Mandela está quase tão bom quanto Ben Kingsley em Ghandi, apesar do lobby pelo Jeff Brigdes. 

Um dos melhores que vi em 2009

 

(Denis Silva)  

MELHOR FILME 2010
“Amor sem escalas”
“Avatar”
“Bastardos inglórios”
“Distrito 9”
“Educação”
“Guerra ao terror”
“Invictus”
“Preciosa”
“Star trek”
“Up”  

    

Vencedores do Oscar de Melhor Filme de todos os tempos  

Asas 1929
A Melodia da Broadway 1930
Sem Novidades no Front 1931
Cimarron 1932
Grand Hotel 1933
Cavalgada 1934
Aconteceu Naquela Noite 1935
O Grande Motim 1936
O Grande Ziegfeld 1937
A Vida de Emile Zola 1938
Do Mundo Nada se Leva 1939
… E o Vento Levou 1940
Rebecca, a Mulher Inesquecível 1941
Como Era Verde Meu Vale 1942
Rosa da Esperança 1943
Casablanca 1944
O Bom Pastor 1945
Farrapo Humano 1946
Os Melhores Anos de Nossas Vidas 1947
A Luz é para Todos 1948
Hamlet 1949
A Grande Ilusão 1950
A Malvada 1951
Sinfonia de Paris 1952
O Maior Espetáculo da Terra 1953
A Um Passo da Eternidade 1954
Sindicato de Ladrões 1955
Marty 1956
Volta ao Mundo em 80 Dias 1957
A Ponte do Rio Kwai 1958
Gigi 1959
Ben-Hur 1960
Se Meu Apartamento Falasse 1961
Amor, Sublime Amor 1962
Lawrence da Arábia 1963
As Aventuras de Tom Jones 1964
My Fair Lady 1965
A Noviça Rebelde 1966
O Homem Que Não Vendeu Sua Alma 1967
No Calor da Noite 1968
Oliver! 1969
Perdidos na Noite 1970
Patton, Rebelde ou Herói? 1971
Operação França 1972
O Poderoso Chefão 1973
Golpe de Mestre 1974
O Poderoso Chefão II 1975
Um Estranho no Ninho 1976
Rocky 1977
Noivo Neurótico, Noiva Nervosa 1978
O Franco-Atirador 1979
Kramer vs. Kramer 1980
Gente como a Gente 1981
Carruagens de Fogo 1982
Gandhi 1983
Laços de Ternura 1984
Amadeus 1985
Entre Dois Amores 1986
Platoon 1987
O Último Imperador 1988
Rain Man 1989
Conduzindo Miss Daisy 1990
Dança com Lobos 1991
O Silêncio dos Inocentes 1992
Os Imperdoáveis 1993
A Lista de Schindler 1994
Forrest Gump 1995
Coração Valente 1996
O Paciente Inglês 1997
Titanic 1998
Shakespeare Apaixonado 1999
Beleza Americana 2000
Gladiador 2001
Uma Mente Brilhante 2002
Chicago 2003
O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei 2004
Menina de Ouro 2005
Crash – No limite 2006
Os infiltrados 2007
Onde os fracos não têm vez 2008
Quem Quer Ser Um Milionário? 2009

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             Ao nos depararmos com o título dessa obra e filme, logo imaginamos algo voltado para o público infantil. Não digo que não o seja, mas devemos levar em conta que ali muito adulto vai se identificar com o seu lado criança. O filme foi baseado no livro de Maurice Sendak, Where the wild things are. Este é o primeiro de uma trilogia que inclui In the night kitchen de 1970 e Outside over there de 1981.     

O monstro Carol, num dos pôsteres do filme.

No livro, traduzido por Heloisa Jahn, encontramos uma história de linguagem clara e bem apropriada para as crianças; é como se ela nos fosse contada através da oralidade, apesar de lida. As ilustrações do livro são a parte mais rica do livro. É ali que Sendak tocou na sensibilidade do leitor, através do campo visual e, levando-se em consideração, principalmente, se o leitor for uma criança. Os desenhos são bem detalhados, têm volume e movimento, transmitem formosamente a expressão das personagens.

         Agora, adentremos um pouco na história do livro: Max é uma criança de seus aproximadamente 10 anos de idade que resolve se fantasiar de lobo e aprontar várias peripécias em casa. Em dado momento, a mãe de Max o chama de “Monstro” e ele responde assim para ela: “Olha que eu te como!”. Por causa disso, sua mãe pede que ele se dirija até seu quarto, sem direito à janta. A partir deste episódio é que a história se desenrola. Max tem o seu quarto invadido por uma floresta, atravessa mares em seu barco e chega à terra dos monstros, travando com eles um relacionamento instigante.

            No filme, temos uma história mais desenvolvida se comparada à do livro, que possui em torno de 22 páginas. O diretor do filme precisou abstrair demasiadamente da obra e imaginar circunstâncias através dela para permitir esse desdobramento (o filme tem mais ou menos uma hora e meia).

            O filme acoplou espaços não ditos no livro e incrementou sim, para nos dar um pouco mais sobre o cotidiano do garoto Max. Soube captar as imagens pertencentes à obra e retratou fidedignamente os traços dos monstros criados pelas mãos de Sendak.

Maurice Sendak e suas crias.

            A temática referente à personalidade é algo muito presente no filme. No livro, temos algo sobre o gênio de Max e tiramos algumas conclusões através de suas atitudes (corajoso, travesso etc.). No filme, o diretor explorou a personalidade dos monstros – algo que o livro não explorou verbalmente – e as suas características. Monstros ingênuos, inseguros, irados, carinhosos, protetores, esperançosos, medrosos, brincalhões, etc. Há momentos, durante o filme, em que você pode se surpreender com o quão humanos eles são! Pode compreender também que a viagem de Max para onde vivem os monstros, tanto no livro quanto no filme, é uma fuga da realidade, uma viagem para si mesmo, uma travessia para o crescimento, um encontro com os seus sentimentos que ficaram trancados, assim como um encontro com os monstros (sejam quais forem eles) que todos temos guardados dentro da gente.

Carolina Cecatto

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Imperdível

Na última quinta-feira, enquanto a cidade de São Paulo mais uma vez vivia sua já corriqueira rotina de inundação depois de qualquer chuva forte, eu, empurrado pelas várias críticas –muitas positivas e poucas negativas, estava  na fila para assistir ao tão falado Avatar, filme de James Cameron, filmado com tecnologia 3D estereoscópica, cogitada por alguns como  a salvação do cinema em tempos de crise – onde alguns acham que a  maior vilã é a pirataria, física e virtual; esquecendo-se da falta de originalidade e inovação da maioria dos diretores.

Neste ano, alguns filmes me surpreenderam, por motivos diferentes; “Vick Cristina Barcelona”, de Woody Allen, que eu não vi á época de seu lançamento no cinema e acabei apreciando em vídeo apenas este ano, me cativou pela fotografia e pelo olhar do diretor sobre a cidade-personagem. Em “Quem quer ser um milionário” é possível ver a Índia que a novela das oito –premiada recentemente com o Emmy, não mostrou. A história do atendente de telemarketing, que participa de um reality show, é simplesmente genial. A mim me pareceu um “Cidade de Deus” com mais humor e menos sangue. Além desses tenho que citar: “Dúvida”, “Osama”, “Milk”, “Revolutionary Road”, “O curioso caso de Benjamin Button”, “UP – Altas Aventuras” (a melhor animação do ano), entre outros.

Contudo, tudo o que vi neste ano não se equipara a Avatar, o filme cumpre o que promete, cenas jamais pensadas para o cinema,o entretenimento e a catarse . Uma das críticas que li, falou de uma história pueril;  concordo não seja uma história cerebral, no entanto não dá para dizer que seja pueril, há questões importantes que são discutidas no filme, principalmente em se tratando de uma época em que se fala muito sobre a preservação do planeta Terra.

A Criação de um planeta alienígena chamado Pandora vem acompanhada da invenção de cores próprias, de fauna, flora, de uma divindade –que  remete muita a GAIA, e da criação de uma língua própria e belíssima de se ouvir, o n’avi. Para mim há um momento crucial de aceitação do indivíduo através do domínio desta língua em uma passagem com a personagem do militar Jake Sully.

James Cameron, que usou em Titanic um romance “rebelde” para os padrões da segunda década do século passado, faz algo improvável: um amor entre um humano e uma n’avi (nome dado também ao ser da tribo onde o avatar controlado por Sully vive).

Outros embates, ainda podem ser vistos ao longo das quase 3 horas de filme: da bióloga contra o coronel, o da preservação da natureza versus a extração de uma fonte de energia (unobtainium), do mais forte e sua tecnologia versus o mais fraco e seu primitivismo;  além do dilema de Jake Sully: fazer aquilo que a consciência manda contra as ordens hierárquicas militares.

A história é de certa forma, guardadas as devidas proporções, uma nova roupagem para a luta da colonização do homem branco em territórios indígenas ocorrida há pouco mais de 5 séculos ou da falta de tolerância com o “diferente”. Os n’avis, assim como fizeram os indígenas, ensinam seus costumes, sua língua, suas crenças,  e tudo isso é usado contra eles ao final da história. O que se vê é a história de Midas ao contrário, a de como o homem por ganância e lucros acaba destruindo tudo o que toca.

Mas por fim, nem tudo é tristeza, como bom filme de hollywoody a história traz nosso bom e velho processo de catarse ao final.

Paro por aqui; as inundações não, afinal chove-se muito nestes tempos de aquecimento global.

PS*

Aos puristas: ainda acho Casablanca o maior filme de todos os tempos.

Aos de agora: é possível que eu esteja enganado!

Denis Silva

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 Dica pro fim de semana:
 

Estaria Bill imaginando uma traição de sua esposa? Esta situação causa um desnorteio em Bill e pelas noites de NY uma nova faceta da vida noturna ele conhece.

A vida noturna de pessoas da alta sociedade nova iorquina. Pessoas que em pleno dia mantêm uma postura moral de acordo com os bons costumes. E, pela noite, estas mesmas pessoas, no filme,  homens da alta sociedade, encontram-se em lugares e cenários luxuosos e desfrutam de sua vida sexual libertinamente.

Um olhar bem traçado de Kubrick a respeito da  dupla identidade, que alguns homens ou mulheres podem vivenciar. O filme dá enfoque especial nas cenas que contêm eroticidade.

Observem a cena na qual Bill adentra na mansão onde os Barões do filme estão se divertindo com algumas mulheres e homens  mascarados. Máscaras que ocultam rostos. A jogada da máscara, do mascaramento etc. Todos assumem lá dentro uma persona  e, assim, podem sem a dita culpa cristã, realizar suas fantasias.

É filme bom de se analisar porque avalia o casamento e a relação entre homens e mulheres. O papel que cada um deve ou deveria exercer na sociedade. Revela o underground das relações sociais e as ‘roupagens’ usadas no cotidiano.

Tudo isso  me fez pensar numa discussão de e-mail que tive entre meus caros sobre os maçons. A visão de uma seita na qual quem entra dificilmente sai e, caso pense em sair, terá um preço a pagar. Por isso assimilei o filme com a maçonaria. Há também muito mito que a gente tem a respeito desse grupo, mas o interessante mesmo é comentar e compartilhar informações a respeito.

E quem assiste ao filme não pode ficar de olhos bem fechados – apesar de ser um tantinho extenso. Deixe isso para o casal do filme, afinal, a cena da orgia é bem estética – apesar de, para alguns de nós, ir de encontro a algumas opiniões que guardamos sobre fidelidade.

A propósito, depois desse filme, você fecharia seus olhos?

Curiosidades:

– Para que o filme pudesse ser assistido por uma audiência mais jovem, a cena da orgia contém pessoas geradas por computador, que encobrem os atos sexuais mais explícitos.

– A senha FIDELIO, utilizada por Bill para entrar na orgia, vem do latim fidelis, que significa fidelidade.

– O nome Harford, dado ao personagem de Tom Cruise, nada mais é do que uma homenagem do diretor Stanley Kubrick ao ator Harrison Ford.

– Este é o último filme do diretor Stanley Kubrick, que fez verdadeiros clássicos do cinema, como 2001 – Uma Odisséia no Espaço e Laranja Mecânica. Kubrick faleceu durante o processo de pós-produção do filme.

CAROLINA CECATTO

pôster

pôster

Sinopse: Bill Harford (Tom Cruise) é casado com a curadora de arte Alice (Nicole Kidman). Ambos vivem o casamento perfeito até que, logo após uma festa, Alice confessa que sentiu atração por outro homem no passado e que seria capaz de largar Bill e sua filha por ele. A confissão desnorteia Bill, que sai pelas ruas de Nova York assombrado com a imagem da mulher nos braços de outro.

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O livro O Casamento foi escrito sob encomenda, e foi o único romance assinado por Nelson Rodrigues. Esta instituição, o casamento, era um dos principais alvos do mestre. Ela era vista como palco de hipocrisia, da morte espiritual do sujeito. Sua crítica, e até mesmo sua escrita, já foi comparada com a de Eça de Queirós neste tema.

Capa da 1ª ediçao - Editora Eldorado, 1966

Capa da 1ª ediçao - Editora Eldorado, 1966

Considerado pela “Marcha da família com Deus pela Liberdade”, órgão simpatizante da ditadura militar no Brasil, como um “atentado contra a organização social pela família”, O Casamento foi o primeiro livro censurado após o golpe de 1964, tendo seus exemplares confiscados pelo Estado. Era 1966.

Quem conhece um pouco de História do Brasil estremece com esse nome; sabe quem encomendou o livro a Nelson? Carlos Lacerda, que havia acabado de fundar a Editora Nova Fronteira. Sabino é a protagonista do livro, e o casamento referente ao nome do livro é o de sua filha, Glorinha.

Cena da adaptação do romance para o cinema - Direção de Arnaldo Jabor, 1975

Cena da adaptação do romance para o cinema - Direção de Arnaldo Jabor, 1975

Bem no começo da narrativa, Sabino não conseguia se relacionar com uma prostituta, pois brotavam do seu inconsciente o lençol, o pijama, a cama e o cheiro do leito de seu pai, e a imagem olfativa da morte – seu pai morrera defecando, e esta imagem o persegue no decorrer de todo o livro. Sabino não conseguia manter nenhuma relação sexual com ninguém por conta do seu pudor, a não ser solitariamente, maneira à qual tinha asco de chamar “masturbação”; tratava por “onanismo”. Sabino tinha pudor com as palavras.

Uma frase antológica de Sabino, inserida nas antologias de aforismos rodrigueanos, é a que versa sobre o ofício do ginecologista: “Todo ginecologista devia ser casto. O ginecologista devia andar com batina, sandálias e coroinha na cabeça. Como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro.”

Sabino é perseguido por imagens: a da mãe se masturbando, a do desabrochamento da filha na lua-de-mel, seu desejo sexual pela filha, entre outros. As cenas pretendem chocar, mas só para não nos deixar esquecer que somos feitos de libido e desejo, e que nossas vontades individuais se confrontam com a moral da sociedade, causando uma tensão perturbadora no sujeito. É impressionante: uma cena após outra de sordidez, morbidez e luxúria, recalques vindo à tona, num texto limpo, muito bem escrito, quase jornalístico.

"Hoje, a primeira noite é a centésima, a qüinquagésima. O casamento já é uma rotina antes de começar."

"Hoje, a primeira noite é a centésima, a qüinquagésima. O casamento já é uma rotina antes de começar."

O desejo, a impossibilidade deste e as sombras que rondam a consciência são temas rodrigueanos que encontram reflexos em Dostoievski, Goethe, Graciliano Ramos e Shakespeare, entre outros grandes escritores e dramaturgos.

[A seguir: primeira parte da entrevista dada a Otto Lara Resende, para a futura extinta TV Globo]

Lucas de Sena Lima

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