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por: Carolina Cecatto

 

Quem aqui nunca leu um gibi da Turma da Mônica pra se entreter? E quem aqui nunca saiu com um riso após ler essas HQ’s?

A Turma da Mônica foi criada por Mauricio de Sousa em 1959. De lá pra cá os personagens do cartunista sofreram mudanças em seus traços, mas seus trejeitos sempre foram constantes.

Digo isso, porque li há uns meses, um artigo do Dioclécio Luz, do site Observatório de Imprensa, que me fez refletir sobre o ponto de vista dele e, consequentemente, discordar. Se vocês quiserem/tiverem um tempo podem ler aqui o tal artigo.

Ao discordar, num primeiro instante, perguntei-me inclusive o que me fazia ficar ali e perder meus bons minutos lendo um artigo que chafurdava na lama a principal HQ da minha infância. E assim foi: aquele artigo serviu-me de apoio para argumentar pontos favoráveis às HQ’s de Mauricio de Sousa. Vou falar por que é legal ler A Turma da Mônica e, para tal intento, vou contrapor o que li no artigo do Dioclécio.

A Mônica, a dona da rua, foi mencionada pelo já citado resenhista como sendo de comportamento extremamente violento, capaz de incentivar de maneira péssima as crianças que leem as HQ’s. Se por um lado temos esta faceta, é necessário observar até que ponto se dá esta influência: exemplos de casa vistos pela criança ou mesmo na escola podem ser determinantes. Tirando este fator, deve-se pensar um pouco além daquilo que se vê: o fato de uma criança acompanhar, por mais incrível que possa parecer, algumas cenas de violência num gibi – levando-se em consideração as adequações de faixa etária – serve de canal no qual a criança encontra um jeito de externar toda a sua raiva e repressão, sem precisar, para isso, descontar fisicamente num colega de escola. O gibi serve pra canalizar, focar essa energia que a criança carrega. Ao ler, parte dessa energia se esvai na leitura. Lindo, não? (Devo estas informações ao professor Reynaldo Damázio, num curso de HQ’s que fiz com ele).

Sobre a Magali, foi dito sobre o estigma de comilona. Tudo bem, isso é fato. Agora, como eu já disse, ficar no superficial não satisfaz. Bem, a Magali não é só uma garota que come e não engorda. Não é uma personagem que instiga a obesidade infantil. Ela incentiva a criança a comer. Prova disso é que a personagem ainda faz campanha junto com a mãe do Dudu para que ele se alimente. Quer uma personagem mais legal para os pais usarem de exemplo na hora de alimentar uma criança? A gente bem sabe como é difícil entreter algumas crianças na arte da comida.

Outro personagem que foi citado, o Chico Bento, merece algumas observações. Chico foi colocado como sendo uma personagem vista por um aburguesado, a visão que este tem do campesinato. À parte dos termos bem ligados ao socialismo, vamos entrar na questão linguística e, no bom clichezão, tentar ampliar os horizontes. Chico Bento é uma personagem que mostra esse meio rural, de forma caricatural sim, mas entendo que Mauricio, ao criá-lo, quis mais aproximar aquela realidade do que satirizar ou simplesmente rotular o meio rural. E, como disse antes, a questão linguística, no caso, a variante linguística que nos é apresentada vem também como forma de aproximar, dizer que mesmo nos muitos dialetos, podemos nos comunicar, salvo algumas expressões locais, é claro. É uma forma de tirar certos preconceitos linguísticos e também de conhecer um pouco mais dos vários tipos de falantes nesse nosso Brasil.

O gibi de Mauricio calha muito bem nesse sentido, inclusive recomendo altamente ser utlizado em sala de aula para atividades, se possível. Quando a gente analisa esta nona arte, precisamos expandir o pensamento. Se você presencia uma criança que curte leituras como essa, pode ter certeza que não é só porque a Mônica é violenta, ou porque a Magali é comilona e o Chico Bento é só um ícone do olhar burguês sobre o homem do campo. Há muito mais camadas por se descobrir. Algumas citei. Outras, cada  leitor poderá descobrir por si.

Antes que me esqueça: outro motivo que me fez escrever aqui foi porque, depois de muito tempo, voltei a ler os gibis da Turma da Mônica. Parte se deve à tumblr do Porra Mauricio. O site sacaneia as tirinhas do gibi, mas é engraçado – e o melhor: Mauricio de Sousa curtiu. Depois desse site muita gente, fiquei sabendo, voltou a comprar seus gibis.

Pra fechar parcialmente a questão, tenho que fazer minhas vezes de fã, de leitora que adora HQ’s da Turma da Mônica e que entende que a gente quando se afinca numa leitura é porque ali tem muito de nós, simples assim. O legal da Arte é se fazer caleidoscópica. É por essas e outras que vemos muitas interpretações, algumas às vezes muito taxativas (não trabalha com possibilidades), o que enfraquece a análise. Maravilha também é perceber outra coisa que a Arte deixa no rastro: repercussão e olhares distintos.

Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves


A civilização egípcia  que se manteve ativa por mais de três mil anos. Foi responsável pela criação de um império religioso-científico eminente. Criadores de alguns princípios da matemática, da astronomia, da medicina e da agrimensura, os egípcios também foram desenvolvedores de um código linguístico incrivelmente complexo e  rico, os hieróglifos, a que demos uma rápida atenção no último post.

Permeada em uma atmosfera de fascínio e de mistério, e amparada sobre intensa efervescência cultural, principalmente promovida pelas lendas, floresceu a mitologia egípcia.

A mitologia dos egípcios agasalha as mais diversas divindades, as quais comumente podemos relacionar, em grau de similaridade, com outros panteões. O grego, por exemplo, apresenta variadas expressões mitológicas semelhantes às do Egito.  Preferimos, contudo, relembrar apenas as deidades consideradas “principais”, as mais significativas. Além disso, como dissemos, existem inúmeros deuses que foram criados e cultuados pelo povo. Muitas destas entidades cósmicas, porém, apresentam forças, virtudes ou falhas, arquétipos, enfim, semelhantes.

Há especulações que mencionam os atlantes como os criadores da mitologia do Egito (sabendo que a sua grande ilha iria sucumbir, os sábios deste povo, conhecido pelo mistério de seu desaparecimento e de sua possível super-tecnologia, enviaram a outra região entidades especiais, que, por sua vez, maravilhadas com o povo que vivia ao entorno do Nilo, decidiram lá se estabecer e ensinar a agricultura).

Outros, pensam se tratar os deuses do Egito Antigo, dos faraós da era pré-dinástica. Eles teriam governado com justiça, estabelecendo os limites do país e ensinando a civilização e a agricultura ao povo. Dessa crença, advém a ideia de  que é comum e correta a prática dos casamentos entre e os faraós e as rainhas ocorrerem muitas vezes entre irmãos. O  laço consanguíneo próximo, acreditava-se, purificava mais a união nobre e, os deuses também se casam entre irmãos. O casamento, portanto, elevava a condição humana.

Deuses egípcios (para algumas linhas de pesquisa os Neteru*)

Os deuses do princípio criador

Nun (as águas primordiais, a partir das quais todo o mundo foi engendrado; é a divindade ancestral) e Aton (o rei de todos os deuses, aquele que criou o universo. É o mesmo deus que gerou Shu, o ar, e Tefnut, a umidade).


Eneada – os nove principais

Amon – deus sol: o deus-carneiro de Tebas, rei dos deuses e patrono dos faraós. É o senhor dos templos de Luxor e Karnac. Tem por esposa Mut e por filho Khonsu. Seu culto data de 2000 a.C. Sob o nome de Amon-Rá é criador da ordem divina. Ele é o sol que dá vida ao país. Amon tornou-se um título monárquico, mesmo título que Ptah e .

Shu (deus do ar e da luz) e Tefnut (deusa da umidade e da graça): este casal constitui a sístole e a diástole universais e a atmosfera. Shu é a personificação da atmosfera diurna que sustenta o céu. Tem a tarefa de trazer o deus Sol, seu pai, bem como o faraó à vida ao alvorecer. É a essência da condição seca, do gênero masculino, calor, luz e perfeição. É representado como o homem que segura Nut, a deusa do céu, para separá-la de Geb, o deus da Terra (seus filhos). Já Tefnut espera o sol libertar-se do oriente para recebê-lo. A deusa é irmã e mulher de Shu. É o símbolo das dádivas e da generosidade, também conhecida por afastar a fome. Este casal representa o “ritmo do universo”.

Get (a Terra) e Nut (o firmamento): Get é o suporte físico do mundo material, sempre deitado sob corpo da esposa. Ele é o responsável pela fertilidade e pelo sucesso nas colheitas, estimulando o mundo material dos indivíduos e lhes promovendo enterro no solo após a morte. Este deus umedece o corpo humano na terra e o sela para a eternidade. Nas pinturas é sempre representado com um ganso acima de sua fronte. Nut é deusa do céu que acolhe os mortos no seu reino. Com o seu corpo esbelto, ornamentado por estrelas, encarna a curvatura da abóbada celeste que se estende sobre o planeta. É como um carinhoso abraço da deusa do céu sobre Geb, o deus da Terra. Nut e Geb são pais de Osíris, Ísis, Seth, Néftis e Hathor. Osíris e Ísis já se amavam no ventre da mãe e a perversidade de Seth evidenciou-se, logo ao nascer,  rasgando o ventre materno. Note-se, agora, uma disparidade com o mito de criação grego: Gaia (Géia) é a personificação feminina do planeta, mantendo um relacionamento de passividade com Urano, o céu (masculino).

Osíris (o deus do julgamento, dos mortos, pai e senhor de todo o Egito): sua gênese consta nos relatos da criação do mundo, sua geração é a ultima a acontecer e não representa mais os elementos materiais (como o céu, a terra, etc.). Há um mito que narra a ressurreição da vida relacionada com a cheia do Nilo, que mantém relacionamento com este deus. Osíris é morto, destruído e ressuscitado, relembrando, assim, a morte e a vida da vegetação e de todos os seres. Desta maneira, ele é o deus dos mortos e da ressurreição, rei e juiz supremo do mundo dos mortos. Acredita-se que ele tenha sido o primeiro Faraó e que ensinou aos homens  a civilização e a agricultura ao entorno do rio sagrado. Pensa-se ainda que seu mito teria similaridade com a história de Cristo.

Ísis (deusa mãe, protetora do Egito): resultado da união do material e do espiritual, é a mais popular de todas as deusas egípcias, considerada a deusa da família, o modelo de esposa e mãe, invencível e protetora. Usa os poderes da magia para ajudar os necessitados. Ela criou o rio Nilo com as suas lágrimas. Reza a lenda que, após a morte de seu amado esposo, ela transforma-se em um milhafre para chorá-lo, reúne os seus despojos, empenhando em trazê-lo de volta à vida. De sua pura união com ele, concebe um filho, Hórus.  Perfeita esposa e mãe ela é um dos pilares da tessitura sócio-religiosa egípcia. Sua coroa memora um assento com espaldar (trono) que é o hieróglifo correspondente a seu nome nome. É importante dizer que o conceito da “imaculada concepção”  e de beleza exemplar advém de seu mito. Além de haver possível conexão entre o seu mito e o de Deméter (divindade grega).

Néftis (mãe terra e senhora dos mundos infernais): sempre acompanha Ísis no processo post mortem. Mesmo sendo esposa de Seth, ela permanece solidária à Ísis, ajudando-a a reunir os membros espalhados do esposo defunto da irmã, por quem era apaixonada, e também toma a forma de um milhafre para velá-lo. Como Ísis, ela protege os mortos e os sarcófagos. É ainda na acompanha a Mãe do Egito e o sol nascente,  defendendo-o contra a terrível deusa serpente Apófis.

Seth (deus da maldade e da guerra): foi considerado Senhor do Alto Egito durante o domínio dos Hicsos. Embora inicialmente fosse um deus de índole benfazeja, com o passar do tempo tornou-se a personificação do mal e da inveja. Era representado por um homem com a cabeça de Tífon, um animal imaginário formado por partes de diferentes seres, com a cabeça de um bode, orelhas grandes, como um burro. Associavam-no ao deserto aos trovões e às tempestades. A pugna entre Osíris e Seth é  a representação da terra fértil contra a aridez do deserto.  Tinha apreço por alguns crocodilos do Nilo que personificavam os defeitos humanos, assim como os nossos medos. Em suma, Seth é o par antitético de seu irmão Osíris.

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* anjos de deus: as diversas facetas de um mesmo deus, criador de tudo.

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Em um próximo post, falaremos sobre as divindades superiores do Egito.

Até lá…

Em 2005 a Editora Globo editou o primeiro volume das Obras Reunidas do poeta Roberto Piva.

Piva é o flaneur paulistano do tempo em que a cidade revelava uma geração fértil de poetas, retratados no documentário Uma outra cidade (Ugo Giorgetti, 2000). Estreou na literatura em 1961 com sua “Ode a Fernando Pessoa”, dois anos mais tarde lançou seu primeiro livro: Paranóia. Sua Obra Reunida está dividida em três volumes, cujo segundo – Mala na mão & asas pretas – traz os livros da sua maturidade poética, escritos entre 1973 e 1983, e os manifestos escritos em 1984, sob o título de “O Século XXI me dará razão”. Os livros reunidos neste volume, seguidos dos epítetos (entre parênteses) que lhe deu o amigo e crítico de sua obra Claudio Willer, são:

Piazzas (a fruição e a contemplação)

Abra os olhos & diga Ah! (e o entusiasmo)

Coxas (e a orgia ritual)

20 poemas com brócoli (e as analogias)

Quizumba (e a possessão)

Entre as principais características desta fase intermediária da sua produção estão o sexo e a liberdade, a liberdade trazida pelo sexo (aqui visto como arma e bandeira política), a orgia como ritual, o círculo de amigos como tribo, o “desregramento de todos os sentidos” (Rimbaud), as paroles en liberté, o tesão como “trombeta belicosa”, o amor louco adolescente, e todas as suas influências estéticas, sempre ecléticas e universais.

Chama a atenção a quantidade de menções e citações, influências expressas que mostram as leituras de formação do poeta, que vão de Dante a Pasolini, de Whitman a Garcia Lorca, de Álvares de Azevedo a Murilo Mendes, passando por Jorge de Lima e João Guimarães Rosa, e de Chet Baker à bossa nova no campo musical. Encontramos muito este recurso, o da citação das referências literárias como matéria para a escritura, na prosa contemporânea; mas é na poesia de Piva que esta prática ganha poder. A poesia como invocação, chamando para o terreiro estas vozes ancestrais.

O mais recorrente é vermos sobre o autor a alcunha do “poeta maldito” e o enquadramento da sua poética no rol enxuto de poetas surrealistas brasileiros. Notamos também nos livros reunidos em Mala na mão & asas pretas um poeta diretamente influenciado pela Geração Beat norte-americana, principalmente quanto à mistura da poesia à vida experimental, ao jazz e ao “Sonho & a Paixão”. Na verdade, enquadrar e qualificar Piva é um esforço vão e raso. Suas dimensões de poeta atravessam gêneros e estilos, sua poesia é o resultado de leituras libertárias, jamais dogmáticas.

A edição das Obras Reunidas traz ricos ensaios de analistas da obra do poeta. Figuram nos livros as análises do Prof. Alcir Pécora (organizador da obra e professor da UNICAMP), Claudio Willer (já citado, amigo e companheiro de geração e também poeta), Eliane Robert Moraes (professora de Literatura da FFLCH-USP), além da reunião de todos os manifestos publicados pelo autor e uma vasta bibliografia de seus textos editados, traduzidos e sua fortuna crítica ao final dos livros.

O poeta, hoje com 72 anos de idade, passou por sérios problemas de saúde desde o começo deste ano. Há tempos passa por sérias dificuldades financeiras, dependendo da ajuda de amigos e de eventos que arrecadam fundos para seus tratamentos médicos. Poesia não dá dinheiro e costuma dar menos reconhecimento do que o merecido. Esperamos que, com as reedições de suas obras, as vendas e o reconhecimento aumentem para que esta grande voz da poesia seja mais e mais lida e vivida pelos seus leitores.

A Editora disponibiliza trechos deste livro no Google livros, aqui.

Lucas de Sena Lima

Entrevista realizada por email, em setembro de 2008, que é publicada pela primeira vez neste momento. Nesta entrevista, o professor e lingüísta fala sobre seus livros, sobre Saramago e a Revista Veja, sobre o Acordo Ortográfico, e principalmente sobre seu livro Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz.

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Gaia — Marcos, em leitura do seu livro Preconceito Lingüístico ficou evidente a questão da linguagem com a qual você expõe as situações-problema, para alguns agressiva e para outros apaixonada, politizada. Preconceito Lingüístico é um livro científico ou um manifesto?

Marcos – O livro Preconceito lingüístico é um manifesto, sim, e isso é declarado já na apresentação da obra, em que tomo uma posição política bem definida, quando, nas primeiras linhas, cito Aristóteles e digo que é impossível tratar da língua sem fazer política ao mesmo tempo. Evidentemente, as idéias que sustentam esse manifesto têm fundamento científico, provêm das muitas pesquisas e descobertas feitas pelas ciências da linguagem no último século.

Gaia — O preconceito lingüístico, como abordado em sua obra, é resultado de um preconceito maior, de ordem social. A mudança de postura no ensino da língua pode colaborar para uma transformação social profunda?

Marcos – Acredito que sim. A pedagogia tradicional, no ensino de língua, foi a grande propagadora e perpetuadora do preconceito lingüístico, desde os primórdios da civilização ocidental. As noções de “certo” e “errado” tão impregnadas na nossa cultura foram incutidas, basicamente, por essa pedagogia que tratava a língua falada como um amontoado de erros, como uma realização imperfeita de uma “língua” supracelestial, uma espécie de entidade mística somente alcançável por meio da ascese e da iluminação espiritual. As novas práticas de ensino, voltadas para o reconhecimento do saber prévio dos alunos e para a valorização dos saberes locais, decerto podem vir a contribuir para a eliminação ou ao menos a diminuição do peso do preconceito lingüístico em nossa sociedade. De todo modo, o preconceito lingüístico é somente uma faceta de um preconceito social mais amplo e enraizado. Somente a plena democratização das relações sociais vai permitir, não a extinção dos preconceitos, porque eles fazem parte da própria natureza humana, mas vai permitir o combate sistemático a toda forma de discriminação.

Gaia — A questão do preconceito lingüístico se vê evidenciada também em outros países subdesenvolvidos de língua portuguesa?

Marcos – O preconceito lingüístico existe em todas as culturas, sejam elas desenvolvidas ou subdesenvolvidas. Muitos lingüistas estrangeiros, sobretudo europeus, quando lêem o meu livrinho dizem que a situação que descrevo para o Brasil também se verifica em seus países. Evidentemente, o peso da discriminação varia de país para país, mas ela sempre existe. A codificação de uma língua escrita, padronizada, e a imposição desse padrão lingüístico sempre cria, inevitavelmente, o preconceito contra todas as formas de falar que não correspondam a esse padrão.

Gaia — O ensino de gramática ainda é predominante nas salas de aula e ainda nos vemos sob a ditadura da análise sintática. A análise sintática é um bom método para aprender a língua? Quais outros métodos podem ser utilizados para ensinar língua para os jovens de ensino fundamental e médio?

Marcos – Já está provado e comprovado que não tem cabimento algum “ensinar gramática” nos primeiros anos de escolarização. A grande maioria dos lingüistas e educadores já abraçou a tese de que a sistematização gramatical, a metalinguagem, a análise lingüística etc. devem ser deixadas para o ensino médio. No ensino fundamental, a grande tarefa nossa é letrar os alunos, levá-los a se inserir plenamente na sociedade letrada. E para isso é preciso ler e escrever e não saber a suposta diferença entre “adjunto adnominal” e “complemento nominal”. Esse conhecimento não serve rigorosamente para nada.

Gaia — Saramago, no documentário “Língua — Vidas em Português” diz que a língua se tornou tão complexa que cada vez utilizamos menos palavras para nos expressar, e estamos passando por um processo de “involução” da língua onde logo estaremos emitindo sons guturais para nos comunicar. Na sua opinião, esta situação condiz, ou então te preocupa?

Marcos – Os escritores, em geral, são os piores comentaristas que existem para falar de língua. Essas declarações do Saramago só fazem comprovar isso. Qualquer lingüista sabe que não existe “involução” de língua nenhuma. Não existe língua complexa nem língua simples, todas as línguas são igualmente complexas, só que essa complexidade se manifesta, em cada língua, com maior predominância em determinado nível do sistema lingüístico: umas têm a sintaxe mais complexa, outras têm a morfologia, outras a fonologia, outras o léxico e por aí vai. O chinês mandarim, por exemplo, tem uma sintaxe extremamente simples e quase não tem morfologia; no entanto, sua fonologia é complicadíssima, as palavras têm diferentes tons, quase imperceptíveis para ouvidos ocidentais. Muitas línguas indígenas brasileiras têm uma morfossintaxe extremamente complexa, com uma riqueza de composição nominal, de recursos derivacionais capazes de deixar tonto qualquer falante de português…

Gaia — O próprio Saramago diz que não temos uma língua portuguesa, e sim, línguas em português. Evanildo Bechara diz que os educadores têm que tornar os alunos “poliglotas dentro da própria língua”. Mário de Andrade na voz de Macunaíma já elogiava ironicamente nossa capacidade de escrever em uma língua e falar em outra. Estaria a língua portuguesa já dividida em “romances” assim como o Latim esteve, só esperando por ganhar uma forma escrita definitiva? Como se posiciona o professor na sala de aula, tendo que conviver com um pseudo-bilingüismo, ou o que seja?

Marcos – Eu acredito que o português brasileiro (que já poderia ser chamado simplesmente de brasileiro) já é uma língua distinta do português europeu. Assim como podemos montar árvores genealógicas que partem do latim e se distribuem em ramos pelas diferentes línguas românicas, 500 anos de história colonial já nos permitem criar uma árvore genealógica que, partindo do galego arcaico, século XI-XII, se distribuiria em diferentes ramos que incluiriam o brasileiro e os crioulos de base portuguesa. Somente quando assumirmos que temos uma língua distinta da de Portugal é que poderemos abandonar as gramáticas normativas que tentam fazer uma descrição de uma super-língua que não é língua de ninguém, como a de Celso Cunha & Lindley Cintra, e fazer uma gramática que realmente descreva o brasileiro.

Gaia — Como você vê o novo Acordo Ortográfico assinado recentemente? Em que os professores, estudiosos e usuários da língua ganhamos e perdemos?

Marcos – Sou contra o acordo ortográfico e já sei de antemão que ele não vai entrar em vigor nunca. Aliás, é ridícula essa história: se o acordo é para unificar a ortografia, como é que bastam três países (dos oito) para que ele seja instituído? Isso tudo é maquinação de diplomatas. Educadores e lingüistas sabem que esse acordo não serve para nada, a não ser para jogar fora milhões de livros produzidos em países onde se publica pouco e mal.

Gaia — Sua obra tem muitos títulos voltados para o público infanto-juvenil, como por exemplo O papel roxo da maçã e O espelho dos nomes. Comente um pouco sobre o interesse do escritor em abordar temas voltados à língua para tal público.

Marcos – Em minha produção literária procuro sempre escrever em português brasileiro urbano contemporâneo, porque acho ridículo usar mesóclises e regências verbais quinhentistas quando se escreve hoje para crianças e jovens no Brasil.

Gaia — Há um certo tempo, a revista Veja publicou uma matéria de capa sobre como o português bem falado pode ajudar em uma carreira profissional bem-sucedida. Conte-nos, Marcos, quais os segredos da língua?

Marcos – Não acredito em “segredos da língua”. Se eles existem, estão ao alcance de todo e qualquer falante, e portanto não são segredos.

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Marcos Bagno é lingüista, escritor e tradutor. Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP, atualmente é professor de Lingüística na Universidade de Brasília (UnB). Entre seus principais títulos estão: Dramática da Língua Portuguesa, Português ou Brasileiro? Um convite à pesquisa e A língua de Eulália (ficção), além de dezenas de obras literárias. Traduziu autores como Balzac, Sartre e Oscar Wilde. (mais em www.marcosbagno.com.br).

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Entrevista a Lucas de Sena Lima

O Egito Antigo

Mitologia egípcia – uma introdução

Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves

Este é o primeiro post que versará sobre a cultura egípcia da Antiguidade.

Abu Simbel

A civilização egípcia e sua grandiosidade encantaram os antigos, influenciando, ainda que, às vezes indiretamente, a cultura religiosa e científica dos gregos – berço da civilização ocidental – como alguns gostam de apontar. O fascínio exercido pelo Egito e seus mistérios tem, contudo, atraído muito atenção e consideração mesmo hodiernamente.

A história do Egito remonta a 3000 a. C., com o que os historiadores denominam de “as grandes dinastias”, período imperial em que o poder faraônico preponderava. Menes foi o primeiro faraó, importantíssimo ao império. Fundador da cidade de Menfis, Menes delimitou as fronteiras territoriais do país (que na Antiguidade, estendiam-se do Sudão atual até o Mar Mediterrâneo), bem como construiu templos destinados a Hórus, a Ísis e a Osíris.

Existe uma linha de pesquisa que crê em uma gênese mais antiga da civilização do Egito. Tal raciocínio alega que ela existiria desde o desaparecimento dos atlantes, atribuindo ao fenômeno a data de 12.000 atrás.

A soberania dos faraós se extinguiu em 525 a. C., ano em que o Egito foi incorporado ao Império Persa. A partir deste

Pedra de Roseta - encontrada na cidade de Roseta, no Egito, esta pedra contém a chave para a decifração dos hieróglifos (escritos sagrados). No final do século XIX, o francês Champollion, considerado o pai da Egiptologia, decifrou seu conteúdo a partir da comparação do copta com o demótico e grego antigo (idiomas encontrados na inscrição). A Roseta traz a mensagem de sacerdotes que elogiam a honradez e a probidade de uma faraó. Abaixo da mensagem, há uma instrução: a informação da pedra deve ser disseminada pelo mundo. Daí, advém a tradução em grego e demótico, para a sorte do francês Champollion.

 momento, a nação das pirâmides estava fadada a sofrer inúmeras invasões. Em 332 a. C., Alexandre Magno anexou o país à Grécia. O domínio grego durou cerca de 300 anos e foi responsável por uma intensa troca cultural, como se mencionou anteriormente.

Em 30 a. C, Roma e suas belicosas legiões invadiram o Egito, que permaneceu como província romana até 395 d. C. Mesmo ano em que o país passou ao domínio do Império Bizantino. Em 640 da nossa era, ocorreu a invasão árabe que perdurou até 1517 e redefiniu a religião dos egípcios até os dias atuais: a mensagem maometana tem vez e voz. Já em 1517, o Egito é subjugado ao poderio turco.

Mesmo Napoleão, grande admirador da cultura dos faraós, ocupou durante dois anos o país (após vencer os turcos em 1798). Em 1882, a Inglaterra conquistou o território egípcio, criando o “Protetorado Britânico”. Finalmente em 1953, é fundada a República do Egito.

Situado praticamente dentro do deserto do Saara, o Egito possui até hoje um verdadeiro presente dos deuses que permite à população viver a sua volta, assim como permitiu florescer a rica cultura das antigas dinastias: o rio da Vida, o Nilo (que, curiosamente, corre de Norte a Sul e não de Leste a Oeste, como se observa em outros rios).

Manancial infindável da imaginação, o Egito divide com a humanidade sua cultura intensa e reveladora. Em um futuro post, falaremos um pouco mais sobre o Mitologia dos Egípcios e da sua visão de mundo.

Até lá!

                       Autismo Infantil e Síndrome de Asperger compõem o espectro autístico e se caracterizam pelos impedimentos graves nas áreas de interação social, comunicação verbal e não-verbal e outros interesses. No entanto, é preciso ressaltar algumas diferenças presentes em cada um dos transtornos.

                        Em 1943, Kanner propôs a definição “Distúrbio Autístico do Contato Afetivo” (Autismo Infantil) com as seguintes características: perturbações das relações afetivas com o meio, solidão extrema, inabilidade no ato da comunicação, presença de potencialidades cognitivas, aspecto físico normal, rituais (estereotipias), início precoce e incidência predominante no sexo masculino.

                        Sabe-se que em indivíduos autistas existe uma incapacidade na identificação, compreensão e na atribuição de sentimentos e intenções, o que ocasiona prejuízo nas relações interpessoais.

                        Em 1944, o estudioso Asperger definiu “Psicopatia Autística” (Síndrome de Asperger) como um distúrbio com severos problemas de interação social. Depois foi descrita com um transtorno de prejuízos específicos nas áreas da comunicação, imaginação e socialização. Também depois conhecida como a “síndrome do gênio autista”.

                        Para diferenciar um transtorno do outro foram considerados dois critérios importantes: período de aquisição da fala e a idade de identificação do diagnóstico.

                        A Síndrome de Asperger distingue-se do Autismo Infantil pelo fato de não de não se verificar retardo ou alteração significativa da linguagem, bem como do desenvolvimento cognitivo, embora os indivíduos apresentem dificuldade de reconhecimento de regras convencionais da conversação e uso restrito de sinais não-verbais, como o contato visual, expressão facial e corporal. Vale lembrar que não há uma idade “certa” para a manifestação desta síndrome, diferentemente do Autismo Infantil que é manifestado antes dos 3 anos.

                        É preciso que haja buscas por conceitos e critérios diagnósticos mais precisos, tendo em vista a dificuldade dos estudiosos em classificarem esses transtornos globais do desenvolvimento e, além disso, que intervenções adequadas possam ser identificadas tanto no caso de Autismo Infantil quanto no de Síndrome de Asperger.

http://www.youtube.com/watch?v=rloNvRuzwzE. Vejam esse matéria sobre Síndrome de Asperger publicada no Fantástico (Globo) sobre Glenn Gould, pianista com Síndrome de Asperger e um dos melhores representantes da música de Bach.

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PAULA CRISTINA

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Fonte: Artigo: “Uma breve revisão histórica sobre a construção dos conceitos do Autismo Infantil e da síndrome de Asperger”, por Ana Carina Tamanaha, Jacy Perissinoto, e Brasília Maria Chiari (2008).

Por: Carolina Cecatto

Imagine você chegar em sua casa, após um dia de trabalho fatigante, e se deparar com uma teletela na parede da sala. Teletela? Que raios é isso? É um aparelho parecido com uma Tv, menor até, que dá diretrizes e condiciona a cada pessoa que possui esse aparelho. De onde eu tirei tanta imaginação? Não há imaginação. É a ficção (em partes já real) que se pode conferir lendo 1984 de George Orwell.

Ao entrar em contato com a história escrita por Orwell, não pude deixar de analisar algumas coisas que entram em xeque nessa sociedade controlada pelo Grande Irmão, do qual só temos conhecimento através de pôsteres mostrando a sua face, tranquila e ao mesmo tempo rígida.

O Grande Irmão é o líder do Partido Interno (o Ingsoc, na novilíngua), em palavras antigas, o Socialismo Inglês. Nestes termos, entra uma crítica de Orwell não ao socialismo em si, pois era adepto, mas à perversão dos sistemas, tanto que nem por isso deixamos de ter a menção do sistema capitalista na obra. Este último é citado, mas como algo que foi deixado pra trás, numa história conhecida por poucos, ou melhor, por aqueles que se opuseram ao Ingsoc e conhecem a outra ‘verdade’, por meio do livro de Goldstein (arqui-inimigo do Grande Irmão).

Comentei no parágrafo anterior a respeito de ‘palavras antigas’ e ‘novilíngua’. Esta é outra artimanha do Partido para ter o controle da população. Não bastasse as teletelas, que vigiam as expressões e movimentos de cada cidadão do Partido, temos um novo tipo de idioma em voga. A ‘novilíngua’ foi criada pelo Ingsoc e trabalha com a condensação e/ou remoção de palavras. A ideia era que o indivíduo tivesse um grupo de palavras muito restrito com o qual pudesse se comunicar, comprometendo dessa forma o seu pensamento, que ficaria cada vez mais atrofiado e limitado. E, uma vez que as pessoas não pudessem se referir a algo, isso passaria a não existir. Assim, o Partido possuía mais uma forma de manter o controle da população: restringindo a fala e a escrita (bem diferente de proibir a menção do nome das coisas, diga-se). Eis aqui alguns exemplos de condensação:

Duplipensar: duplicidade de pensamentos, saber que está errado e se convencer que esta certo.
Crimideia: Crime ideológico, pensamentos ilegais.
Impessoa: Uma pessoa que não existe mais, e todas as referências a ela devem ser apagadas dos registros históricos.

Outro detalhe interessante é a preocupação do partido em manter os instintos da população controlados: “Inconsciência é ortodoxia”. “Por que mantê-los controlados?”, você me perguntaria. E eu responderia, tendo a obra como elo, que ter seus instintos incendiados e sem um foco específico, poderia causar tumulto, balbúrdia, efusão de sentimentos e isso geraria insatisfações revertidas em motins e revoluções da população – fato que o Partido evitaria ao extremo. Dessa forma, as pessoas eram proibidas de fazer sexo por prazer ou por vínculos afetivos, aliás, elas não podiam demonstrar seus sentimentos (!). O sexo era para fins reprodutivos, dessa maneira o Partido ganharia mais membros. Os casais, antes de se unirem, tinham que possuir a aprovação do Partido – que tinha que ter absoluta certeza de que ali não havia desejo algum. Havia inclusive a Liga de Jovens Anti-Sexo, ou seja, desde cedo a cartilha do Partido era incutida.

Então você pode se perguntar: pra onde tanto desejo reprimido seria canalizado? Uma das respostas está na agressividade, especificamente denominada no livro de “Semana do Ódio”. Nesta semana, havia uma comoção pelos membros do Partido para extravasarem toda a sua raiva sobre a imagem que aparecia na teletela, a imagem de Goldstein. E assim, todos gritavam, esbravejavam, esmurravam o ar, com o intuito de demonstrarem todo o seu ódio a um inimigo que nunca viram.

É uma população em que os vínculos afetivos não podiam existir, onde o Amor tinha um Ministério, mas era para a Tortura de quem saía do eixo proposto pelo IngSoc. Pensar era proibido. Os movimentos eram controlados e tidos como suspeitos. As pessoas se olhavam de modo suspeito. O trabalho dos membros do Partido consistia em alterar sempre o passado, através dos jornais, da literatura etc., de forma que o Partido sempre acertasse em suas previsões. O passado era sempre reinventado, não havia História. A verdade… qual seria a verdade?

Ler 1984 é encontrar a chamada distopia – uma utopia negativa. A obra revela o totalitarismo em seu auge. E eu, como leitora, não poderia deixar de observar que há reflexo dessa obra na nossa realidade, que eu nem sei se é real… Câmeras, relacionamentos superficiais, desconfiança, controle de massas, mídia manipuladora, repressão de sentimentos, mortes em massa, trabalhadores condicionados, informações inúteis que preenchem a nossa cabeça…

Haveria muito mais ainda pra se falar dessa grande obra e a sensação que se tem é de que algumas coisas dela insistem em permanecer no nosso presente. Mas ao lê-la queremos evitar que estas certas coisas perdurem. Consegue perceber a importância desse livro?

Veja o trailler do filme: http://bit.ly/vOMOV