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Archive for the ‘História’ Category

Algumas considerações…

Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves

Personagem que figura a mitologia egípcia, grega e babilônica a Esfinge é sinônimo de força, de poder, mas também de mistério, introspecção e autoconhecimento.

Antes de continuarmos nossa exposição das principais figuras da mitologia egípcia, gostaríamos de refletir, ainda que minimamente, sobre o que, afinal, representa a mitologia. Ousamos também entender quais seriam seus possíveis propósitos.

A gênese de todos os mitos perde-se nas brumas do tempo. Não se pode dizer exatamente de onde essas histórias realmente advêm. E, apesar de magníficas, geralmente tais narrativas não são “palpáveis”, na medida em que gravitam na órbita do maravilhoso, do onírico, do mágico. Justamente por este motivo, de maneira geral, a mitologia não agasalha as tais “verdades científicas”, porque transportá-la ao real seria como destituí-la de todo o seu encanto.

Se não sabemos sua origem, podemos saber sua função?

Para que servem os mitos? Além de possuirem, como já mencionamos, um cunho totalmente imaginoso, capaz de nos levar às viagens mais incríveis do gênio humano, capaz de nos maravilhar, a mitologia aborda os temas ocultos, parcamente compreendidos pela razão.

Mas… tentemos entender o valor da mitologia para os nossos ancestrais. Tarefa árdua, uma vez que não podemos voltar aos primórdios dos tempos da criação destas histórias, tampouco possuimos  a visão dos antigos. Podemos, contudo, promover uma tentativa, desde que nos inclinemos à visão de outrora. Imparcialidade? Não. Não podemos alcançá-la. Mas, se pudermos ao menos entender o pensamento dos antigos, com o ideário deles (fazendo isso com o mínimo de pesquisa e desprendimento às considerações “modernas”, bem como sem o preconceito proveniente da falta de consciência histórica, por assim dizer) talvez possamos entender a função dos mitos.

Remetendo nosso pensamento à Antiguidade, os mitos não indicariam algo considerado falso (afinal, hoje em dia, esse é um dos sinônimos da palavra), senão o código segundo o qual as divindades transmitiam sua linguagem e seus ensinamentos à humanidade. Por meio deles, desta forma, seria possível estabelecer uma real conexão com os imortais, aprendendo com eles.

Entendendo as condições criativas e criadoras dos mitos, pensemos: por que a mitologia apresenta uma linguagem na maioria das vezes ambígua? Seguindo a linha de aprendizado que o mito nos proporciona, não aprendizado moral, mas essencial, podemos sugerir que a humanidade precisa aprender a interpretar para encontrar o seu próprio caminho. Nenhum deus, portanto, poderia falar diretamente com um indivíduo humano. Este precisa deixar-se levar pela névoa do mito, pelo mundo mágico do mito para entender o mundo real. Conhecer as possibilidades.

Encarando os mitos desta forma, compreendemos porque eles não precisam competir com a ciência, por exemplo. A mitologia nos mostra os mistérios da vida, narrando nossos dramas existenciais coletivos e individuais. Traduzem nossas alegrias e tristezas, enfim… Enquanto criação humana, a mitologia canaliza todos os nossos anseios e medos e nos ensina a enfrentar os nossos dragões.

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Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves


A civilização egípcia  que se manteve ativa por mais de três mil anos. Foi responsável pela criação de um império religioso-científico eminente. Criadores de alguns princípios da matemática, da astronomia, da medicina e da agrimensura, os egípcios também foram desenvolvedores de um código linguístico incrivelmente complexo e  rico, os hieróglifos, a que demos uma rápida atenção no último post.

Permeada em uma atmosfera de fascínio e de mistério, e amparada sobre intensa efervescência cultural, principalmente promovida pelas lendas, floresceu a mitologia egípcia.

A mitologia dos egípcios agasalha as mais diversas divindades, as quais comumente podemos relacionar, em grau de similaridade, com outros panteões. O grego, por exemplo, apresenta variadas expressões mitológicas semelhantes às do Egito.  Preferimos, contudo, relembrar apenas as deidades consideradas “principais”, as mais significativas. Além disso, como dissemos, existem inúmeros deuses que foram criados e cultuados pelo povo. Muitas destas entidades cósmicas, porém, apresentam forças, virtudes ou falhas, arquétipos, enfim, semelhantes.

Há especulações que mencionam os atlantes como os criadores da mitologia do Egito (sabendo que a sua grande ilha iria sucumbir, os sábios deste povo, conhecido pelo mistério de seu desaparecimento e de sua possível super-tecnologia, enviaram a outra região entidades especiais, que, por sua vez, maravilhadas com o povo que vivia ao entorno do Nilo, decidiram lá se estabecer e ensinar a agricultura).

Outros, pensam se tratar os deuses do Egito Antigo, dos faraós da era pré-dinástica. Eles teriam governado com justiça, estabelecendo os limites do país e ensinando a civilização e a agricultura ao povo. Dessa crença, advém a ideia de  que é comum e correta a prática dos casamentos entre e os faraós e as rainhas ocorrerem muitas vezes entre irmãos. O  laço consanguíneo próximo, acreditava-se, purificava mais a união nobre e, os deuses também se casam entre irmãos. O casamento, portanto, elevava a condição humana.

Deuses egípcios (para algumas linhas de pesquisa os Neteru*)

Os deuses do princípio criador

Nun (as águas primordiais, a partir das quais todo o mundo foi engendrado; é a divindade ancestral) e Aton (o rei de todos os deuses, aquele que criou o universo. É o mesmo deus que gerou Shu, o ar, e Tefnut, a umidade).


Eneada – os nove principais

Amon – deus sol: o deus-carneiro de Tebas, rei dos deuses e patrono dos faraós. É o senhor dos templos de Luxor e Karnac. Tem por esposa Mut e por filho Khonsu. Seu culto data de 2000 a.C. Sob o nome de Amon-Rá é criador da ordem divina. Ele é o sol que dá vida ao país. Amon tornou-se um título monárquico, mesmo título que Ptah e .

Shu (deus do ar e da luz) e Tefnut (deusa da umidade e da graça): este casal constitui a sístole e a diástole universais e a atmosfera. Shu é a personificação da atmosfera diurna que sustenta o céu. Tem a tarefa de trazer o deus Sol, seu pai, bem como o faraó à vida ao alvorecer. É a essência da condição seca, do gênero masculino, calor, luz e perfeição. É representado como o homem que segura Nut, a deusa do céu, para separá-la de Geb, o deus da Terra (seus filhos). Já Tefnut espera o sol libertar-se do oriente para recebê-lo. A deusa é irmã e mulher de Shu. É o símbolo das dádivas e da generosidade, também conhecida por afastar a fome. Este casal representa o “ritmo do universo”.

Get (a Terra) e Nut (o firmamento): Get é o suporte físico do mundo material, sempre deitado sob corpo da esposa. Ele é o responsável pela fertilidade e pelo sucesso nas colheitas, estimulando o mundo material dos indivíduos e lhes promovendo enterro no solo após a morte. Este deus umedece o corpo humano na terra e o sela para a eternidade. Nas pinturas é sempre representado com um ganso acima de sua fronte. Nut é deusa do céu que acolhe os mortos no seu reino. Com o seu corpo esbelto, ornamentado por estrelas, encarna a curvatura da abóbada celeste que se estende sobre o planeta. É como um carinhoso abraço da deusa do céu sobre Geb, o deus da Terra. Nut e Geb são pais de Osíris, Ísis, Seth, Néftis e Hathor. Osíris e Ísis já se amavam no ventre da mãe e a perversidade de Seth evidenciou-se, logo ao nascer,  rasgando o ventre materno. Note-se, agora, uma disparidade com o mito de criação grego: Gaia (Géia) é a personificação feminina do planeta, mantendo um relacionamento de passividade com Urano, o céu (masculino).

Osíris (o deus do julgamento, dos mortos, pai e senhor de todo o Egito): sua gênese consta nos relatos da criação do mundo, sua geração é a ultima a acontecer e não representa mais os elementos materiais (como o céu, a terra, etc.). Há um mito que narra a ressurreição da vida relacionada com a cheia do Nilo, que mantém relacionamento com este deus. Osíris é morto, destruído e ressuscitado, relembrando, assim, a morte e a vida da vegetação e de todos os seres. Desta maneira, ele é o deus dos mortos e da ressurreição, rei e juiz supremo do mundo dos mortos. Acredita-se que ele tenha sido o primeiro Faraó e que ensinou aos homens  a civilização e a agricultura ao entorno do rio sagrado. Pensa-se ainda que seu mito teria similaridade com a história de Cristo.

Ísis (deusa mãe, protetora do Egito): resultado da união do material e do espiritual, é a mais popular de todas as deusas egípcias, considerada a deusa da família, o modelo de esposa e mãe, invencível e protetora. Usa os poderes da magia para ajudar os necessitados. Ela criou o rio Nilo com as suas lágrimas. Reza a lenda que, após a morte de seu amado esposo, ela transforma-se em um milhafre para chorá-lo, reúne os seus despojos, empenhando em trazê-lo de volta à vida. De sua pura união com ele, concebe um filho, Hórus.  Perfeita esposa e mãe ela é um dos pilares da tessitura sócio-religiosa egípcia. Sua coroa memora um assento com espaldar (trono) que é o hieróglifo correspondente a seu nome nome. É importante dizer que o conceito da “imaculada concepção”  e de beleza exemplar advém de seu mito. Além de haver possível conexão entre o seu mito e o de Deméter (divindade grega).

Néftis (mãe terra e senhora dos mundos infernais): sempre acompanha Ísis no processo post mortem. Mesmo sendo esposa de Seth, ela permanece solidária à Ísis, ajudando-a a reunir os membros espalhados do esposo defunto da irmã, por quem era apaixonada, e também toma a forma de um milhafre para velá-lo. Como Ísis, ela protege os mortos e os sarcófagos. É ainda na acompanha a Mãe do Egito e o sol nascente,  defendendo-o contra a terrível deusa serpente Apófis.

Seth (deus da maldade e da guerra): foi considerado Senhor do Alto Egito durante o domínio dos Hicsos. Embora inicialmente fosse um deus de índole benfazeja, com o passar do tempo tornou-se a personificação do mal e da inveja. Era representado por um homem com a cabeça de Tífon, um animal imaginário formado por partes de diferentes seres, com a cabeça de um bode, orelhas grandes, como um burro. Associavam-no ao deserto aos trovões e às tempestades. A pugna entre Osíris e Seth é  a representação da terra fértil contra a aridez do deserto.  Tinha apreço por alguns crocodilos do Nilo que personificavam os defeitos humanos, assim como os nossos medos. Em suma, Seth é o par antitético de seu irmão Osíris.

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* anjos de deus: as diversas facetas de um mesmo deus, criador de tudo.

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Em um próximo post, falaremos sobre as divindades superiores do Egito.

Até lá…

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O que é o labirinto?

Uma questão digna de páginas e páginas que remeterão ao passado do Homem, à sua epopéia pelo mundo, geração após geração.

O labirinto, com sua mística, seu mistério, desperta curiosidade por sua tão instigante simbologia – que mesmo incógnita está ali, nos incitando.

Desafio que demanda ininterrupto pôr-se em movimento.

Místico, mítico, mágico, oculto… a imagem do labirinto é sinal presente nas mais diversas realidades culturais do Homem.

Quem não ouviu falar do labirinto de Creta, com a sinistra figura do Minotauro a guardar seus corredores e devorar os jovens que lhe eram dados em sacrifício?

Labirinto do Minotauro: mosaico romano em Conímbriga (região de Coimbra, Portugal)

Ou da história de João e Maria, cuja infrutífera tentativa de demarcar o caminho os leva a vagar sem rumo pela tenebrosa e labiríntica floresta – e os deixa à mercê da sedução e da maldade da bruxa?

João e Maria - Hansel e Gretel, em alemão, como recolhido pelos irmãos Grimm (arte de Arthur Rackham, 1909)

Isso para citar apenas exemplos da tradição ocidental.
No imaginário cristão, o labirinto representa a peregrinação terrena do homem, em sua trajetória de retorno a Deus.

Símbolo da existência humana, com seus obstáculos e dificuldades, suas nuances e incertezas. Estar próximo da meta e não alcançá-la, e contudo não abdicar da busca.

Esforço; desânimo; abandono; reabilitação. TRANSFORMAÇÃO. O objetivo é claro ao viandante do labirinto: a busca pela Vida. Perfaz-se a figura do povo escolhido, que procura a Terra Prometida, a meta, através do tempo e do espaço. É preciso moldar-se, adaptar-se. Evoluir, à medida que se caminha.

Quanto ao caminho exato… não se sabe. Descobre-se.

Essa perspectiva tem profunda relação com um período muito estigmatizado da Humanidade: a Idade Média.

De fato, o Medievo ocupa o imaginário contemporâneo – nos mais variados aspectos, e apesar ‘contaminações’ diversas a uns e a outros… Fascina saber que, há tempos, homens como nós viviam guiados por valores tão diversos dos que temos hoje.

E encanta a percepção de que aquela visão de mundo possuía uma estética própria, por assim dizer. Um ‘estilo artístico’ que encerra em si as marcas desse período e desse modo de vida: o Gótico.

“Gótico”, termo depreciativo usado pelos homens das Luzes para se referir a tudo aquilo que remetia a um suposto tempo de trevas da humanidade: tempo em que o Homem não tinha os olhos só para si, mas os tinha, antes, para os céus.

Eclipse bárbaro da história da Europa, na visão daqueles ‘iluminados’. Mas mal viam eles que, sob o ponto de vista da Fé – fé cristã –, o gótico trazia em si prenúncios da elevação humana, da possibilidade de se alcançar a mesma essência do Criador – efetivamente Sua imagem e semelhança. Apesar dos percalços.

Eis uma das possibilidades quando se analisa a grandeza da arquitetura chamada gótica.

As impressionantes catedrais, concentradas inicialmente na França do século XII, lentamente ganharam a Europa. Registro histórico de grandes mudanças… a riqueza dos pórticos, esculturas e estátuas, a grandeza das abóbadas nervuradas e arcos ogivais, a inundação luminosa dos vitrais e rosáceas, tudo sinaliza a presença da Natureza nos desígnios divinos.

Santos em certa medida ‘humanizados’, diferentemente da arte ortodoxa e românica, que vislumbrava o perfectum, o já transfigurado. Representação do cotidiano nos retábulos, nos adornos: plantas, profissões; rostos, corpos; emoções, pecados. E a Redenção.

O homem comum surgia na temática da arte da Igreja. Aparecia uma nova linguagem, cujas bases estavam na Escolástica de São Tomás de Aquino, na reorganização do mundo europeu com o surgimento e fortalecimento dos burgos, no crescimento do poder dos reis, nas Cruzadas, no declínio do temor do “fim dos tempos” do século X…

E eis que ele ressurge. O LABIRINTO…

Memorial do itinerário humano na terra. Com veredas já estabelecidas, mas cujos caminhos residem nas mãos e consciências dos homens.

Fides et Ratio. Fé e Razão, que caminham juntas, contradizendo-se e completando-se numa relação simbiótica que perdura até nossos dias.

Há muito a se dizer sobre esse tema, enfim…

Antes de concluir, uma nota histórica: uma das mais importantes catedrais góticas é a de Nossa Senhora de Chartres, na pequenina cidade de mesmo nome, próxima a Paris, noroeste da França. Iniciada em 1145 e reiniciada em 1194 (após um incêndio), foi grande centro de peregrinação, e teve renome a ponto de ser palco da sagração do rei Henrique IV, em 1594. Chama a atenção uma catedral tão grande e bela numa vila tão pequena (apesar de religiosamente importante desde antes do século X), e também o fato de boa parte de sua construção final ser atribuída aos peregrinos que a ela acorriam, trabalhando de dia e celebrando sua fé à noite.

Pois bem: o labirinto retratado no início deste post é cópia no que está DENTRO da Catedral de Chartres, no piso da nave central; ele constitui um grande e delicioso mistério, dos muitos que as catedrais góticas reservam até hoje.

Alexandre Oliveira

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Muito já foi escrito e falado sobre O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, a universal e atemporal história do espanhol Miguel de Cervantes, publicada em dois volumes no início do século XVII.

A história é conhecida até para quem nunca leu a obra. Um senhor de um rincão da Espanha é obcecado por ‘novelas de cavalaria’, e resolve sair pelo mundo praticando o que depreende dos muitos livros que lera. Movido por uma fé imensurável em valores já estranhos à sociedade em que vive, ele distorce tudo o que vê e encontra, colocando-se em situações inimagináveis – onde o perigo ou o absurdo disputam terreno com o ridículo.

Dom Quixote e os gigantes, por Gustave Doré

Existe um excelente texto (apesar de extenso) a respeito do livro no site da Academia Brasileira de Letras, escrito por Ivan Junqueira. Nele, o imortal tece relações temáticas, filosóficas, sociais…, de maneira bastante interessante e iluminadora.

É um artigo (corrigindo: é uma conferência…) relativamente difícil, pelo nível de referências que traz. Mas vale demais a pena.

O livro em si também é complexo. Não só em relação à história, mas quanto à linguagem, aos diálogos intertextuais que propõe, ao repertório exigido do leitor, ao próprio tamanho da história.

Compreensível, pois falamos de uma obra de 400 anos de idade…

Mas é um livro atual. E mais: necessário. Verdadeiro tesouro da humanidade – basta ver sua popularidade e a quantidade de referências que recebe, das mais variadas formas e nas mais diversas áreas.

Menciono a continuação “alheia” , escrita (por Alonso Fernández de Avellaneda) antes de a segunda parte do livro ser lançada por Cervantes – e cuja existência é mencionada na continuação original pelo próprio Cavaleiro da Triste Figura, levando-o a mudar totalmente o rumo da própria história.

E ainda outras continuações posteriores, em tempos e países diversos…

Enfim, não há como não se transformar bastante ao se passar por aquelas páginas.

Isso tudo faz pensar que deveria ser um livro mais lido, mais trabalhado – é raro, mesmo em estudantes da área de Humanas, encontrar quem tenha tido disposição de lê-lo por ‘livre e espontânea vontade’.

Eis uma questão: como tornar o Dom Quixote acessível a novos leitores – e não só a eles?

Dom Quixote das crianças (Ed. Brasiliense)

Uma maneira de se aproximar do livro é usar a ponte estabelecida por autores que já pensaram nisso. Um grande exemplo é Monteiro Lobato, com seu Dom Quixote das crianças, de 1936. Nele, Emília encontra o livro em uma prateleira da biblioteca do Sítio; Dona Benta se propõe a lê-lo para as crianças, mas diante das dificuldades, ela prefere contar a história de cabeça.

Uma ótima abordagem, que traz a história às crianças sem o “preço” da simples adaptação da obra, que sempre implica em perdas inevitáveis. De fato, Monteiro Lobato não propõe um livro “substituto” da obra original: antes, concede o acesso a ela através de suas personagens imortais, como Emília, o Visconde, Pedrinho e Narizinho… dessa forma, desperta a curiosidade, e deixa claro que a fonte está ali, e para se aproveitar mais, é só ir até ela.

Não que a história do pessoal do Sítio do Picapau Amarelo não tenha valor por si só – muito pelo contrário. Mas, neste caso, é também uma via para a obra clássica, a ‘geradora do diálogo’. Algo que não pode ser desprezado.

E esse itinerário todo fatalmente nos levará à pergunta que ainda não encontrou sua resposta: Dom Quixote era louco ou não era?

Taí…

Alexandre Oliveira

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Cantiga de D. Dinis, o Rei Trovador

“Ai senhor fremosa, por Deus”

01 Ai senhor fremosa, por Deus,

02 e por quam boa vos El fez,

03 doede-vos algũa vez

04 de mim e destes olhos meus,

 

05 que vos virom por mal de si,

06 quando vos virom, e por mi.

 

07 E, porque vos fez Deus melhor

08 de quantas fez, e mais valer,

09 querede-vos de mim doer

10 e destes meus olhos, senhor,

 

11 que vos virom por mal de si,

12 quando vos virom, e por mi.

 

13 E, porque o al nom é rem

14 senom o bem que vos Deus deu,

15 querede-vos doer do meu

16 mal e dos meus olhos, meu bem,

 

17 que vos virom por mal de si,

18 quando vos virom, e por mi.

(CBa 529, 526)

Iluminura medieval que retrata os mistérios do Amor Cortês.

Iluminura medieval que retrata os mistérios do Amor Cortês.

Possíveis comentários:

O trovador roga à amada que tenha compaixão dele e dos seus olhos. A temática de “Ai senhor fremosa, por Deus” delimita-se, portanto, no campo da visão, sentido muito citado em toda a lírica trovadoresca. O trovador suspira, invocando mais uma vez a divindade para tentar abrandar o insensível coração de sua senhor. Apesar desse apelo a Deus (artifício do poema medieval, como já dissemos), podemos perceber um aspecto sensual que permeia toda a cantiga.

Na primeira cobra, o eu lírico suspira por sua dama, a mais bela dentre as mulheres (versos 1, 2, 7 e 8), expondo imediatamente seu drama. Ele sofre desde o aziago dia em que a viu (refrões). O poeta, cogitando a possibilidade de sua amada se condoer pela sua dor (verso 3), explica que a causa de “seu mal terrível” provém do ser amado. A crise do trovador se intensifica à medida que ele deseja ser perdoado pela sua amada, que se configura como impassível, sans merci.

Percebemos, dessa maneira, uma possível dicotomia: “bem” x “mal”. A dama “e por quam boa vos El fez” é belíssima e,  configura-se como o Bem Supremo do trovador, o próprio amor (sua origem e seu fim). Concomitantemente, a mulher cumpre o papel de agente da dor do poeta, agente maléfico, portanto. O motivo do sofrimento do trovador (o momento em que vê sua amada) também é duplo: os olhos, enquanto veículo do amor, vislumbram a beleza inebriante da dama, tal como se vislumbrassem a aurora (ousamos a comparação, apoiando-nos na concepção da beleza medieval, de caráter canônico). O impacto da visão da mulher ideal é tamanho que o poeta não hesita em admirá-la; seus sentidos se aguçam e ele entra no perigoso jogo do desejo; finalmente preso às tramas da paixão, o poeta se mantém inerte, ludibriado pelos encantos sobrenaturais da senhora, a quem se coloca como vassalo amoroso.

Haja vista a cantiga não possuir diálogos, dada a sua estrutura formal, percebemos que, apesar de enfeitiçado pela beleza erótica feminina e torturado pelo seu desejo visivelmente carnal, o eu lírico se mantém alerta, como se ensaiasse uma fala a sua senhora.  A segunda estrofe corrobora essa afirmação. Nela, pois, o trovador elogia sua suserana, usando as mesmas qualidades do elogio para rogar sua atenção. Sendo a dama tão boa e tão bela, como renegar o amor de seu pretendente?

O tom elegíaco da cantiga continua na terceira cobra. O trovador usa de seu talento para lidar com as palavras, ratificando a beleza da amada, bem como sua bondade, com a condição que ela se condoa dele, e mais: aceite suas súplicas mais pulsantes e carnais, portanto (versos 14 e 15).

A cantiga é composta por 3 cobras, tendo o talho como estrutura estrófica.  Há 18 versos, todos decassílabos agudos (excetuando os versos 1 e 4 que são graves). Há enjambement entre os versos 3 e 4, 7 e 8, 9 e 10, bem como entre os 15 e 16. As rimas são interpoladas (ABBA) nas cobras e paralelas (AA) nos refrões, todas são finais e consoantes; ricas nas 1ª e 3ª cobras e pobres na 2ª estrofe e nos refrões. Há cesura nas quartas sílabas de todos os versos.

♦Nathaly Felipe Ferreira Alves♦

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Dados biográficos de Victor Hugo

“A medida do amor é amar sem medida”

            Victor Hugo, autor de Os miseráveis e O Corcunda de Notre Dame, entre outros clássicos da literatura mundial, era filho de Joseph Hugo e de Sophie Trébuchet. Nasceu em Besançon, mas passou a infância em Paris.

Em 1819 fundou, com os seus irmãos, uma revista, o Conservateur Littéraire (Conservador Literário), mesmo ano em que ganhou o concurso da Académie des Jeux Floraux, instituição literária francesa fundada no século XIV.

Aos 20 anos o escritor publicou uma reunião de poemas, Odes e Poesias Diversas, utilizada como prefácio de sua peça teatral Cromwell (que o projetou como líder do movimento romântico na França).

Victor Hugo casou-se com Adèle Foucher e durante sua vida teve diversas amantes, sendo a mais famosa Juliette Drouet, atriz sem talento, a quem ele escreveu numerosos poemas.

O período 1829-1843 foi o mais produtivo da carreira do Intenso Romântico. Seu grande romance histórico, Notre Dame de Paris – mundialmente conhecido como O Corcunda de Notre Dame – (1831), conduziu-o à nomeação de membro da Academia Francesa, em 1841.

Criado no espírito da monarquia, o escritor acabou se tornado favorável a uma democracia liberal e humanitária. Eleito deputado da Segunda República, em 1848, apoiou a candidatura do príncipe Luís Napoleão, mas se exilou após o golpe de Estado que este deu em dezembro de 1851, tornando-se imperador. Hugo condenou-o vigorosamente por razões morais em Histoire d’un Crime.

Durante o Segundo Império, em oposição a Napoleão 3o, viveu em exílio em Jersey, Guernsey e Bruxelas. Foi um dos poucos a recusar a anistia decidida algum tempo depois.

A morte da sua filha, Leopoldina, afogada por acidente no Sena, junto com o marido, fez com que o importante autor se deixasse levar por experiências espíritas, relatadas numa obra Les Tables Tournantes de Jersey (As Mesas Moventes de Jersey).

A partir de 1849, Victor Hugo dedicou sua obra à política, à religião e à filosofia humana e social. Reformista, desejava mudar a sociedade, mas não mudar de sociedade.

Em 1870, retornou a França e reatou sua carreira política. Foi eleito primeiro para a Assembléia Nacional, e mais tarde para o Senado. Não aderiu à Comuna de Paris defendeu, no entanto, a anistia aos seus integrantes.

De acordo com seu último desejo, foi enterrado em um caixão humilde no Panthéon, após ter ficado vários dias exposto sob o Arco do Triunfo.

 

  

♦Nathaly Felipe Ferreira Alves♦

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♦ Diplomata, erudito, humanista e poeta Francesco Petrarca ( 1304 –  1374) apresenta a multifacetação do período transitório em que viveu (configurando-se como um dos últimos homens da Idade Média e um dos primeiros indivíduos a quem podemos denominar “modernos”). Por meio de seu lirismo amoroso (encarnado na figura de Laura, mulher concreta, diferente da amada de Dante, Beatriz), Petrarca destaca a figura humana não como uma mera “criatura”, mas como um verdadeiro indivíduo que possui suas próprias vontades e que imprime no universo em que reside a sua própria psicologia.

♦ Sua poesia apresenta, porém, nuances neoplatônicas no que concerne à temática do amor e… com um pouco de ousadia, podemos supor que o pesar sentido em alguns momentos de sua obra sejam “indicadores” de um futuro sentimento romântico (fortemente melancólico e individualista em determinadas estruturas).

Dolce stil nuovo: a partir deste conceito que aparece na Divina Comédia, Petrarca cria um novo tipo de poema. A insuperada forma do soneto italiano… representante da “modernidade” na poesia de cunho amoroso.

♦ Nossa comum-unidade: o estilo de Petrarca, bem como sua expressão lírica expressam ao longo dos séculos o que Alexei Bueno chamaria de “nossa sensibilidade poética ocidental”.

♦ Tentemos imaginar o que seria do nosso Camões ou mesmo de um Sá de Miranda… dos maneiristas ingleses, ou do Siglo del Oro espanhol sem a influência deste poeta e humanista italiano… Como se configuraria determinados momentos da expressão lírica ocidental?

    Para apreciação…

    Soneto XXII

     

    S’ amor non è, che dunque è quel ch’ io sento?
    Ma s’egli è amor, per Dio, che cosa e quale?
    Se buona, ond è effetto aspro mortale?
    Se ria, ond’ è si dolce ogni tormento?
     
    S’a mia voglia arado, ond’ è ‘I pianto e ‘I lamento?
    S’a mal mio grado, il lamentar che vale?
    O viva morte, o dilettoso male,
    Come puoi tanto in me s’io nol consento?
     
    E s’io ‘I consento, a gran torto mi doglio.
    Fra sì contrari venti, in frale barca
    Mi trivo in alto mar, senza governo,
     
    Sí lieve di saber, d’error sí carca,
    Ch’ i i’ medesmo non so quel ch’ io mi voglio,
    E tremo a mèzza state, ardemdo il verno.

     

    Soneto XXII
     
    Se amor não é qual é este sentimento?
    Mas se é amor, por Deus, que cousa é a tal?
    Se boa por que tem ação mortal?
    Se má por que é tão doce o seu tormento?
     
    Se eu ardo por querer por que o lamento?
    Se sem querer o lamentar que val?
    Ó viva morte, ó deleitoso mal,
    Tanto podes sem meu consentimento.
     
    E se eu consito sem razão pranteio.
    A tão contrário vento em frágil barca,
    Eu vou para o alto mar e sem governo.
     
    É tão grave de error, de ciência é parca
    Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio
    E tremo em pleno estio e ardo no inverno.

         

       (Petrarca e Laura)

     

     

    Consultas:

    a sites:
     a livros:
     Petrarca, Poemas de Amor (O cancioneiro)/ Apres. Alexei Bueno; trad. Jamil A. Haddad – RJ: Ediouro, 1998.
     
     
     
    Post publicado por: Nathaly Felipe Ferreira Alves

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