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Archive for the ‘Machado de Assis’ Category

 Por: Denis J. Xavier

 

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu alguém dizer: Sim eu assisti, mas prefiro o livro!. Pois bem, não é de hoje que a sétima arte utiliza textos literários transformando-os em roteiros e criando assim uma discussão eterna sobre o que é melhor: Filme ou Livro?. As adaptações de obras literárias para o cinema começaram tão logo os irmãos Auguste e Louis Lumiére fizeram a primeira projeção da história, e continuarão por muito tempo, pois esta é uma fonte inesgotável de histórias.

E mesmo com todos os prêmios dedicados aos roteiristas, são famosas as críticas de muitos autores à transformação de seus textos em filmes. Hemingway, por exemplo, reclamou de O velho e o mar. Mas há autores que ficam felizes com os trabalhos feitos a partir de suas obras. Um deles foi José Saramago, que teceu elogios à adaptação de Don McKellar, para seu livro Ensaio sobre a cegueira, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, em 2008.

Para mim esta disputa não se faz necessária, e alguns roteiros adaptados corroboram minha opinião. Um deles é Dom Quixote. Orson Welles fez um filme belíssimo. Nem melhor, nem pior que a leitura do livro de Cervantes; é, sim, uma experiência diferente. Outro caso de ótima adaptação é o do filme Mutum, da cineasta Sandra Kogut, adaptado da obra Campo Geral de Guimarães Rosa. Um dos mais belos filmes brasileiros dos últimos dez anos, que provoca sensações outras em comparação à leitura da obra.

Ao final deste texto há um filme datado de 1903. Uma adaptação de As Aventuras de Alice no país das Maravilhas. Os quase 9 minutos mais parecem um filme de terror tosco de nossos dias. Chega a ser bizarro, mas o intuito é mostrar como a adaptação deste texto foi feita há pouco mais de 100 anos. Antes disso, vejamos a diferença entre um trecho de uma obra literária e seu correspondente em roteiro:

 

Livro e filme: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

Trecho do livro: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto que o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método…”

 

Trecho do roteiro¹:

Dia chuvoso. Brás Cubas dentro de um caixão. Fecham o caixão e começa a sair o féretro com umas 10 pessoas acompanhando, guarda-chuvas abertos. Vemos o rosto de Brás dentro do caixão (câmera dentro do caixão).

FANTASMA FALA

(Off) Algum tempo pensei se a história deveria começar pelo começo ou pelo fim, isto é, se eu contaria antes o meu nascimento ou a minha morte.

O caixão percorre o cemitério e chega a uma cova aberta. VIRGÍLIA em especial destaque durante o percurso.

 

Na comparação destes dois trechos há muitas diferenças. Mas, para você que leu o livro de Machado de Assis, a quantidade de pessoas na cena do enterro não te chama a atenção? E o destaque a Virgília durante o enterro? Enquanto, na obra, Machado pede paciência ao leitor para poder manter em segredo por algum tempo a terceira senhora, no filme ela aparece logo no começo do enredo. Ainda que, no filme, seja revelada pouco depois, sua identidade acaba aparecendo antes do momento em que isso acontece no livro.

Apesar de tudo o que se diga sobre adaptações, quem deixa a paixão pela obra literária de lado normalmente consegue ter prazer com as duas artes. Compreende que são formatos diferentes e que aquilo que cabe nas páginas de seu livro favorito muitas vezes não cabe em 120 minutos de um filme. Por isso, deixe fluir. Boa leitura e bom filme a todos.

 

Fontes:

(¹) Roteiro baseado no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Alice no País das Maravilhas (1903).

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Genial no trato com as palavras - Machado de Assis

Genial no trato com as palavras - Machado de Assis

Havia prometido postar um capítulo do trabalho que eu e Lucas havíamos confeccionado em 2008. O título de nosso trabalho foi: “AS FAMÍLIAS SANTIAGO E PÁDUA:ENTRE PODERES, BARGANHAS E VAIDADES”.

Nesta nossa pesquisa sobre Dom Casmurro de Machado de Assis, buscamos analisar o lado sócio-político econômico das famílias Santiago e Pádua. Analisamos também a influência da transição histórica no contexto das famílias e das personagens.

Usamos em nosso texto das palavras de um dos estudiosos da obra machadiana, Roberto Schwarz, que muito nos ajudou a entender o lado político-social da obra.

E eis um de nossos capítulos. Lembramos que aqui está nosso parecer sobre o livro, pois sabe-se que esta obra é de assuntos inesgotáveis e de intertextualidades infinitas.


O DEVEDOR E O SANTO CREDOR

A religião tinha enorme importância no núcleo das famílias da época. No entanto é importante apontar que, pertencer à igreja católica, era um grande sinal de prestígio perante a sociedade. É o que constata a fala de José Dias: “…E depois a igreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre Feijó governou o império…” (MACHADO DE ASSIS, 2001, p. 18). Aqui, percebe-se a influência exercida pela Igreja, inclusive no próprio momento político brasileiro. A fala a seguir, pertencente a José Dias, só vem a confirmar a influência política da Igreja e o orgulho de se pertencer a ela: “…o que eu quero dizer é que o clero ainda tem grande papel no Brasil…” (MACHADO DE ASSIS, 2001, p. 18).

A promessa para Deus é uma relação deveras presente em Dom Casmurro. A primeira promessa de que temos conhecimento, se dá nos primeiros capítulos, é feita por Dona Glória, que pretende tornar o filho padre. Contudo, esta promessa titubeia muitas vezes, pois Dona Glória ainda reluta em deixar seu filho partir. A mãe de Bento promete a Deus que o enviará caso este vivesse, mas busca negociar com Deus as condições para que esta promessa se molde de maneira que ela não macule a fé que possui e possa ter o filho para si, numa atitude de possessividade e negociação, e não de doação completa e incondicional, como seria de se esperar de um cristão.

Bentinho age de forma semelhante, a diferença é que suas promessas feitas a Deus são sempre acumuladas, mas nunca cumpridas.  No caso dele, há um intento de sempre negociar e de presumir que será perdoado. Quando em situação de aperto, recorre ao divino:

– Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário.

A soma era enorme. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. (…) Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro…

(MACHADO DE ASSIS, 2001, p.40)

Ainda:

… fazê-lo [a Deus] renunciar ao pagamento da minha promessa. Jeová, posto que divino, ou por isso mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não faz moratórias, perdoa as dívidas integralmente, uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas. (grifos do autor)

(MACHADO DE ASSIS, 2001, p.103)

Sempre que faz referências a Deus, direta ou indiretamente, Bento o trata como um banqueiro, como advogado, como tabelião, todas estas profissões liberais – já há indícios de um frio Casmurro inculcado no jovem, como a “fruta dentro da casca”; as conversas são transações financeiras e a quantidade de rezas são valores monetários que podem vir a ser cambiados, acumulados e saldados pela misericórdia divina, estabelecendo aí uma relação capitalista com Deus.

Em uma leitura ampla, fica claro que Bento, assim como os demais são produtos de um ambiente vaidoso e hipócrita, onde as aparências dão as cartas do jogo. A primeira esfera de educação nesses moldes é a da família, conforme o exemplo da mãe, e, lato sensu, a da sociedade, que vivencia esse jogo, onde há “…a religião frouxa, pouco interiorizada, dando cobertura a toda a sorte de interesses menos católicos etc.” (SCHWARZ, 1997, p.28).

CAROLINA CECATTO

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A Educação em Dom Casmurro.

 A partir de hoje, faremos uma série de post’s  sobre os livros da FUVEST 2010. O intuito desta série e colaborar, ainda que minimamente, com esclarecimentos sobre o livro, talvez, sobre uma ótica diferente das encontradas na Internet. Em suma, não se pretende aqui fazer um mero resumo das obras escolhidas pelo maior vestibular do país. Este post, em específico, são as minhas considerações a respeito do trabalho acadêmico feito em 2008 pelos  graduandos de Letras do CUFSA (Gerda/Raul/Paula/Denis) sobre a obra Dom Casmurro de Machado de Assis, inserida dentro do realismo brasileiro, pela a ótica da educação de Bento Santiago.

Os alunos escolheram trabalhar com a ideia de uma tríade educacional: família, religião e os estudos –incluído, neste último, a leitura; como veremos a seguir. Além disso, trabalharam também considerando que a personagem principal teve na verdade três personalidades distintas ao longo do enredo, sendo: Bentinho, Bento Santiago e Dom Casmurro. A infância e adolescência na primeira fase como Bentinho; a vida adulta, em sua fase de matrimônio com Capitu, como Bento Santiago; a velhice solitária do terceiro momento como Dom Casmurro, o narrador.

A primeira grande questão em Dom Casmurro é porque um velho solitário resolve escrever a história de sua vida?  Devemos questionar os motivos que o levaram a tal atitude, principalmente por conta da situação, pois não há, ninguém para contestar as informações dadas, já que todos já foram para  a outra Europa, como disse José Dias ao se referir aos mortos.

 Bentinho cresceu num lar religioso, mas de uma religião não tão correta e carola como o narrador Casmurro tenta nos passar. Talvez a influência de sua mãe ao não cumprir com a promessa feita, seja a responsável pelas incontáveis promessas não cumpridas de Bentinho, além das tentativas de negociar com Deus.

 Bento “herda” não só a profissão, como a comilança do tio Cosme, “Vi que, em meio da crise, eu conservava um canto para as cocadas”.  Da Tia Justina ele absorveu o jeito de manipular as histórias, “…dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo e a Paulo o mal que pensava de Pedro…”. Afinal foi isso que ele fez com Capitu ao nos lançar o possível adultério. Da mãe herdou a insegurança; enquanto ela precisava do irmão, do padre, da prima para confirmar suas decisões, Bentinho precisa de José Dias. Este inclusive é aquele que tem maior influência sobre a educação de Bento, segundo Helen Caldwell em seu livro  O Otelo brasileiro de Machado de Assis, é depois dos comentários de José Dias sobre os olhos de Capitu que Bentinho manifesta suas primeiras intenções amorosas (ou seriam tensões sexuais?).

 Por fim os estudos e leituras; há no livro 128 citações de personalidades, frases célebres e localidades. Isso mostra que ao longo dos anos Bentinho/Bento/Casmurro absorveram ensinamentos que marcaram suas atitudes. Logo no início temos uma citação de Fausto que é talvez uma das chaves para desvendar o mistério da pergunta feita no início deste post. Há, no entanto, três outras passagens que julgo de grande importância, são elas:

 1-     Lúcio Domício Nero Cláudio, Imperador que  colocou fogo em Roma e enquanto as labaredas estalavam, ele tocava harpa. Vejo em Dom Casmurro a influência, quando é informado sobre a morte do filho por lepra: “Apesar de tudo, jantei bem e fui ao teatro”.

 2-     Pôncio Pilatos, Governador da Judéia, lembrado por ter entregue Jesus, mesmo acreditando que ele não era culpado, á morte: “…tomando a água, lavou as mãos diante da multidão e disse: estou inocente do sangue deste inocente…”(MATEUS 27: 25). A influência em Dom Casmurro neste caso se dá também em relação ao filho, pois no final o rapaz, acaba falecendo devido a uma febre tifóide e o “filho do homem” acabou por ser enterrado nas imediações de Jerusalém. Há aqui um explícito caso de intertextualidade com as escrituras: “Não houve lepra, mas há febres por essas terras…Onze meses depois, Ezequiel morreu de uma febre tifóide, e foi enterrado nas imediações de Jerusalém” Ele entregou ao filho para morte, como Pilatos entregou Jesus.

 3-     Há também outra menção, de Miguel Montaigne, que viveu no século XVI, e foi um dos mais importantes escritores franceses de seu tempo. A citação: “Ce ne sont pas mes gestes que j’escris, c’est moi, c’est mon essence”(ASSIS, 1967: 122). Cuja tradução seria: “Não são minhas ações que descrevo, é o meu eu, a minha essência”, ou seja, aquilo que é descrito não é a verdade de suas ações, é a descrição da essência de Bentinho que está nas palavras de Dom Casmurro.

 O assunto é longo, seriam necessárias as mesmas 30 páginas (talvez mais) que o grupo de alunos utilizou, contudo há acima uma breve explanação das influências na educação de Bento. Além do mais, há inúmeras possibilidades de se analisar esta obra, essa é apenas uma pequena parte de uma destas possibilidades, portanto deixo algumas dicas de livros para os interessados em se aprofundar no assunto.

 (Denis Silva)

AGUIAR, Luiz Antonio. Almanaque Machado de Assis: a vida, obra, curiosidades e bruxarias literárias. Rio de Janeiro: Record, 2008.

BOSI, Alfredo. O Enigma do Olhar.São Paulo: Ática, 2003.

CALDWELL, Helen. O Otelo Brasileiro de Machado de Assis. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002.

CANDIDO, Antonio.  Vários Escritos. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul | São Paulo: Duas Cidades, 2004.

SCHWARZ, Roberto. Ao Vencedor as Batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1988.

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