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Posts Tagged ‘Literatura Contemporânea’

A gente começa a ler o livro antes de lidar com qualquer palavra. A leitura começa no tato, no olhar. Um livro pequeno, com os cantos arredondados, em papel cartonado, parecendo um livro infantil, embora seja inteiro preto e branco. Deve ser por isto que Mario Bellatin, que escreveu a quarta capa, assinalou: “Estou convencido de que uma das características de um livro contemporâneo é que, antes de ser uma leitura, ele é uma experiência”. Uma experiência sensorial, o prazer do livro físico.

Os Anões é o terceiro livro para adultos da gaúcha Veronica Stigger, ex-jornalista, hoje professora e crítica de arte. São textos curtos, histórias que exploram nosso sadismo e nosso fascínio pelo estranho, o inabitual dentro do habitual.

O livro é dividido em três partes: “Pré-Histórias”, “Histórias” e “Histórias da Arte”. Dialoga, o tempo todo, com a história da arte e com a antropologia, mostra uma fauna de criaturas selvagens, inclusive ela mesma, a artista Veronica, aparece algumas vezes no livro.

Há aqui o deslocamento de textos e situações para o suporte livro, numa espécie de ready-made, quando uma anotação para uma amiga, um rascunho com um endereço ou um anúncio publicitário, se transforma em arte. E há o curioso registro sobre a mercantilização da arte, como em textos nos quais os nomes de grandes artistas servem de anúncios de venda de apartamentos, jogos de talheres, etc.

E há ainda, sobretudo, as imagens do absurdo, em linguagem descritiva e fluente. Imagens de Kafka, mas, aqui, não somente o irreal e ilógico que dão sentido ao termo “kafkiano”, também o oposto, o excesso de realidade a que estamos expostos. Numa temporada de caça ou numa colheita de cogumelos que acaba mal, o homem, para satisfazer vontades estranhas, põe em risco a vida:

Caça

Primeiro dia da temporada de caça. Dois caçadores já morreram por engano, e uma camponesa foi atingida nas nádegas por um disparo perdido. A bala foi retirada com sucesso e a camponesa passa bem.

O conto que dá título ao livro traz a história de um casal de anões que tenta furar a fila e é vítima de um linchamento coletivo, tornando-se repositório da cólera geral. (O conto se encerra como na famosa cena kafkiana de A Metamorfose). O anão, figura representativa do grotesco, do diferente, abre um embate entre cidadãos normais versus os deficientes, os seres éticos versus aqueles com “graves falhas de caráter”. O conto seguinte sugere, sutilmente, uma continuidade:

Teste

− Que tal fazer, então, o mesmo teste com mulheres gordinhas, de cabelos crespos?

Em um conto mais à frente, uma clara e interessante referência à pessoa da autora. Ela se suicida no seu apartamento novo durante uma festa; depois, seu namorado lê aos convidados um conto deixado por ela, que ninguém entende (conto que aponta a incompreensão de um ato suicida e a incomunicabilidade da arte). Ainda mais à frente, uma história de um amor estranho, suicida, nas cenas dos contos Curta Metragem I e II, em linguagem de roteiro de cinema, um gênero curioso e questionado na literatura. Um dos contos mais impressionantes é “Quand avez-vous le plus souffert?” (Quando você mais sofre?) em que, numa cena de ternura materna, a mãe estrangula uma criança com um fio de lã.

O livro termina com um fac-símile de um documento da autora, e seu curioso equívoco de registro que a coloca como pertencente ao sexo masculino, o que põe em jogo a contestação da noção de gênero, sexual e literário.

Veronica Stigger/Divulgação

Os Anões é um livro de cenas deliciosas  belas ideias, e de reflexões sobre a arte. Não é um livro de artifícios de linguagem, metáforas engenhosas, trabalho linguístico. É um livro de instantes, que, apesar de por vezes parecer desnecessariamente detalhados, nos proporciona momentos de gozo assim que percebemos: que bela sacada esta, que situação louca. E não voltamos a ser os mesmos.

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Lucas de Sena Lima

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Ademir Assunção nasceu em Araraquara (SP), em 02 de junho de 1961. Tem parcerias com Zeca Baleiro e foi muito amigo de Paulo Leminski.

Livros publicados

1) LSD NÔ (poesia). Editora Iluminuras (São Paulo). 1994

2) A Máquina Peluda (prosa). Ateliê Editorial (São Paulo). 1997

3) Cinemitologias (prosa poética). Ed. Ciência do Acidente (São Paulo). 1998

4) Zona Branca (poesia). Editora Altana (São Paulo). 2.001

Antologias

1) Outras Praias – 13 Poetas Emergentes/Other Shores – 13 Emerging Brazilian Poets (poesia). Edição Bilingüe (português/inglês). Editora Iluminuras/Fundação Cultural de Curitiba (São Paulo/Curitiba). 1998

2) 12 (poesia). Atrito Art Editorial (Londrina/PR). 2000

Antologias em revistas

1) Poesia Paulista Anos 90, organizada por Luís Camargo – Revista da Biblioteca Mário de Andrade, nº 55 (São Paulo). 1997

2) Poéticas Paulistas nos anos 70-90, organizada por Claudio Daniel – Revista Dimensão, nº 28/29 (Uberaba/MG). 1999

3) Pindorama: 30 Poetas de Brasil, organizada por Reynaldo Jiménez – Revista tsé=tsé, nº 7/8 (Buenos Aires/Argentina). 2000

O show Rebelião na Zona Fantasma, junto com Madan e  Marcelo Watanabe é outro grande sucesso!

Visitem este site: http://zonafantasma.sites.uol.com.br

Blog do Ademir Assunção: http://zonabranca.blog.uol.com.br/

 

Numa entrevista a Rodrigo Souza Leão, o autor de muitas obras, diz que é ” um cara da era da comunicação de massas. Minha sensibilidade tem mais a ver com poetas e escritores como Paulo Leminski, Torquato Neto, José Agrippino de Paula, William Burroughs, Arthur Rimbaud, Oswald de Andrade do que com Drummond de Andrade, Mário de Andrade ou Manuel Bandeira.”

O que propõe Ademir é uma nova concepção de poesia: poesia e música, a união perfeita.

Vejamos esta:

“Câmera Indiscreta”

olho o olho que me olha
olho o olho
olho a lua
o olho que me olha olha mas não vê

olho o olho que me olha
olho a rua a lua a rua a rua a rua
eu atravesso a rua
o olho que me olha olha mas não sabe o quê

olho o olho no espelho
olho de loba
o olho que me olha olha mas não lê

vou olhando olho a olho corpo a corpo
olho ilhas
olho dentro de você

 

 

Paula Cristina

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