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Archive for the ‘Jazz’ Category

Em 2005 a Editora Globo editou o primeiro volume das Obras Reunidas do poeta Roberto Piva.

Piva é o flaneur paulistano do tempo em que a cidade revelava uma geração fértil de poetas, retratados no documentário Uma outra cidade (Ugo Giorgetti, 2000). Estreou na literatura em 1961 com sua “Ode a Fernando Pessoa”, dois anos mais tarde lançou seu primeiro livro: Paranóia. Sua Obra Reunida está dividida em três volumes, cujo segundo – Mala na mão & asas pretas – traz os livros da sua maturidade poética, escritos entre 1973 e 1983, e os manifestos escritos em 1984, sob o título de “O Século XXI me dará razão”. Os livros reunidos neste volume, seguidos dos epítetos (entre parênteses) que lhe deu o amigo e crítico de sua obra Claudio Willer, são:

Piazzas (a fruição e a contemplação)

Abra os olhos & diga Ah! (e o entusiasmo)

Coxas (e a orgia ritual)

20 poemas com brócoli (e as analogias)

Quizumba (e a possessão)

Entre as principais características desta fase intermediária da sua produção estão o sexo e a liberdade, a liberdade trazida pelo sexo (aqui visto como arma e bandeira política), a orgia como ritual, o círculo de amigos como tribo, o “desregramento de todos os sentidos” (Rimbaud), as paroles en liberté, o tesão como “trombeta belicosa”, o amor louco adolescente, e todas as suas influências estéticas, sempre ecléticas e universais.

Chama a atenção a quantidade de menções e citações, influências expressas que mostram as leituras de formação do poeta, que vão de Dante a Pasolini, de Whitman a Garcia Lorca, de Álvares de Azevedo a Murilo Mendes, passando por Jorge de Lima e João Guimarães Rosa, e de Chet Baker à bossa nova no campo musical. Encontramos muito este recurso, o da citação das referências literárias como matéria para a escritura, na prosa contemporânea; mas é na poesia de Piva que esta prática ganha poder. A poesia como invocação, chamando para o terreiro estas vozes ancestrais.

O mais recorrente é vermos sobre o autor a alcunha do “poeta maldito” e o enquadramento da sua poética no rol enxuto de poetas surrealistas brasileiros. Notamos também nos livros reunidos em Mala na mão & asas pretas um poeta diretamente influenciado pela Geração Beat norte-americana, principalmente quanto à mistura da poesia à vida experimental, ao jazz e ao “Sonho & a Paixão”. Na verdade, enquadrar e qualificar Piva é um esforço vão e raso. Suas dimensões de poeta atravessam gêneros e estilos, sua poesia é o resultado de leituras libertárias, jamais dogmáticas.

A edição das Obras Reunidas traz ricos ensaios de analistas da obra do poeta. Figuram nos livros as análises do Prof. Alcir Pécora (organizador da obra e professor da UNICAMP), Claudio Willer (já citado, amigo e companheiro de geração e também poeta), Eliane Robert Moraes (professora de Literatura da FFLCH-USP), além da reunião de todos os manifestos publicados pelo autor e uma vasta bibliografia de seus textos editados, traduzidos e sua fortuna crítica ao final dos livros.

O poeta, hoje com 72 anos de idade, passou por sérios problemas de saúde desde o começo deste ano. Há tempos passa por sérias dificuldades financeiras, dependendo da ajuda de amigos e de eventos que arrecadam fundos para seus tratamentos médicos. Poesia não dá dinheiro e costuma dar menos reconhecimento do que o merecido. Esperamos que, com as reedições de suas obras, as vendas e o reconhecimento aumentem para que esta grande voz da poesia seja mais e mais lida e vivida pelos seus leitores.

A Editora disponibiliza trechos deste livro no Google livros, aqui.

Lucas de Sena Lima

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Último Round é um livro inóspito. Talvez o mais inóspito do seu autor, Julio Cortázar, tão diferenciado quanto Rayuela e Historias de Cronópios y de Famas.

Este é um livro de textos curtos, de contos, prosa poética, ensaios, poemas, desenhos e fotografias. O ato de juntar todas estas modalidades, aliado ao projeto gráfico diferenciado, coisificou o livro, transformando-o numa espécie de almanaque folheável, algo que desconstrói o formato clássico do livro (linear e lógico). Uma obra que pode ser lida do ponto em que for aberta, da frase que primeiro saltar à vista, ou mesmo desde a capa, de onde o livro começa de fato.

Aqui o lirismo se funde ao lúdico, ao curioso e ao inusitado: no território onde pode ser que a poesia costuma se esconder, na desautomatização dos gestos, ou, em palavras do próprio autor, “un otro modo de mirar”, a reinvenção da vida.

O livro está disponível em português pela Civilização Brasileira, dividido em dois tomos. Minha edição é a terceira, da Siglo Veintiuno, de 1972. Traduzo aqui como exercício duas passagens do livro; a segunda, um poema lírico-surrealista (que evoca as imagens de Dali, etc.); a primeira, uma prosa imaginativa, própria da forma como uma criança contaria uma história, que convida o leitor a um território outro, mágico, inóspito.

The Canary Murder Case II

É terrível, minha tia me convida para o seu aniversário, compro de presente um canário pra ela, chego lá não tem ninguém, meu calendário é defeituoso, na volta o canário canta aos montes no bonde, os passageiros entram em estado de cólera[1], tiro o bilhete do animal para que o respeitem, ao abaixar-me dou com a gaiola na cabeça de uma senhora que me mostra os dentes, chego em casa banhado de alpiste, minha mulher fugiu com o escrivão, caio duro no saguão e esmago o canário, os vizinhos chamam a ambulância e o levam em uma maca, fiquei a noite inteira jogado no saguão comendo o alpiste e ouvindo o telefone na sala, deve ser minha tia ligando, e liga pra que eu não me esqueça do seu aniversário, ela sempre conta com o meu presente, minha pobre tia.

O Sonho

O sonho, essa neve doce

que beija o rosto, rói até que encontre

debaixo, suspenso por fios musicais,

o outro, que desperta.

In: CORTAZAR, Julio. Ultimo Round. 3ª ed. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1972.

Lucas de Sena Lima


[1] No original, Amok. Amok é uma palavra proveniente do malaio para designar um estado de fúria violenta incontrolável, causada por um distúrbio psicopatológico. (N. do T.)

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recorded in 1959 at Columbia’s 30th Street Studio, New York City
genre: cool jazz

Time Out é um álbum de jazz do The Dave Brubeck Quartet, o quarteto que o pianista Dave Brubeck formou ao lado Paul Desmond (Sax), Joe Morello (bateria) e Eugene Wright (contrabaixo).

O álbum data de 1959, e é até hoje um dos mais vendidos da história do jazz, ao lado de clássicos como Kind Of Blue, de Miles Davis.  São 7 faixas: três do Lado A, e quatro do lado B, totalizando 38 minutos de boa música, para não dançar.

E por que uma antivalsa?

Vamos escolher como exemplo a faixa “Take Five”.

Lembra do ritmo da valsa? Um-pá-pá, um-pá-pá. Pode batucar os dedos na mesa, isso dá um 3/4, como naquela música que o Los Hermanos canta, gravada pela Maria Rita (“Casa Pré-fabricada”). O ritmo desta música é um 3/4 duplicado: um 5/4. Quando você pensa que completou o ciclo, a música te engana de leve, suingando, ou melhor dizendo: sincopando. Impossível dançar uma valsa ao som de “Take Five”.

Neste álbum, as coisas não parecem ser como são. Pega outra faixa: “Kathy Waltz” (A Valsa da Kathy). Enquanto a bateria dita um ritmo acelerado (em 2/2), o piano toca levemente, num ritmo que é a metade da velocidade da bateria (mas é um 3/4). Isso atordoa, e mostra que é impossível dançar a Valsa da tal da Kathy.

O compositor e o intérprete: Brubeck (sentado ao piano) e Paul Desmond, compositor de "Take Five".

O compositor e o intérprete: Brubeck (sentado ao piano) e Paul Desmond, compositor de "Take Five".

Em tempo: Dave Brubeck está vivo (!) e prepara um álbum em conjunto com o maestro brasileiro João Carlos Martins.

Abaixo, um vídeo de “Time Out”, para apreciação de antigos e novos fãs de jazz (pronucia-se /ʒas/).

Lucas de Sena Lima

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Nesta última parte da saga “Bossa Nova” é preciso – vital seria a palavra, falar da música “Garota de Ipanema”. Segundo uma das muitas lendas da Bossa Nova, e segundo nos conta Ruy Castro em Chega de Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova, o maior show deste estilo musical ocorreu em 1962, na Boate (na época o nome Boate, ainda não era pejorativo) Au Bom Gourmet. Estavam presentes, cantando juntos, nada mais nada menos que: Tom, Vinícius e João Gilberto. E com a participação especial do grupo vocal “Os Cariocas” foi cantada e tocada pela primeira vez a música que é hoje uma das cinco mais tocada em toda a história: Garota de Ipanema. Mas antes dos versos imortais, que –arrisco dizer, é conhecido por 9 em cada 10 brasileiros, existia uma primeira versão que dá para ter uma ideia de com seria colocando a tão famosa melodia:

Vinha cansado de tudo / De tantos caminhos / Tão sem poesia / Tão sem passarinhos / Com medo da vida / Com medo de amar

Quando na tarde vazia / Tão linda no espaço / Eu vi a menina / Que vinha num passo / Cheio de balanço / Caminho do mar

Contudo a versão cantada, naquela noite célebre, foi a que conhecemos hoje e que o mundo ouve. Digo o mundo, pois no ano 1990, uma grande gravadora encomendou um levantamento sobre as músicas mais tocadas do século. Em primeiro lugar veio Yesterday dos Beatles. Somando as canções de Jobim, ele só perde para os quatro garotos de Liverpol. Sobre o fato Tom teria dito: Tá, tudo bem, mas eles são 4 e cantam em inglês.

O fato é a Bossa Nova logrou um sucesso imenso no Brasil, mas nada comparado ao que ocorreu fora do país, principalmente nos Estado Unidos, berço do jazz, que como eu disse no segundo post, é o pai da Bossa – sendo a mãe o samba, ou vice-versa.

No ano do show do trio maior da Bossa, houve também a coroação da Bossa no famoso Carnegie Hall, em Nova Iorque. No ano seguinte João Gilberto colhia os frutos deste show. No mês de março, sob a batuta do maestro Jobim, João gravou aquele que é considerado um dos maiores discos de todos os tempos Getz/Gilberto. Com 2 milhões de cópias vendidas em seu lançamento. Isto posto o passo seguinte eram as premiações e foi isso que ocorreu, em 1965 o disco arrebatou vários Grammys, entre eles o de álbum e de música do ano por “The Girl from Ipanema”. Foi exatamente nesta música que o produtor Creed Taylor, arrancou o vocal de João e deixou apenas o vocal feminino de Astrud Gilberto, esposa de João na época. Há que diga que isso foi o que alavancou as vendas e o deixou comercial.

A Bossa Nova morreu aí em 1965? Não, nem em 1965, nem com a morte dos grandes nomes como: Nara Leão, Tom, Vinicius, Ronaldo Bôscoli, Newton Mendonça, enfim…a Bossa continua, os gringos fazem filas para assistir apresentações de Bebel Gilberto. Nas comemorações de 50 anos de Bossa Nova o show de João Gilberto teve os ingressos esgotados em questão de horas. Além disso, músicas foram imortalizadas: Corcovado, Desafinado; Meditação, Águas de Março, entre outras que ultrapassaram a barreira das mais de 1 milhão de execuções.

Abaixo, um vídeo do Stan Gertz Quartet, tocando (Lucas esse é para você, apenas instrumental), Desafinado e Garota de Ipanema.

(Denis Silva)

Fonte: CASTRO, Ruy. Chega de Saudade: A História e as Histórias da Bossa Nova. Companhia das Letras. São Paulo, 1990.

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Nara a Musa inteligente e bonita da Bossa Nova

Nara a Musa inteligente e bonita da Bossa Nova

Engana-se quem acredita que a Garota de Ipanema é a musa da Bossa Nova. Ao contrário dos dias de hoje para ser uma musa na época da Bossa Nova, era preciso, antes de tudo, ser inteligente, e Nara Leão era, além de bonita.

 Nara Leão vai se envolver com a Bossa Nova, ao frequentar a academia de violão de Carlos Lyra e Roberto Menescal. Tocar e cantar na frente de outras pessoas seria uma vitória para a menina tímida de quatorze anos.

 Ronaldo Bôscoli, que havia conhecido Menescal, naquele mesmo ano, numas das famosas rodas de violão, que eram comuns á época, completaria o célebre trio dos jovens da Bossa. Mas os encontros marcados para se fazer música, entre os dois, só aconteceu em 1957, quando eles já viviam de música. Neste mesmo ano, Bôscoli foi convidado a freqüentar o apartamento de Nara Leão, onde ATurma se encontrava para conversar e fazer música. Depois de algum tempo Nara, que já havia namorado Menescal –e segundo consta também namorou Carlos Lyra, começa namorar Ronaldo Bôscoli, ela tinha quinze anos; ele vinte oito, uma vida noturna, era amigo de Tom e Vinícius , mas partilhava da mesma timidez que Nara.

 Destes encontros no apartamento de Nara nasceu a parceria Bôscoli / Lyra, e com ela as primeiras músicas: “Lobo  bobo”, que conta como Ronaldo foi preso pelo amor de Nara. E também  “Barquinho de Papel” –composição apenas de Lyra.

 O fato a seguir é uma das muitas lendas que cercam João Gilberto, e esta está ligada a inserção do trio jovem (Menescal / Lyra / Bôscoli) à Bossa Nova. Menescal estava em casa comemorando as bodas de pratas de seus pais, quando alguém bateu á porta. O homem perguntou se ele tinha um violão e se podiam tocar alguma coisa, o homem era João Gilberto. Menescal já ouvira falar de João Gilberto e o convidou a entrar e foram para o quarto tocar violão, lá o pai da Bossa Nova mostrou a batida que acabara de criar, e cantou baixinho, num ritmo que Roberto Menescal nunca tinha visto, era como se a voz de João fosse apenas mais um instrumento tal era  a afinação.

O Barquinho

O Barquinho

 A Turma, como eles foram intitulados, tinha, ainda – além de Nara, Bôscoli, Menescal e Lyra, as presenças Chico Feitosa, parceiro de Bôscoli, Bebeto (famoso instrumentista da época) e Dory Caymmi.

 

 Abaixo, um momento pós-época áurea da Bossa Nova, mas um momento ímpar da carreira de Nara Leão no Festival de Música de 1966. Em dueto com Chico Buarque ela interpreta A Banda.

 

Denis Silva

 

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A música Chega de Saudade, lançada num LP (bisavó do mp3), pela cantora Elizete Cardoso, em abril de 1958, é considerada por muitos o marco do nascimento da Bossa Nova. Contudo, pode-se dizer que o embrião, para o rebento, foi gerado nove anos antes, mais precisamente em fevereiro de 1949, na rua Doutor Moura Brito número 74, Rio de Janeiro, com a criação do Sinatra-Farney Fan Club.O local abrigava moças e rapazes que as vésperas do carnaval não estavam interessados em cuícas e marchinhas. Ali nascia o fã clube dos cantores Frank Sinatra e Dick Farney, o primeiro americano e o segundo, apesar do nome, brasileiro, que há alguns anos vivia fora do país.

 Este fã clube pode ser considerado o embrião, pois foi nele que  ocorreu a  primeira tentativa da juventude carioca em fazer e discutir música, além disso, por lá circularam nomes que foram importantíssimos para a Bossa Nova, e pessoas ligadas à arte de um modo geral. Passaram para beber e falar de música, no considerado berço da Bossa Nova: Tom Jobim, João Donato, Vinicius de Moraes, Jô Soares e Carlos Manga –cineasta e diretor de tv.

O nome Bossa Nova, segundo a lenda, teria sido dado por uma secretária, as vésperas de um show em uma faculdade carioca. Muito se especula, mas pouco se sabe de verdade sobre o episódio que deu nome ao movimento que tinha entre os tais jovens modernos: Ronaldo Boscoli, Carlos Lyra e Roberto Menescal, entre outros.

O intuito destes jovens músicos e instrumentistas era criar um estilo musical que acompanhasse o espírito de mudança que estava no ar na política com JK, na arquitetura de Oscar Niemeyer, por exemplo. As músicas da Radio Nacional, bem como o exagero, tanto estético como musical dos cantores de “vozeirão”, entre eles Cauby Peixoto, não dizia nada a estes jovens.

A modernidade batia à porta; cantores e instrumentistas que representavam este momento eram cultuados, por essa juventude classe média carioca. A idéia era fazer com que o samba tivesse um rosto moderno e despojado.  E para representar os novos tempos o cool jazz – estilo marcado por figuras como o trompetista Miles Davis (1926-1991) caiu como uma luva. Outro estilo, de semelhante importância, foi o be-bop –uma concepção jazzística mais recente.

Com a mistura de samba e jazz, a retirada do exagero e do vozeirão e uma juventude que determinada a ter uma nova identidade cultural, nascia a Bossa Nova, o maior movimento cultural que este país viu. Ruy Castro, no livro Chega de Saudade (Companhia das Letras, 464 pg), diz que a febre era tanta que as empresas começaram a usar o nome Bossa Nova em seus produtos desde marcas de geladeiras até empreendimentos imobiliários. Assim, através do Jazz, se deu a mistura inicial para  o boom da Bossa Nova.

 

Abaixo um vídeo da música Chega de Saudade. Cantada por João Gilberto e sua filha Bebel Gilberto, ainda adolescente; uma preciosidade. Depois vote em nossa enquete.

 

 Denis Silva

Fonte: CASTRO, Ruy. Chega de Saudade – A Histórias e as histórias da Bossa Nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

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