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Archive for the ‘LIVROS’ Category

 Por: Denis J. Xavier

 

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu alguém dizer: Sim eu assisti, mas prefiro o livro!. Pois bem, não é de hoje que a sétima arte utiliza textos literários transformando-os em roteiros e criando assim uma discussão eterna sobre o que é melhor: Filme ou Livro?. As adaptações de obras literárias para o cinema começaram tão logo os irmãos Auguste e Louis Lumiére fizeram a primeira projeção da história, e continuarão por muito tempo, pois esta é uma fonte inesgotável de histórias.

E mesmo com todos os prêmios dedicados aos roteiristas, são famosas as críticas de muitos autores à transformação de seus textos em filmes. Hemingway, por exemplo, reclamou de O velho e o mar. Mas há autores que ficam felizes com os trabalhos feitos a partir de suas obras. Um deles foi José Saramago, que teceu elogios à adaptação de Don McKellar, para seu livro Ensaio sobre a cegueira, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, em 2008.

Para mim esta disputa não se faz necessária, e alguns roteiros adaptados corroboram minha opinião. Um deles é Dom Quixote. Orson Welles fez um filme belíssimo. Nem melhor, nem pior que a leitura do livro de Cervantes; é, sim, uma experiência diferente. Outro caso de ótima adaptação é o do filme Mutum, da cineasta Sandra Kogut, adaptado da obra Campo Geral de Guimarães Rosa. Um dos mais belos filmes brasileiros dos últimos dez anos, que provoca sensações outras em comparação à leitura da obra.

Ao final deste texto há um filme datado de 1903. Uma adaptação de As Aventuras de Alice no país das Maravilhas. Os quase 9 minutos mais parecem um filme de terror tosco de nossos dias. Chega a ser bizarro, mas o intuito é mostrar como a adaptação deste texto foi feita há pouco mais de 100 anos. Antes disso, vejamos a diferença entre um trecho de uma obra literária e seu correspondente em roteiro:

 

Livro e filme: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

Trecho do livro: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto que o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método…”

 

Trecho do roteiro¹:

Dia chuvoso. Brás Cubas dentro de um caixão. Fecham o caixão e começa a sair o féretro com umas 10 pessoas acompanhando, guarda-chuvas abertos. Vemos o rosto de Brás dentro do caixão (câmera dentro do caixão).

FANTASMA FALA

(Off) Algum tempo pensei se a história deveria começar pelo começo ou pelo fim, isto é, se eu contaria antes o meu nascimento ou a minha morte.

O caixão percorre o cemitério e chega a uma cova aberta. VIRGÍLIA em especial destaque durante o percurso.

 

Na comparação destes dois trechos há muitas diferenças. Mas, para você que leu o livro de Machado de Assis, a quantidade de pessoas na cena do enterro não te chama a atenção? E o destaque a Virgília durante o enterro? Enquanto, na obra, Machado pede paciência ao leitor para poder manter em segredo por algum tempo a terceira senhora, no filme ela aparece logo no começo do enredo. Ainda que, no filme, seja revelada pouco depois, sua identidade acaba aparecendo antes do momento em que isso acontece no livro.

Apesar de tudo o que se diga sobre adaptações, quem deixa a paixão pela obra literária de lado normalmente consegue ter prazer com as duas artes. Compreende que são formatos diferentes e que aquilo que cabe nas páginas de seu livro favorito muitas vezes não cabe em 120 minutos de um filme. Por isso, deixe fluir. Boa leitura e bom filme a todos.

 

Fontes:

(¹) Roteiro baseado no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Alice no País das Maravilhas (1903).

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A gente começa a ler o livro antes de lidar com qualquer palavra. A leitura começa no tato, no olhar. Um livro pequeno, com os cantos arredondados, em papel cartonado, parecendo um livro infantil, embora seja inteiro preto e branco. Deve ser por isto que Mario Bellatin, que escreveu a quarta capa, assinalou: “Estou convencido de que uma das características de um livro contemporâneo é que, antes de ser uma leitura, ele é uma experiência”. Uma experiência sensorial, o prazer do livro físico.

Os Anões é o terceiro livro para adultos da gaúcha Veronica Stigger, ex-jornalista, hoje professora e crítica de arte. São textos curtos, histórias que exploram nosso sadismo e nosso fascínio pelo estranho, o inabitual dentro do habitual.

O livro é dividido em três partes: “Pré-Histórias”, “Histórias” e “Histórias da Arte”. Dialoga, o tempo todo, com a história da arte e com a antropologia, mostra uma fauna de criaturas selvagens, inclusive ela mesma, a artista Veronica, aparece algumas vezes no livro.

Há aqui o deslocamento de textos e situações para o suporte livro, numa espécie de ready-made, quando uma anotação para uma amiga, um rascunho com um endereço ou um anúncio publicitário, se transforma em arte. E há o curioso registro sobre a mercantilização da arte, como em textos nos quais os nomes de grandes artistas servem de anúncios de venda de apartamentos, jogos de talheres, etc.

E há ainda, sobretudo, as imagens do absurdo, em linguagem descritiva e fluente. Imagens de Kafka, mas, aqui, não somente o irreal e ilógico que dão sentido ao termo “kafkiano”, também o oposto, o excesso de realidade a que estamos expostos. Numa temporada de caça ou numa colheita de cogumelos que acaba mal, o homem, para satisfazer vontades estranhas, põe em risco a vida:

Caça

Primeiro dia da temporada de caça. Dois caçadores já morreram por engano, e uma camponesa foi atingida nas nádegas por um disparo perdido. A bala foi retirada com sucesso e a camponesa passa bem.

O conto que dá título ao livro traz a história de um casal de anões que tenta furar a fila e é vítima de um linchamento coletivo, tornando-se repositório da cólera geral. (O conto se encerra como na famosa cena kafkiana de A Metamorfose). O anão, figura representativa do grotesco, do diferente, abre um embate entre cidadãos normais versus os deficientes, os seres éticos versus aqueles com “graves falhas de caráter”. O conto seguinte sugere, sutilmente, uma continuidade:

Teste

− Que tal fazer, então, o mesmo teste com mulheres gordinhas, de cabelos crespos?

Em um conto mais à frente, uma clara e interessante referência à pessoa da autora. Ela se suicida no seu apartamento novo durante uma festa; depois, seu namorado lê aos convidados um conto deixado por ela, que ninguém entende (conto que aponta a incompreensão de um ato suicida e a incomunicabilidade da arte). Ainda mais à frente, uma história de um amor estranho, suicida, nas cenas dos contos Curta Metragem I e II, em linguagem de roteiro de cinema, um gênero curioso e questionado na literatura. Um dos contos mais impressionantes é “Quand avez-vous le plus souffert?” (Quando você mais sofre?) em que, numa cena de ternura materna, a mãe estrangula uma criança com um fio de lã.

O livro termina com um fac-símile de um documento da autora, e seu curioso equívoco de registro que a coloca como pertencente ao sexo masculino, o que põe em jogo a contestação da noção de gênero, sexual e literário.

Veronica Stigger/Divulgação

Os Anões é um livro de cenas deliciosas  belas ideias, e de reflexões sobre a arte. Não é um livro de artifícios de linguagem, metáforas engenhosas, trabalho linguístico. É um livro de instantes, que, apesar de por vezes parecer desnecessariamente detalhados, nos proporciona momentos de gozo assim que percebemos: que bela sacada esta, que situação louca. E não voltamos a ser os mesmos.

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Lucas de Sena Lima

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A filosofia de Nietzsche é um instrumento de combate, um instrumento conceitual indispensável para uma crítica radical dos valores da sociedade contemporânea.

Hoje ninguém mais duvida da existência de uma intensa e extensa crise de valores das sociedades atuais. Mas foi ainda no século XIX que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche realizou, e não a primeira, a crítica mais radical das sociedades modernas, que ele considerou como niilistas e decadentes. (Texto de orelha do livro Nietzsche e a  Verdade, de Roberto Machado)

(…). Nietzsche foi um dos primeiros pensadores a apontar a existência de um lado sombrio da Modernidade, disfarçado geralmente sob uma aura de progresso científico e avanço tecnológico. (Texto de orelha do livro  A Genealogia da Moral, tradução de Mário Ferreira dos Santos)

“Deus está morto!” – com esta afirmação Nietzsche aponta o maior acontecimento da “história universal” e localiza, assim, o ponto de partida de sua reflexão filosófica. Deus é sinônimo de transcendência, de idealidade; ele é o fundamento e a garantia dos valores absolutos: Belo, Bem, Verdadeiro. (Luciana Zaterka, http://www.fflch.usp.br/df/gen/pdf/cn_01_05.pdf)

 E então…?

  • Ler os textos de Nietzsche não é tarefa fácil e, ainda se fosse, falar de Filosofia requer um certo cuidado porque mexe, afinal, com os nossos pensamentos. Questionar a si e a sociedade em que vivemos é algo doloroso porque veremos, de fato, o caos que se apresenta. E por falar em caos porque não pensar em Nietzsche? Nietzsche revelou o seu desagrado ao mundo idealizado em que sonhavam as pessoas morar, e com isso ganhou alguns apelidos: Nietzsche foi chamado já de pessimista, ateu, louco e por aí vai uma infinidade de pré-julgamentos.
  • Nietzsche foi um bom filho, um bom aluno e um bom professor (era professor universitário) e sofre muito a influência dos escritos de Arthur Schopenhauer, “o cavaleiro solitário”, mais um dos “pessimistas”. Na verdade, em linhas gerais Schopenhauer não se enquadrava no século XIX e introduziu o pensamento budista no pensar alemão da época. Para ele, a felicidade só poderia ser de fato alcançada com a anulação de toda e qualquer Vontade, sendo o homem um ser de Paixões e Vontades… Somente em estado de Nirvana* o homem anularia as Vontades.
  • Com essa influência e outras e as próprias reflexões, Nietzsche vai percebendo o quanto a sociedade está decadente e então temos a célebre frase “Deus está morto”. Nietzsche nega a existência dessa Transcendência (Deus) nessa sociedade decadente. E quem mata Deus, então? Nietzsche ou as próprias pessoas?
  • Nietzsche também fala das regras morais para conduzir os homens em sociedade, questionando a liberdade de ser: “Essa moral heterônoma, imposta, escolhida pelos dominadores, imposta pelo passado e predominante no presente pela vontade dos que representam os interesses do passado, é odiosa para mim. Quis substituir o “tu deves” pelo “eu quero”. O homem não é homem enquanto não puder praticar esse grande ato de liberdade, que o tornará senhor de si, quando respeitará a dignidade alheia por amor à sua própria dignidade, e assim o fará porque quer e não porque deve.” (Nietzsche, A Genealogia da Moral.)

AOS QUE AFIRMAM QUE O HOMEM É INCAPAZ DE ATINGIR ESSE REINO DE LIBERDADE, REPLICO-LHES QUE É A SUA FRAQUEZA QUE FALA ATRAVÉS DE SUAS PALAVRAS.

FRIEDRICH NIETZSCHE

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significa “extinto” ou “apagado”; isso equivale a dizer que o ego é extinto. O ego é transcendido.

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PAULA CRISTINA

Para saber mais:

http://www.fflch.usp.br/df/gen/index_port.html

http://www.fflch.usp.br/df/gen/pdf/cn_01_05.pdf

http://neurosefreudiana.wordpress.com/2009/07/12/friedrich-nietzsche-e-o-auto-conhecimento-e-ausencia-de-si/

http://filosofiaevertigem.wordpress.com/2009/05/29/nietzsche-tracos-biograficos/

 

 

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Em 2005 a Editora Globo editou o primeiro volume das Obras Reunidas do poeta Roberto Piva.

Piva é o flaneur paulistano do tempo em que a cidade revelava uma geração fértil de poetas, retratados no documentário Uma outra cidade (Ugo Giorgetti, 2000). Estreou na literatura em 1961 com sua “Ode a Fernando Pessoa”, dois anos mais tarde lançou seu primeiro livro: Paranóia. Sua Obra Reunida está dividida em três volumes, cujo segundo – Mala na mão & asas pretas – traz os livros da sua maturidade poética, escritos entre 1973 e 1983, e os manifestos escritos em 1984, sob o título de “O Século XXI me dará razão”. Os livros reunidos neste volume, seguidos dos epítetos (entre parênteses) que lhe deu o amigo e crítico de sua obra Claudio Willer, são:

Piazzas (a fruição e a contemplação)

Abra os olhos & diga Ah! (e o entusiasmo)

Coxas (e a orgia ritual)

20 poemas com brócoli (e as analogias)

Quizumba (e a possessão)

Entre as principais características desta fase intermediária da sua produção estão o sexo e a liberdade, a liberdade trazida pelo sexo (aqui visto como arma e bandeira política), a orgia como ritual, o círculo de amigos como tribo, o “desregramento de todos os sentidos” (Rimbaud), as paroles en liberté, o tesão como “trombeta belicosa”, o amor louco adolescente, e todas as suas influências estéticas, sempre ecléticas e universais.

Chama a atenção a quantidade de menções e citações, influências expressas que mostram as leituras de formação do poeta, que vão de Dante a Pasolini, de Whitman a Garcia Lorca, de Álvares de Azevedo a Murilo Mendes, passando por Jorge de Lima e João Guimarães Rosa, e de Chet Baker à bossa nova no campo musical. Encontramos muito este recurso, o da citação das referências literárias como matéria para a escritura, na prosa contemporânea; mas é na poesia de Piva que esta prática ganha poder. A poesia como invocação, chamando para o terreiro estas vozes ancestrais.

O mais recorrente é vermos sobre o autor a alcunha do “poeta maldito” e o enquadramento da sua poética no rol enxuto de poetas surrealistas brasileiros. Notamos também nos livros reunidos em Mala na mão & asas pretas um poeta diretamente influenciado pela Geração Beat norte-americana, principalmente quanto à mistura da poesia à vida experimental, ao jazz e ao “Sonho & a Paixão”. Na verdade, enquadrar e qualificar Piva é um esforço vão e raso. Suas dimensões de poeta atravessam gêneros e estilos, sua poesia é o resultado de leituras libertárias, jamais dogmáticas.

A edição das Obras Reunidas traz ricos ensaios de analistas da obra do poeta. Figuram nos livros as análises do Prof. Alcir Pécora (organizador da obra e professor da UNICAMP), Claudio Willer (já citado, amigo e companheiro de geração e também poeta), Eliane Robert Moraes (professora de Literatura da FFLCH-USP), além da reunião de todos os manifestos publicados pelo autor e uma vasta bibliografia de seus textos editados, traduzidos e sua fortuna crítica ao final dos livros.

O poeta, hoje com 72 anos de idade, passou por sérios problemas de saúde desde o começo deste ano. Há tempos passa por sérias dificuldades financeiras, dependendo da ajuda de amigos e de eventos que arrecadam fundos para seus tratamentos médicos. Poesia não dá dinheiro e costuma dar menos reconhecimento do que o merecido. Esperamos que, com as reedições de suas obras, as vendas e o reconhecimento aumentem para que esta grande voz da poesia seja mais e mais lida e vivida pelos seus leitores.

A Editora disponibiliza trechos deste livro no Google livros, aqui.

Lucas de Sena Lima

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Por: Carolina Cecatto

Imagine você chegar em sua casa, após um dia de trabalho fatigante, e se deparar com uma teletela na parede da sala. Teletela? Que raios é isso? É um aparelho parecido com uma Tv, menor até, que dá diretrizes e condiciona a cada pessoa que possui esse aparelho. De onde eu tirei tanta imaginação? Não há imaginação. É a ficção (em partes já real) que se pode conferir lendo 1984 de George Orwell.

Ao entrar em contato com a história escrita por Orwell, não pude deixar de analisar algumas coisas que entram em xeque nessa sociedade controlada pelo Grande Irmão, do qual só temos conhecimento através de pôsteres mostrando a sua face, tranquila e ao mesmo tempo rígida.

O Grande Irmão é o líder do Partido Interno (o Ingsoc, na novilíngua), em palavras antigas, o Socialismo Inglês. Nestes termos, entra uma crítica de Orwell não ao socialismo em si, pois era adepto, mas à perversão dos sistemas, tanto que nem por isso deixamos de ter a menção do sistema capitalista na obra. Este último é citado, mas como algo que foi deixado pra trás, numa história conhecida por poucos, ou melhor, por aqueles que se opuseram ao Ingsoc e conhecem a outra ‘verdade’, por meio do livro de Goldstein (arqui-inimigo do Grande Irmão).

Comentei no parágrafo anterior a respeito de ‘palavras antigas’ e ‘novilíngua’. Esta é outra artimanha do Partido para ter o controle da população. Não bastasse as teletelas, que vigiam as expressões e movimentos de cada cidadão do Partido, temos um novo tipo de idioma em voga. A ‘novilíngua’ foi criada pelo Ingsoc e trabalha com a condensação e/ou remoção de palavras. A ideia era que o indivíduo tivesse um grupo de palavras muito restrito com o qual pudesse se comunicar, comprometendo dessa forma o seu pensamento, que ficaria cada vez mais atrofiado e limitado. E, uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passaria a não existir. Assim, o Partido possuía mais uma forma de manter o controle da população: restringindo a fala e a escrita (bem diferente de proibir a menção do nome das coisas, diga-se). Eis aqui alguns exemplos de condensação:

Duplipensar: duplicidade de pensamentos, saber que está errado e se convencer que esta certo.
Crimideia: Crime ideológico, pensamentos ilegais.
Impessoa: Uma pessoa que não existe mais, e todas as referências a ela devem ser apagadas dos registros históricos.

Outro detalhe interessante é a preocupação do partido em manter os instintos da população controlados: “Inconsciência é ortodoxia”. “Por que mantê-los controlados?”, você me perguntaria. E eu responderia, tendo a obra como elo, que ter seus instintos incendiados e sem um foco específico, poderia causar tumulto, balbúrdia, efusão de sentimentos e isso geraria insatisfações revertidas em motins e revoluções da população – fato que o Partido evitaria ao extremo. Dessa forma, as pessoas eram proibidas de fazer sexo por prazer ou por vínculos afetivos, aliás, elas não podiam demonstrar seus sentimentos (!). O sexo era para fins reprodutivos, dessa maneira o Partido ganharia mais membros. Os casais, antes de se unirem, tinham que possuir a aprovação do Partido – que tinha que ter absoluta certeza de que ali não havia desejo algum. Havia inclusive a Liga de Jovens Anti-Sexo, ou seja, desde cedo a cartilha do Partido era incutida.

Então você pode se perguntar: pra onde tanto desejo reprimido seria canalizado? Uma das respostas está na agressividade, especificamente denominada no livro de “Semana do Ódio”. Nesta semana, havia uma comoção pelos membros do Partido para extravasarem toda a sua raiva sobre a imagem que aparecia na teletela, a imagem de Goldstein. E assim, todos gritavam, esbravejavam, esmurravam o ar, com o intuito de demonstrarem todo o seu ódio a um inimigo que nunca viram.

É uma população em que os vínculos afetivos não podiam existir, onde o Amor tinha um Ministério, mas era para a Tortura de quem saía do eixo proposto pelo IngSoc. Pensar era proibido. Os movimentos eram controlados e tidos como suspeitos. As pessoas se olhavam de modo suspeito. O trabalho dos membros do Partido consistia em alterar sempre o passado, através dos jornais, da literatura etc., de forma que o Partido sempre acertasse em suas previsões. O passado era sempre reinventado, não havia História. A verdade… qual seria a verdade?

Ler 1984 é encontrar a chamada distopia – uma utopia negativa. A obra revela o totalitarismo em seu auge. E eu, como leitora, não poderia deixar de observar que há reflexo dessa obra na nossa realidade, que eu nem sei se é real… Câmeras, relacionamentos superficiais, desconfiança, controle de massas, mídia manipuladora, repressão de sentimentos, mortes em massa, trabalhadores condicionados, informações inúteis que preenchem a nossa cabeça…

Haveria muito mais ainda pra se falar dessa grande obra e a sensação que se tem é de que algumas coisas dela insistem em permanecer no nosso presente. Mas ao lê-la queremos evitar que estas certas coisas perdurem. Consegue perceber a importância desse livro?

Veja o trailler do filme: http://bit.ly/vOMOV

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        Por Denis Silva

       Devido a projetos pessoais, estarei ausente do blog (ao menos, como colunista por tempo indeterminado). Agradeço aos colegas de grupo o espaço durante estes 18 meses. Aos visitantes do site,  meus agradecimentos pela paciência em ler estes rascunhos que deixo no histórico de post’s.

Homem Vitruviano

A aurora do conhecer clássico arrebatou Sá de Miranda em sua viagem à Itália do século XVI. Acreditando que aquele era um auspicioso momento cultural, com consequências ímpares na história da humanidade, Sá de Miranda em sua volta procurou difundir estas novas ideias que já estavam bem conhecidas no país que outrora sugou os conhecimentos da pátria mãe do pensamento clássico.

         A cultura greco-romana, base para as ideias clássicas, havia fomentado nas cabeças pensantes da época uma nova visão de mundo, muito mais ligada aos prazeres da vida, num oposicionisno à época que a antecedeu. Com este pensamento, um novo horizontsurgiu diante dos olhos sedentos de conhecimentos e novidades dos intelectuais portugueses da época, como: João de Barros, Damião de Góis, Fernão Mendes Pinto nos estudos históricos; Sá de Miranda, Antônio Ferreira e Luís de Camões no terreno da literatura

       Algumas situações colaboraram para a difusão das idéias clássicas por toda Europa, dentre elas:  a invenção da Imprensa e o trabalho para recuperar e traduzir textos clássicos antigos. Trabalho este desenvolvido pelos humanistas que iniciou a mudança do ensinamento religioso pelo laico nas escolas.

       A cultura não era mais exclusividade do clero, alcançando camadas da burguesia emergente , que via no conhecimento um meio de destaque social, substituto dos títulos de nobreza e do sangue aristocrático que ela não possuía . O racionalismo era a base para descobertas científicas denotando assim um dos principais fatores da era clássica: o antropocentrismo, que ressaltava ainda mais a distância em que o mundo se encontrava da era medieval .

          Em resumo, a época clássica que via na razão algo a ser atingido e cultivado, quase como divino, buscava um equilíbrio, entre a inspiração e a forma, com um otimismo em relação ao presente e futuro da humanidade. Algo que explica a saga dos portugueses que adentraram no mar em busca de novas descobertas, cientes de suas missões como parte do desenvolvimento de sua pátria. Não obstante, devê-se lembrar que esta transição foi um período complexo diante do choque que crenças entre o antigo e o novo pensamento.

     Para não deixar de ser abaixo uma poesia de Luís de Camões. Transmutada (Monte Castelo)

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PRIMEIRA PARTE

Uma das grandes discussões de Foucault, em suas obras, é a relação entre discurso e poder. Para ele quanto menos uma pessoa exercer poder sobre outra melhor é a relação entre essas pessoas.

Sua filosofia diz que todo e qualquer discurso está impregnado de poder e, portanto, estabelece a relação de opressão, já que esta é produto da outra.

Em nossa sociedade capitalista cujos meios de comunicação são cada vez mais “ferozes” e os discursos mais sedutores, é de extrema importância dar luz às ideias de Foucault e trazê-las para a nossa realidade.

Nas relações humanas há o exercício do poder e este dita o que é ou não verdade. O que é verdade? São discursos sedimentados que foram aceitos ao longo do tempo. Acontece desta maneira: lança-se um discurso. Ou as pessoas aceitam, tornando-o verdade, ou não. Daí, pode-se pensar em “loucura”. Foucault transmite a ideia de que é um conceito social e não falta de razão, como acreditava Descartes (René Descartes, filósofo).

A loucura para Foucault era uma questão de discernimento em relação aos demais e determinadas situações. Há pessoas que sabem qual “comportamento” devem seguir para serem aceitas e outras simplesmente não têm tal discernimento.

Em sua obra Vigiar e Punir, o autor analisa o espaço (arquitetura) para o exercício do poder e o adestramento a ser realizado nesses espaços.

Como educadora, atento-me quando Foucault discorre sobre a arquitetura do poder com o intento de vigilância, exemplificando como modelos a fábrica, o manicômio, a prisão e a escola.

Entre outros aspectos, a disposição das carteiras em fileiras, a própria sala de aula em formato quadrangular (para o ser humano ser “enquadrado”, seguir normas) são evidências de contínuo uso do poder e da opressão nas escolas. Há também o sistema de vigilância com os chamados “inspectores”, carcereiros modernos. Além disso, professores-generais, que não estabelecem interação e mediação com os seus alunos, continuam comandando e oprimindo seus alunos.

Sem dúvida, Foucault é um dos filósofos que muito nos tem a ensinar, ou melhor, pretende aguçar nossas dúvidas e nos  instigar a buscar respostas. Pretendo na segunda parte abordar um pouco mais a questão do poder e introduzir um assunto um tanto polêmico: sexualidade. Sugiro algumas leituras e pesquisas:

FOUCAULT, M. História da Loucura.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir.

FOUCAULT, M. História da sexualidade: a vontade de saber. vol. 1

FOUCAULT, M. História da sexualidade: uso dos prazeres. vol. 2

FOUCAULT, M. História da sexualidade: o cuidado de si. vol. 3

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loucura. s.f 1.distúrbio da mente do indivíduo que o afasta de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir. 2. perda da razão. (HOUAISS)

razão. s.f  1. raciocínio. 2 capacidade de avaliar corretamente; juízo. (HOUAISS)

discernimento. s.m 1. capacidade de separar o certo do errado. (HOUAISS)

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PAULA CRISTINA

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