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Posts Tagged ‘literatura’

A Classificação dos gêneros, inicialmente sugerida por Aristóteles em sua Poética, é muito importante, porque pode-se delinear as linhas limítrofes de um dado gênero, apontando as suas particularidades essenciais. Tal divisão é, contudo, artificial e convencional, já que uma obra de arte de qualquer gênero pode conter traços estilísticos de outro. O gênero literário, bem como a sua classificação, não atribuem valor às obras. A divisão das obras literárias em gêneros funciona como um facilitador para a organização e comparação dos textos.

Grosso modo, temos três tipos de gêneros na literatura:

– Gênero lírico: relaciona-se aos poemas. Suas características principais são a subjetividade (consequentemente, uma intensa carga expressiva), o ritmo (dado pela oralidade), a musicalidade (rima), a constância do “presente eterno”, a linguagem conotativa e a brevidade do texto.

– Gênero épico: relaciona-se a todas as estórias. Neste gênero encontra-se a presença de um narrador, a objetividade (trata-se, portanto, de um mundo narrado à distância, observado pelo narrador), a presença do tempo passado, o texto, geralmente, é longo e a linguagem lógica (descritiva, denotativa). Neste gênero narrador aborda geralmente questões relacionadas ao heroismo e aos feitos históricos de uma nação ou de um homem, o herói.

-Gênero dramático: relaciona-se às peças teatrais. Há a presença de personagens autonômas, seu tempo é linear (com ações sucessivas), há a ocorrência de diálogos constantes (que fazem desnecessárias as colocações de um possível narrador, descartando-o, portanto) e a atualidade das ações no tempo presente.

Por: Nathaly Felipe Ferreira Alves

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Pablo Neruda é considerado o “poeta nacional” do Chile.  Foi diplomata na Espanha e no México, ganhou o Nobel em 1971 e leu seus poemas para um Pacaembu lotado, na ocasião de sua visita ao Brasil. Estudos encontram semelhanças poéticas entre sua escrita e a da nossa Cecília Meireles. Não é um dos meus poetas favoritos, mas me meti a traduzir um poema seu. Intensamente lírico, gostoso de recitar aos corações das damas. Seguem as duas versões, depois comento. Você pode visualizar melhor o poema clicando na figura:

O poema pertence ao livro Veinte poemas de amor y una canción desesperada, de 1924. Encontrei outras traduções, mas nenhuma satisfez minha cisma com a terceira estrofe. Aparentemente é impossível manter a métrica e a rima, apesar da semelhança entre as línguas. Neste caso, é preciso mudar a ordem das palavras, tentando encontrar ali no verso alguma que resolva a rima.

Há casos onde devemos mudar as palavras, mantendo o sentido o mais próximo possível do original. Foi o caso da última estrofe, na qual troquei muerto por “partido” e cierto por “ido”, apenas para manter a rima, tentando manter a ideia da morte como “despedida”, “ida” para algum lugar longe (que, creio eu, seja a ideia central do poema, este medo da distância).

A escolha vocabular do autor é a do eu-lírico solene, celebrativo, culto. Em uma hora ou outra, para manter isto ou aquilo, optei por adicionar ou suprimir palavras, para manter o ritmo, a fonética, etc. Como no verso 15, onde adicionei a palavras “esta”, em em tantos outros versos, onde coloquei uns “isto”, “esta”, “o”, “a”, afim de dar fluência à leitura. Às vezes o que flui numa língua não flui em outra, é uma questão de sintaxe.

Confesso que encontrar as rimas finais da quarta estrofe foi mágico. Elas fecharam como num “clique”, de tão redondas e perfeitas. Fiquei com aquela sensação boa, de quando a gente lê um poema que mexe com a gente, etc. Repare no “singelo” e no “anelo”.

Este poema é bem musical, aí o desafio é maior.  Se você o ler e verificar que tanto na língua original quanto na minha tradução há um pouco de música, então terei cumprido meu objetivo na tradução. Traduzir é um exercício espiritual, eu acho. Da mesma forma como (em psicologia) o eu precisa do outro para se reconhecer etc., em linguagem precisamos das outras línguas para enxergarmos melhor a nossa.

Usei muito o dicionário (vários dicionários) nesta tradução.

Lucas de Sena Lima

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Cantiga de D. Dinis, o Rei Trovador

“Ai senhor fremosa, por Deus”

01 Ai senhor fremosa, por Deus,

02 e por quam boa vos El fez,

03 doede-vos algũa vez

04 de mim e destes olhos meus,

 

05 que vos virom por mal de si,

06 quando vos virom, e por mi.

 

07 E, porque vos fez Deus melhor

08 de quantas fez, e mais valer,

09 querede-vos de mim doer

10 e destes meus olhos, senhor,

 

11 que vos virom por mal de si,

12 quando vos virom, e por mi.

 

13 E, porque o al nom é rem

14 senom o bem que vos Deus deu,

15 querede-vos doer do meu

16 mal e dos meus olhos, meu bem,

 

17 que vos virom por mal de si,

18 quando vos virom, e por mi.

(CBa 529, 526)

Iluminura medieval que retrata os mistérios do Amor Cortês.

Iluminura medieval que retrata os mistérios do Amor Cortês.

Possíveis comentários:

O trovador roga à amada que tenha compaixão dele e dos seus olhos. A temática de “Ai senhor fremosa, por Deus” delimita-se, portanto, no campo da visão, sentido muito citado em toda a lírica trovadoresca. O trovador suspira, invocando mais uma vez a divindade para tentar abrandar o insensível coração de sua senhor. Apesar desse apelo a Deus (artifício do poema medieval, como já dissemos), podemos perceber um aspecto sensual que permeia toda a cantiga.

Na primeira cobra, o eu lírico suspira por sua dama, a mais bela dentre as mulheres (versos 1, 2, 7 e 8), expondo imediatamente seu drama. Ele sofre desde o aziago dia em que a viu (refrões). O poeta, cogitando a possibilidade de sua amada se condoer pela sua dor (verso 3), explica que a causa de “seu mal terrível” provém do ser amado. A crise do trovador se intensifica à medida que ele deseja ser perdoado pela sua amada, que se configura como impassível, sans merci.

Percebemos, dessa maneira, uma possível dicotomia: “bem” x “mal”. A dama “e por quam boa vos El fez” é belíssima e,  configura-se como o Bem Supremo do trovador, o próprio amor (sua origem e seu fim). Concomitantemente, a mulher cumpre o papel de agente da dor do poeta, agente maléfico, portanto. O motivo do sofrimento do trovador (o momento em que vê sua amada) também é duplo: os olhos, enquanto veículo do amor, vislumbram a beleza inebriante da dama, tal como se vislumbrassem a aurora (ousamos a comparação, apoiando-nos na concepção da beleza medieval, de caráter canônico). O impacto da visão da mulher ideal é tamanho que o poeta não hesita em admirá-la; seus sentidos se aguçam e ele entra no perigoso jogo do desejo; finalmente preso às tramas da paixão, o poeta se mantém inerte, ludibriado pelos encantos sobrenaturais da senhora, a quem se coloca como vassalo amoroso.

Haja vista a cantiga não possuir diálogos, dada a sua estrutura formal, percebemos que, apesar de enfeitiçado pela beleza erótica feminina e torturado pelo seu desejo visivelmente carnal, o eu lírico se mantém alerta, como se ensaiasse uma fala a sua senhora.  A segunda estrofe corrobora essa afirmação. Nela, pois, o trovador elogia sua suserana, usando as mesmas qualidades do elogio para rogar sua atenção. Sendo a dama tão boa e tão bela, como renegar o amor de seu pretendente?

O tom elegíaco da cantiga continua na terceira cobra. O trovador usa de seu talento para lidar com as palavras, ratificando a beleza da amada, bem como sua bondade, com a condição que ela se condoa dele, e mais: aceite suas súplicas mais pulsantes e carnais, portanto (versos 14 e 15).

A cantiga é composta por 3 cobras, tendo o talho como estrutura estrófica.  Há 18 versos, todos decassílabos agudos (excetuando os versos 1 e 4 que são graves). Há enjambement entre os versos 3 e 4, 7 e 8, 9 e 10, bem como entre os 15 e 16. As rimas são interpoladas (ABBA) nas cobras e paralelas (AA) nos refrões, todas são finais e consoantes; ricas nas 1ª e 3ª cobras e pobres na 2ª estrofe e nos refrões. Há cesura nas quartas sílabas de todos os versos.

♦Nathaly Felipe Ferreira Alves♦

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Poesia1

 

Você já se perguntou sobre o que é Poesia?

P O E S I A ! Poesia é tudo aquilo que você enxerga como poesia. Para alguns essas letras maiúsculas são apenas letras, para outros é um recurso de expressividade. Sim, Poesia tem a ver com Estilo. E Estilo cada um tem o seu. Estilo tem a ver com a emoção, com o apelo sensorial transmitido por meio das palavras. Palavras que se tornam uma coisa viva, palavras que choram e que riem.

A Poesia nasce da alma, da inspiração. Há quem diga que seja “transpiração” e não “inspiração”, mas sem esta o que seria? Um amontoado de palavras? Não. A Poesia é altamente expressiva, e não apenas vocábulos, seu sentido transcende ao do signo significante.  Até mesmo João Cabral de Melo Neto, primo de Manuel Bandeira, precisava de uma inspiração e a inspiração dele era a folha branca. Ele escrevia numa folha branca e, quando ficou cego, não mais conseguia escrever e nem ao menos ditar os poemas. Cada artista, tem a sua inspiração. Uns precisam do sentimento, das experiências, das dores, das imagens e outros da folha branca!

Vejamos o Haikai, por exemplo, um poema haikai sem uma imagem não é nada, não é haikai. Para pertecer a esta classificação precisa ser “inspirado” numa imagem.

Mas você pode me perguntar: E a técnica? E os sonetos decassílabos de Camões?

Oras! A técnica é adquirida, é o estudo, é o esmero, é o esforço, mas a técnica não “vive” sozinha. De nada adiantaria ecsrever um poema com “n” técnicas sem o sabor da inspiração. De onde vem os temas? Da inspiração!

Primeiro, rascunha-se, anota-se, depois a técnica entra em questão. Se for o desejo do poeta, é claro. Há alguns que não revisam suas obras, para não lhes tirar o gosto profundo…

Paula Cristina

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Prometeu Acorrentado trata-se de uma tragédia grega escrita por Ésquilo. Disponível em: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/prometeu.pdf

Prometeu Acorrentado

Prometeu Acorrentado

Ésquilo nasceu em Atenas, em Elêusis, por volta de 525 A. C.. suas obras renderam-lhe fama e honrarias. Das sete que se conhecem uma das mais grandiosas pelo tema que focaliza é Prometeu Acorrentado.
Júpiter ao tornar-se deus supremo cogitava conservar a espécie humana na condição de animalidade irracional ou senão destruí-la, contrariando-o, Prometeu apodera-se do fogo celeste (sagrado) que dotou o homem da razão e da faculdade de cultivar a inteligência, as ciências e as artes.
Como punição, Júpiter ordena que Prometeu seja acorrentado no Cáucaso e ali permaneça a menos que consinta a revelação do futuro,(que era um dom de Prometeu) a fim de evitar sua ruína como a de Cronos (Saturno) seu pai.
Prometeu é acorrentado por Vulcano e fiscalizado pelo Poder que se mostra cruel e insensível ao contrário de Vulcano que se mostra penalizado pela tortura que Prometeu estará sujeito, e que por ser um deus significa ser seu parente.
Vão lhe visitar as Ninfas, filhas do Oceano, este último tenta o ajudar, mas Prometeu recusa sua ajuda com a finalidade de poupar-lhe a vida.
Por fim aparece Mercúrio, filho de Júpiter, e tenta arrancar os segredos de Prometeu, e, como nada consegue avisa que os abutres virão comer o fígado imortal do deus aprisionado.

Prometeu acorrentado é a primeira parte de uma trilogia da qual se perderam as outras. Perda lamentável, pois não nos permite conhecer todo o significado dessa tragédia em que um deus se vê condenado por ter sido um benfeitor a Humanidade.

PAULA CRISTINA

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Literatura de Folhetos
Literatura de Folhetos

Literatura de Folheto é o que conhecemos por Literatura de Cordel. O nome “cordel” tem origem portuguesa, pois era comum em Portugal pendurar os livros em cordões para serem vendidos.* Não sabemos, ao certo, se no Brasil os “trovadores” penduravam os folhetos em cordões, mas por causa da cultura aportuguesa o nome ficou. A denominação “cordel” tem origem erudita e acabou chegando ao vocabulário dos autores populares. Surgiram, então, os neologismos “cordelista” e “cordelismo”.

No Nordeste é ainda comum falar em literatura de folheto ou folheto de trovador. Entenda-se a palavra trovador como a pessoa que a recita ou canta, e que se dedica á confecção dos folhetos populares.

 Nascida no interior do nordeste, espalhou-se por todo o país, pelo processo migratório do sertanejo/nordestino. Trata-se de uma manifestação cultural popular oral e que mais tarde, passou a ser escrita tal a qual conhecemos. As más (ou boas) línguas dizem que Lampião pedia aos “trovadores” de seu bando que fizessem “modinhas” para espezinhar o inimigo e acabava numa disputa “artística” entre os trovadores de Lampião e os do inimigo.

 No Brasil, prevalece a forma poética, preferentemente em redondilha maior (versos de sete sílabas contadas até a última tônica) e seis “pés” (versos), portanto a sextilha. As rimas ocorrem no segundo, quarto e sexto pés: ABCBDB.

 Os assuntos podem ser variados, mas há algumas predileções: Cangaço (Lampião e Maria Bonita), Padre Cícero (Padim Ciço) e Getúlio Vargas.

Ocorre ainda a presença da jocosidade. Existem folhetos que se valem da ironia ou ainda da exploração de lendas ou boatos e por isso, são muito engraçados e deliciosos de ler. Daí, da realidade para o fantástico é um pulo, o que explica algumas curiosas histórias.

As ilustrações, comumente em branco-e-preto, são perfeitas obras de arte. É comum ilustrar os folhetos utilizando a técnica da xilogravura. Com o avanço e a disponibilidade de recursos, hoje encontramos folhetos coloridos, mas a tradição no Nordeste é ainda em branco-e-preto.

A literatura de folheto tanto agrada adultos como crianças e deve ser valorizada, pois representa a cultura de um povo que muito nos pode ensinar. Uma boa dica para educadores é trazer para a sala de aula alguns desses folhetos e incentivar a produção escrita, levando os alunos ao mundo da poesia.

Quem é Costa Senna? 1
costasenna@gmail.com

Costa Senna é um sujeito culturalmente muito rico: se dedica a esta literatura, canta e interpreta os seus folhetos. Já tem Cds gravados e suas músicas são muito geniosas!

Criança, que bicho é este?

 Vive pelos oceanos

Lá onde mora a sereia,

Navegando pelas águas

Ela não se aperreia.

O mar é sua passarela

Ela é tão grande, tão bela…

Só pode ser a? … BALEIA

 

Esse é bem mais feroz

Que o próprio lobisomem,

Mata plantas e animais

E às vezes nem os comem.

É o único ser pensante

Mas vacila a todo instante…

Nós o chamamos de?…HOMEM !

 

Quem é Moreira de Acopiara? 2

m.acopiara@uol.com.br

 É o autor de dezenas de Cordéis, gravou dois CD’s com poemas de sua autoria e publicou seis livros, sendo os mais recentes “Livro de bolso” e “Cordel em arte e versos”. Em 2005 foi eleito para a ABLC, Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

 Boi velho

 Meu velho pai já dizia

Que o homem é bicho mau;

É capaz de atrocidades

Para subir um degrau

E, pra se promover, mente

Na maior cara de pau

 

Por um pouco de dinheiro

Retira o que tem na frente,

Inverte valores, trai,

Descarta amigo e parente

E sem pena sacrifica

Um animal inocente. 


1.
Costa Senna é cearense de Fortaleza, apesar de ter vivido parte de sua infância e adolescência no Choró Limão, região de Quixadá. Ingressou na arte em 1980 e atuou nas peças teatrais A noite seca, Barrela, Deus lhe pague e O Caldeirão. Em 1990 muda-se para São Paulo, onde foi um dos precursores da nova face da literatura de cordel. Escreveu O doido, viagem ao centro da Terra (adaptação do clássico de Júlio Verne), Jesus brasileiro (em parceria com Marco Haurélio), Raul Seixas entre Deus e o Diabo, Jararaca, o bandido santo, A maldita ilusão, As lágrimas de Lampião, Escreveu, não leu, o pau comeu, entre outros.
Cantor e compositor, Costa Senna funde o universal ao regional, com influências tão inusitadas como Luiz Gonzaga, Raul Seixas, Belchior, Alceu Valença, o rap urbano e o repente dos grandes cantadores nordestinos. Tem gravados os CDs Moço das estrelas, Costa Senna em cena e Fábrica de unir versos. Humorista, fez sucesso com o espetáculo cômico Ria até cair de Costa, de grande repercussão nos anos1990.
É um dos poetas pioneiros na utilização de temas ligados à educação na literatura de cordel.

2. Nasceu em 1961, no município de Acopiara, Ceará, onde viveu até os 20 anos de idade, entre os trabalhos da roça, a leitura de bons livros, a convivência com os cantadores da região e a literatura de folheto, conhecida também por literatura de cordel.

 ______________________________

 * Para quem quiser conhecer as diferenças entre a Literatura de Cordel Lusitana e a nossa Literatura de Folheto, basta acessar:

http://www2.metodista.br/unesco/PCLA/revista10/res%20livros%2010-5.htm

 PAULA CRISTINA

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Abrem-se as cortinas! Começa o espetáculo!


Em sua terceira edição, a Copa de Literatura Brasileira está começando! Uma boa oportunidade para aqueles que reclamam de não conhecer a produção literária atual. São 16 livros publicados em 2008, que se enfrentarão em eliminatórias, como as de uma partida de futebol. Juízes escolherão os que se classificarão para as etapas seguintes.

Dois destaques: a presença de Galiléia, de Ronaldo Correa de Brito, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (a escolha dos livros concorrentes é anterior à premiação do Prêmio SP, do Jabuti e do Portugal Telecom); também a presença de O Vencedor esta Só, de Paulo Coelho, acendendo mais uma vez a polêmica sobre a qualidade literária do autor.

"O Filho Eterno", vencedor em 2008

"O Filho Eterno", vencedor em 2008

"Música Perdida", vencedor em 2007

"Música Perdida", vencedor em 2007

A primeira edição foi vencida por Música perdida, de Luiz Antonio de Assis Brasil, e a edição do ano passado foi vencida por Cristóvão Tezza, com seu mega-premiado O Filho Eterno.

Este ano a disputa está bem acirrada. Acompanhe, passo a passo, e comente; os fóruns de comentários costumam ser bem acalorados! Siga a CLB no Twitter: http://twitter.com/copaliteratura

Em uma conversa informal e animada, o idealizador da Copa, Lucas Murtinho, gente fina, me responde algumas perguntas. Confira:

Lucas (Gaia) Como surgiu a ideia da CLB?

Lucas (CLB) Foi no meio de 2007. Eu estava na França, estagiando em editoras, e me toquei que em breve eu ia estar procurando emprego no mercado editorial brasileiro, e que eu estava bem mal informado sobre esse mercado. Aí lembrei do Tournament of Books, que eu conheci no começo do mesmo ano. Me veio a ideia de fazer um ToB brasileiro para conhecer melhor pelo menos alguns livros nacionais recentes e para, quem sabe, ter um nome já minimamente conhecido quando eu voltasse.

Hoje em dia eu falo sobre a importância de mostrar a falta de critérios objetivos para julgar uma obra artística e tal, mas a verdade é que a gênese da Copa é bem egoísta.


Lucas (Gaia) Quais são os critérios para escolha dos livros e dos jurados?

Lucas (CLB) Eu preparo uma lista sugerindo os concorrentes, e essa lista é bem pessoal: são os livros que me interessaram, de autores de quem eu gosto ou acho que vou gostar, ou tão comentados que eu tenho vontade de dar pitaco também. Essa lista é criticada e modificada pelos jurados, mais ou menos pelos mesmos motivos. Quanto aos jurados, eles também são escolhidos de forma bem informal: são amigos, pessoas que eu sei que acompanham a Copa, antigos concorrentes que gostaram da ideia. Sem pensar muito nisso, acho legal manter uma diversidade, e ter entre os jurados escritores, críticos, acadêmicos, editores – e simples leitores.


Lucas (Gaia) O que você acha dos comentários e das polêmicas que surgem nas votações, como observamos nos últimos anos? Elas ajudam a discutir melhor o valor das obras?
Lucas (CLB) Sou um grande fã de polêmicas e debates – tenho que me controlar pra não sair comentando qualquer bobagem que vejo escrita num blog – então gosto muito do que acontece nos comentários da Copa. Mas mesmo eu tenho que admitir que elas às vezes não ajudam a discutir o valor das obras. Ainda assim, acho que elas têm o seu valor, ao menos pelo simples fato de serem divertidíssimas. E o comentarista inteligente também encontra o seu espaço por ali.


Lucas (Gaia) Você acredita na eficiência de prêmios literários como registro da produção e uma época?

Lucas (CLB) Uma pergunta que eu me faço de vez em quando é se fomos condicionados por décadas de evolução cultural a gostar de, por exemplo, Machado de Assis. O raciocínio é um pouco vago e eu mesmo tenho dificuldade de expressá-lo, mas é mais ou menos assim: Machado foi reconhecido como um grande escritor, canonizado, serviu de influência para meio mundo, direta ou indiretamente. Essa influência é tão grande que ela molda parte da nossa cultura: somos, como o cão de Pavlov, condicionados a gostar de Machado porque o que lembra Machado ou emula Machado é visto como bom. Não sei se Machado é o melhor exemplo, mas a ideia é que existe um certo determinismo nas escolhas culturais: o que se declara bom por tempo suficiente vira o parâmetro para decidir se algo é bom ou não, e é óbvio que o parâmetro, comparado a si mesmo, será bom.

Toda essa enrolação pra dizer que talvez os prêmios literários sejam parte dessa engrenagem que de forma um pouco acidental cria os parâmetros artísticos do futuro. Ou seja, independente da qualidade do que é premiado hoje, amanhã aquilo será visto como sinônimo de qualidade. O processo, inclusive, pode acontecer em tempo real: o melhor livro escrito em inglês fora dos Estados Unidos num ano qualquer é o premiado pelo Booker Prize, porque o Booker Prize premia o melhor livro escrito em inglês fora dos Estados Unidos. Assim nascem as religiões.

Lucas Murtinho é economista, preparador editorial, assistente editorial, tradutor e organizador da Copa de Literatura Brasileira.

Lucas de Sena Lima

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