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Posts Tagged ‘linguagem’

Por: Nathaly Alves

 

Mímese: imitação das aparências, das essências, das ações, ou dos estados de alma?

Particularmente significativo para o entendimento do fenômeno artístico, principalmente do literário, o conceito de mimesis tem sido objeto de análise de muitos estudiosos desde os filósofos da Grécia Antiga.

Mímese, grosso modo, significa “imitação” e, nesse sentido, pode possuir diversas interpretações.

Para Platão, a arte, sob o prisma mimético, dizia respeito às opiniões e às aparências representadoras do mundo dito real. Segundo esta concepção, portanto, a mímese representa a imitação das aparências (da realidade).

Segundo a doutrina platônica, porém, faz-se válida a lembrança de que a realidade em si é meramente uma imagem, praticamente um vulto, por assim dizer, do plano das ideias eternas. Pensando desta forma, a arte se configuraria como uma espécie de espectro da realidade, um simulacro que não mostraria reconhecimento verdadeiro em um plano de realidade.

Por outro lado, Aristóteles relaciona o conceito de mímese à imitação das essências do mundo. Desta maneira, o imitar não estaria sujeito à mera duplicação de uma imagem referente, por exemplo. A configuração mimética, de acordo com o ensinamento aristotélico, implicaria em um profundo conhecimento da natureza humana. Atrelada ao conceito de mímese de Aristóteles, o objeto da arte se tornaria real na medida em que se dirigisse purificação que liberta os seres: a catarse.

Outros estudos gregos da Antiguidade, como os de Pitágoras, versam que o fenômeno mimético não é senão a “expressão dos estados de alma”, que implicariam até mesmo em uma possível terapia para autor e leitores da arte, à medida que os sentimentos seriam tratados quando expostos.

De qualquer forma, a mímese entendida como espelho passou por séculos até o conceito aristotélico foi verdadeiramente decodificado em seu real significado por Kant, Hegel (filósofos) e Hölderlin (escritor). A partir das considerações destes estudiosos, a mímese passou a ser encarada como manifestação da plenitude da realidade.

Pensando propriamente em literatura, percebe-se que a linguagem – convencional e arbitrária – configura uma realidade mais essencial que virtual. A realidade é transmutada em simbologia de essências universais, pois imitar não é copiar. A arte complementa a natureza sem, necessariamente, confundir-se com ela.

Mímese, em síntese, pode ser considerada atualmente como imitação, tal como os gregos proferiram. Mas, reprodução de sua capacidade de gerar, de criar. Além disso, antes da imitação da força natural, da realidade, da materialidade, da substancialidade, enfim… Pode-se entender que, hoje, a arte, por meio da mímese, recria a realidade, absorvendo sua essência revigorando-a. Criando seu próprio universo.

 

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A língua configura-se como um complexo universo em que existem os mais diferentes e curiosos planetas. A partir deste paralelo, podemos dizer que os “planetas” que gravitam a imensidão da língua são as variantes linguísticas.

Desde tenra idade, entramos em contato com a linguagem verbal, imitando-a, apropriando-nos de suas propriedades essenciais. Paulatinamente, tornamo-nos confidentes da língua, que  nos revela os seus mais íntimos segredos.

Observamos também que, comos nós, os outros indivíduos acabam por ligar-se à língua também. Em grande parte, é este o principal fator que culmina no milagre da comunicação humana.

As pessoas, contudo, utilizam formas distintas da mesma língua. A estas mudanças no uso da língua, explicadas devido uma rede intereligada de informações, que determinam a escolha de um determinado modo – tais como: região em que se vive, faixa etária distinta, grupos sociais diferentes, etc. … – chamamos VARIEDADE LINGUÍSTICA.

Grosso modo, as variedades linguísticas constituem as variações que um idioma qualquer apresenta, em função da condição social, cultural, histórica e regional em que um indivíduo o utiliza. Constituindo-se como parte integrante do universo língua, as variantes possuem o objetivo principal de promover a comunicação interativa e verdadeiramente efetiva entre as pessoas.

Não existe uma variante que sobrepuje outra; em verdade, todas as variações linguísticas são consideradas corretas, se respeitadas suas condições e adequações de uso. Apesar disso, a variedade padrão, também chamada de norma culta, possui maior destaque e prestígio social. A norma culta é  aquela que se ensina nas escolas, largamente utilizada na escrita oficial (livros, revistas, jornais, artigos científicos e acadêmicos …). Às vezes, os meios televisivos também a utilizam. As outras variantes, que incluem em seu grupo um enorme caudal de possibilidades, desde  variações regionais de fala (sotaque), de uso e de escolha vocabular e sintática, por exemplo, até os jargões e as gírias… todas estas formas se configuram, de maneira genérica, como variedades não padrão.

Uma velha dicotomia: língua x fala

Saussure, em seu Curso de Lingüística Geral, fala a respeito da dicotomia língua x fala. Relembramos das considerações do autor, em determinada medida, quando percebemos que a língua, principalmente em sua faceta escrita, demonstra-se fatalmente como um fenômeno estático, se comparada à fala, “entidade” vertiginosamente dinâmica. Tanto língua quanto fala fazem parte da linguagem verbal humana, que sabemos,  transmite muito mais do que nossas ideias. A linguagem  e  a língua-fala são capazes de mostrar o nosso “eu” para os outros indivíduos. Por elas, as pessoas acessam um conjunto de informações que passamos no ato da escrita ou da fala. Nossas escolhas denunciam quem somos no plano social e interferem em nossa interação com a sociedade. Um sotaque revela de onde somos; às vezes, a escolha de palavras, nosso nível escolar, nossa formação; uma “ingênua” expressão diz respeito aos nossos valores culturais, às nossas crenças, ao nosso círculo de amizades; a omissão, esporadicamente, pode dar indício de uma mostra de timidez, pode esclarecer a maneira pela qual passamos pelo processo de adaptação a novas situações…

Enquanto seres sociais e sociáveis que somos, temos um poderoso instrumento de ação: a língua. Ela pode nos aulixiar, bem como nos atrapalhar na prática social… tudo depende de nossas escolhas.

 

Variação linguística... relevação de sua personalidade sócio-cultural. Expressão: mostra de seu "eu"...

 ♦Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves♦

 

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Uma vez, ouvi dizer que os seres humanos diferem dos outros animais, ditos irracionais (segundo nossos parâmetros) em função da capacidade de se comunicar de forma complexa. Haveria outros motivos para distinguir homem e bicho, mas quero tentar falar um pouquinho sobre a comunicação humana. Mais propriamente, desejo falar de um estágio, ou parte, ou fase desta comunicação: a leitura.

A leitura é, entre outras coisas, o que nos permite conviver em sociedade, porque lemos, não apenas palavras, mas  o mundo, ora decifrando, ora decodificando tudo o que dele surgir. A leitura verbal, baseada na fala e na escrita, ao menos no Ocidente, se vale de uma faceta do signo linguístico, de sua imagem acústica, para que se tenha a compreensão ou a decifração da mensagem por meio do código linguístico. Já a leitura não-verbal revela a representação de um sistema em que as palavras não fazem parte…

Como podemos ler, então?

Quando disse que a leitura se destina à interpretação do mundo, você pode entender que qualquer  tipo de linguagem, seja artística, simbólica, literal… pode ser lida. Calados, muitas vezes “falamos” mais da gente do que se falássemos, efetivamente, sobre nós mesmos. Nossas preferências indicam o que gostamos, nossas roupas dizem muitas vezes nossas intenções, tudo o que escolhemos, muitas vezes, revelam até mesmo  o que nós queremos que os outros pensem da gente…  e, consciente ou inconscientemente, isso acontece. As escolhas, essencialmente individuais, mostram algo que queremos comunicar por meio de signos que revelam nossa auto-imagem, ou a imagem que os outros indíviduos possam ter de nós. Estes signos, portanto, prescindem das palavras. Quando compreendemos o mundo, as outras pessoas, pela maneira que se mostram, pelo que o querem passar… dizemos que lemos sem nenhuma palavra, nenhumazinha.

Como isso é possível?

O código é o elemento que nos proporciona a leitura. Fora o código linguístico, existem muitas outras estruturas de comunicação que codificam a representação do mundo em que vivemos, do qual queremos falar. Decodificar, dessa forma, seria conhecer o código, desvendando-o, interpretando-o. Para tanto, além da codificação, precisamos também saber como é que os signos se comportam, como se organizam para o estabelecimento da leitura e da concretização do ato de comunicar. Além disso, também devemos ter em mente que muito do “arsenal” de compreensão de mundo que temos vêm das associações que fazemos. Partindo de uma sintaxe linear (o que é característico da leitura verbal) ou de uma organização comparativa entre objetos, pessoas, fatos sociais e  situações cotidianas principalmente (característica da leitura não-verbal), não importa, a gente sempre acaba lendo.

Ocorre que o texto não-verbal é destituído de um código definido. Seus signos são como os fragmentos de um meteoro, dispersos. Não existe uma organização clara dos signos, eles não são convencionais neste tipo de texto. A simultaneidade dos sons, das cores, dos cheiros, dos sabores, contudo, produzem uma nova ordem e permitem a produção e a organização dos símbolos, dos índices, dos ícones que proporcinam a decodificação deles e, finalmente, formam a comunicação.

Essa produção de um signo que possa estabelecer a comunicação não-verbal e sua leitura, apesar de aparentemente aleatória, se constrói gradativamente, se consolida devido à nossa bagagem cultural, ao nosso repertório. Há determinadas leituras que podem até parecer universais, mas as convenções ficam de lado e dão espaço à individualidade, ao caudal de possibilidades que  propõe ao leitor.

A Semiótica, lógica da linguagem, tem se deparado com a questão das palavras e das “sem palavras” constantemente. Considerando tudo o quanto possa comunicar como texto, poderíamos pensar que a leitura não-verbal possa ser uma sugestão de uma experiência nossa pautada, muitas vezes, em algo cotidiano. Uma impressão, porque toda e qualquer interpretação é possível, mas nunca é totalmente correta ou completa.

Leitura não-verbal: os fragmentos sígnicos nos dão uma ideia, uma impressão do mundo. Para alguns, essa imagem não tem nada de errado. Os signos estão em harmonia, há naturalidade e tudo o quanto existe na imagem faz parte da ambientação do mundo contemporâneo, liberal. Para outros, há um descompasso tão grande, que a leitura pode se mostrar como uma afronta, um desrespeito, uma total inversão de valores. Como podemos ler essa imagem, o que ela nos diz?

Para alguns o céu azul e limpo é uma beleza: praia, sol, vida. Para outros, os que dependem da chuva nas plantações, os que vivem e dependem da terra, os que são flagelados pela seca... a leitura dessa imagem é a morte.

Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves

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A arte antes do século XX era uma coisa. No começo do século XX a arte se transformou em outra coisa. Junto às vanguardas estéticas europeias, surgiu toda uma nova maneira de encarar a arte. Aquela arte como “imitação da natureza” (mímese), vista na pintura figurativa, na escultura, e até mesmo na literatura naturalista caía por conta de novas formas como a fotografia e o cinema. A arte começou a se debruçar sobre si mesma, começou a tratar da própria arte, numa postura de metalinguagem. O ato criativo tomou a frente nos interesses dos artistas, e a ideia ganhou destaque frente à plasticidade. Desta forma, a arte residia na concepção do artista, na própria ideia de compor, não no objeto, nem nas impressões que este causava. Uma posição de contestação à própria ideia que se tinha sobre o que era arte.

O contexto era o das guerras mundiais. Haveria possibilidade de arte ante a banalização da condição humana e os horrores da guerra, meu Deus?
Dizem que o grande expoente desta escola é o Marcel Duchamp, quando resolveu pôr um vaso sanitário como atração de museu. Chamou-se aquilo de ready-made, ou seja, um objeto já existente, que perdeu sua função original e ganhou status de arte. O mesmo vale para a roda de bicicleta. A arte, aí, não reside no vaso ou na roda em si, mas na concepção do artista em tirar o vaso do banheiro e colocá-lo no museu, para admiração boquiaberta de todos.

A "Monalisa" de Duchamp

Em 1919, Duchamp expôs uma reprodução da Gioconda de Da Vinci desenhando bigodes nela, e batizou a obra de LHOOQ (que significa Elle a chaud au cul, algo como "Ela tem fogo no rabo", em português). Dessacralização da Arte.

Sim, a Arte Conceitual tem a ver com o Dadaísmo.

E mais: daí deu-se a surgir outras manifestações que preconizavam a ideia anterior ao objeto. Você sabe o que é um happening?

Happening é uma manifestação artística pentencente às Artes cênicas. Happening é um “acontecimento”. Imagina, você tá na fila do dentista, de repente entram três atores vestidos de Pierrô, Arlequim e Colombina contracenando Macbeth. Pode ser pior: eles podem pedir a participação interativa da plateia. Ou então: Você está no trem, mais exatamente no Brás, às 6 da tarde, quando entra no seu vagão um mendigo com cheiro de pinga ensaiando o solilóquio de Hamlet (ou recitando Drummond). Nestes casos, amigo, Shakespeare seria o de menos…

As instalações são outra forma de Arte Conceitual. São essas que mexem com a cabeça do cidadão desavisado que vai ao museu. Já vi desde uma reprodução de um corpo em putrefação pendurado numa sala de museu até um terço de oração em formato fálico. Predomina a idéia, repito, não o objeto. Há um quadro (tentei encontrar pra postar aqui) de uma pintora brasileira que reproduziu uma mulher atormentada na pintura. Mas a tela estava rasgada ao meio. Foi por meio da materialidade do suporte (tela) que a artista representou a ideia do rasgo interno da personagem que criou. Loucura, né? Não é exatamente Arte Conceitual, mas ela se valeu do conceitualismo para causar uma sensação.

Retrato de Iris Clert, de Rauschenberg. O artista escreveu um telegrama dizendo: "Este é um retrato de Iris Clert, se eu disser que é".

Retrato de Iris Clert, de Rauschenberg. O artista escreveu um telegrama dizendo: "Este é um retrato de Iris Clert, se eu disser que é".

Eu lembro de uma música dos Ramones onde Joey cantava: “Second verse, same as the first!”.

E a Arte Conceitual na literatura? Tem quem fale no cerebrismo de James Joyce, mas acho que todos aqueles autores que escreviam sobre o próprio ato de escrever já criavam terreno pro conceitualismo na literatura. Sim, o Machado de Assis é um exemplo. Memórias Póstumas, pra mim, é um livro moderno. Mas ainda não era Arte Conceitual. O exemplo que me vem agora é o de um trecho do André Sant’Anna, contemporâneo, cujo personagem, no meio do conto, diz algo mais ou menos assim: “Eu não sou um policial. Sou uma personagem em terceira pessoa criada pelo escritor…” etc. Eu acho fantástico. Algumas crônicas do Verissimo trazem bem latente esse estilo de expressão, certamente herança de Borges, a quem lia muito e muito. Há uma crônica do Leon Eliachar (não encontrei) que fala sobre como se cria uma crônica, e do que a crônica não deve falar. Há quem escreva em muros, na pele, etc. Uma atitude espelhada e caleidoscópica de arte.

Ainda no reino impenetrável das palavras, após a Arte Conceitual começamos a contar com as palavras nas telas dos artistas, participando ativamente da significação dos quadros. Vide Magritte.

Espelho Mágico, de René Magritte, 1929. A figura traz um espeho, onde se lê: "Corpo humano".

Espelho Mágico, de René Magritte, 1929. A figura traz um espeho, onde se lê: "Corpo humano".

Alguns poemas do Drummond falam sobre o ato artístico, e podemos dizer que esse cara foi o vanguardista da metalinguagem na poesia brasileira.

Que mais? Acho que só. Há um livro-base pra quem quer saber um pouco mais sobre Arte Conceitual, está disponibilizado gratuitamente no Google Books, em clicando-se aqui.

Perdoem-me se falei alguma besteira, não sou especialista no assunto, apenas um curioso. Mas a ideia foi boa, vai dizer que não?!

Instalação de Joseph Kosuth, chamada One and Three Chairs, 1965. O artista expõe uma fotografia de uma cadeira, uma definição de dicionário e a própria cadeira. Peraí, o que é mesmo "realidade"?

Instalação de Joseph Kosuth, chamada One and Three Chairs, 1965. O artista expõe uma fotografia de uma cadeira, uma definição de dicionário e a própria cadeira. Peraí, o que é mesmo "realidade"?

Eu mesmo já fiz muitas obras conceituais, mas elas ainda não saíram do campo da ideia.


(da mesma forma que a palavra peixe não é um peixe, nem tem cheiro de [sic])

Lucas de Sena Lima, o bonzão.

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