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Posts Tagged ‘LIVROS’

 Por: Denis J. Xavier

 

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu alguém dizer: Sim eu assisti, mas prefiro o livro!. Pois bem, não é de hoje que a sétima arte utiliza textos literários transformando-os em roteiros e criando assim uma discussão eterna sobre o que é melhor: Filme ou Livro?. As adaptações de obras literárias para o cinema começaram tão logo os irmãos Auguste e Louis Lumiére fizeram a primeira projeção da história, e continuarão por muito tempo, pois esta é uma fonte inesgotável de histórias.

E mesmo com todos os prêmios dedicados aos roteiristas, são famosas as críticas de muitos autores à transformação de seus textos em filmes. Hemingway, por exemplo, reclamou de O velho e o mar. Mas há autores que ficam felizes com os trabalhos feitos a partir de suas obras. Um deles foi José Saramago, que teceu elogios à adaptação de Don McKellar, para seu livro Ensaio sobre a cegueira, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, em 2008.

Para mim esta disputa não se faz necessária, e alguns roteiros adaptados corroboram minha opinião. Um deles é Dom Quixote. Orson Welles fez um filme belíssimo. Nem melhor, nem pior que a leitura do livro de Cervantes; é, sim, uma experiência diferente. Outro caso de ótima adaptação é o do filme Mutum, da cineasta Sandra Kogut, adaptado da obra Campo Geral de Guimarães Rosa. Um dos mais belos filmes brasileiros dos últimos dez anos, que provoca sensações outras em comparação à leitura da obra.

Ao final deste texto há um filme datado de 1903. Uma adaptação de As Aventuras de Alice no país das Maravilhas. Os quase 9 minutos mais parecem um filme de terror tosco de nossos dias. Chega a ser bizarro, mas o intuito é mostrar como a adaptação deste texto foi feita há pouco mais de 100 anos. Antes disso, vejamos a diferença entre um trecho de uma obra literária e seu correspondente em roteiro:

 

Livro e filme: Memórias Póstumas de Brás Cubas.

 

Trecho do livro: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou minha morte. Suposto que o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método…”

 

Trecho do roteiro¹:

Dia chuvoso. Brás Cubas dentro de um caixão. Fecham o caixão e começa a sair o féretro com umas 10 pessoas acompanhando, guarda-chuvas abertos. Vemos o rosto de Brás dentro do caixão (câmera dentro do caixão).

FANTASMA FALA

(Off) Algum tempo pensei se a história deveria começar pelo começo ou pelo fim, isto é, se eu contaria antes o meu nascimento ou a minha morte.

O caixão percorre o cemitério e chega a uma cova aberta. VIRGÍLIA em especial destaque durante o percurso.

 

Na comparação destes dois trechos há muitas diferenças. Mas, para você que leu o livro de Machado de Assis, a quantidade de pessoas na cena do enterro não te chama a atenção? E o destaque a Virgília durante o enterro? Enquanto, na obra, Machado pede paciência ao leitor para poder manter em segredo por algum tempo a terceira senhora, no filme ela aparece logo no começo do enredo. Ainda que, no filme, seja revelada pouco depois, sua identidade acaba aparecendo antes do momento em que isso acontece no livro.

Apesar de tudo o que se diga sobre adaptações, quem deixa a paixão pela obra literária de lado normalmente consegue ter prazer com as duas artes. Compreende que são formatos diferentes e que aquilo que cabe nas páginas de seu livro favorito muitas vezes não cabe em 120 minutos de um filme. Por isso, deixe fluir. Boa leitura e bom filme a todos.

 

Fontes:

(¹) Roteiro baseado no livro Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Alice no País das Maravilhas (1903).

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Em 2005 a Editora Globo editou o primeiro volume das Obras Reunidas do poeta Roberto Piva.

Piva é o flaneur paulistano do tempo em que a cidade revelava uma geração fértil de poetas, retratados no documentário Uma outra cidade (Ugo Giorgetti, 2000). Estreou na literatura em 1961 com sua “Ode a Fernando Pessoa”, dois anos mais tarde lançou seu primeiro livro: Paranóia. Sua Obra Reunida está dividida em três volumes, cujo segundo – Mala na mão & asas pretas – traz os livros da sua maturidade poética, escritos entre 1973 e 1983, e os manifestos escritos em 1984, sob o título de “O Século XXI me dará razão”. Os livros reunidos neste volume, seguidos dos epítetos (entre parênteses) que lhe deu o amigo e crítico de sua obra Claudio Willer, são:

Piazzas (a fruição e a contemplação)

Abra os olhos & diga Ah! (e o entusiasmo)

Coxas (e a orgia ritual)

20 poemas com brócoli (e as analogias)

Quizumba (e a possessão)

Entre as principais características desta fase intermediária da sua produção estão o sexo e a liberdade, a liberdade trazida pelo sexo (aqui visto como arma e bandeira política), a orgia como ritual, o círculo de amigos como tribo, o “desregramento de todos os sentidos” (Rimbaud), as paroles en liberté, o tesão como “trombeta belicosa”, o amor louco adolescente, e todas as suas influências estéticas, sempre ecléticas e universais.

Chama a atenção a quantidade de menções e citações, influências expressas que mostram as leituras de formação do poeta, que vão de Dante a Pasolini, de Whitman a Garcia Lorca, de Álvares de Azevedo a Murilo Mendes, passando por Jorge de Lima e João Guimarães Rosa, e de Chet Baker à bossa nova no campo musical. Encontramos muito este recurso, o da citação das referências literárias como matéria para a escritura, na prosa contemporânea; mas é na poesia de Piva que esta prática ganha poder. A poesia como invocação, chamando para o terreiro estas vozes ancestrais.

O mais recorrente é vermos sobre o autor a alcunha do “poeta maldito” e o enquadramento da sua poética no rol enxuto de poetas surrealistas brasileiros. Notamos também nos livros reunidos em Mala na mão & asas pretas um poeta diretamente influenciado pela Geração Beat norte-americana, principalmente quanto à mistura da poesia à vida experimental, ao jazz e ao “Sonho & a Paixão”. Na verdade, enquadrar e qualificar Piva é um esforço vão e raso. Suas dimensões de poeta atravessam gêneros e estilos, sua poesia é o resultado de leituras libertárias, jamais dogmáticas.

A edição das Obras Reunidas traz ricos ensaios de analistas da obra do poeta. Figuram nos livros as análises do Prof. Alcir Pécora (organizador da obra e professor da UNICAMP), Claudio Willer (já citado, amigo e companheiro de geração e também poeta), Eliane Robert Moraes (professora de Literatura da FFLCH-USP), além da reunião de todos os manifestos publicados pelo autor e uma vasta bibliografia de seus textos editados, traduzidos e sua fortuna crítica ao final dos livros.

O poeta, hoje com 72 anos de idade, passou por sérios problemas de saúde desde o começo deste ano. Há tempos passa por sérias dificuldades financeiras, dependendo da ajuda de amigos e de eventos que arrecadam fundos para seus tratamentos médicos. Poesia não dá dinheiro e costuma dar menos reconhecimento do que o merecido. Esperamos que, com as reedições de suas obras, as vendas e o reconhecimento aumentem para que esta grande voz da poesia seja mais e mais lida e vivida pelos seus leitores.

A Editora disponibiliza trechos deste livro no Google livros, aqui.

Lucas de Sena Lima

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Elvis Presley

Elvis Presley em sua apresentação história - Hollywood, 1956

1956 para o Ocidente, 5716 no Calendário Hebraico, ou 1376 para o Islâmico.
Se você ligasse o rádio pode ser que ouvisse Sinatra. Quem governava o Brasil era Kubitschek, no seu primeiro ano dos 5 em que prometia modernizar o Brasil.

Morria Brecht, deixando o seu teatro. Por aqui se encenava o Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes. Nelson Rodrigues já era o grande dramaturgo. Nelson Gonçalves, o grande cantor.

Nos EUA, o The Million Dollar Quartet – Elvis Presley, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Johnny Cash – gravavam o seu disco. Mal sabiam que, juntos, valeriam milhões de dólares anos depois.

Jorge Luis Borges tornava-se professor de literatura na Universidade de Buenos Aires. Allen Ginsberg publicava o poema “Uivo” iniciando a Geração Beat.

Patativa do Assaré publica seu primeiro livro, Inspiração nordestina. João Cabral publica seu auto Morte e vida severina.

Um ano bem agitado para a cultura, no meio da Guerra Fria, o apogeu da civilização e da cultura, aquelas coisas. Começava-se a encenar uma possibilidade de bossa nova. Formava-se a banda The Beatles, dos amigos John e Paul. Astrônomos provavam que o universo havia surgido mediante uma grande explosão, o Big Bang. O homem ainda não havia ido à Lua.Progaganda RCA 1956

Bernardo Élis publicava O Tronco, já João Guimarães Rosa emendava duas bombas atômicas na literatura brasileira – Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile. Uma tremenda brutalidade, como se observa. Somando a isto o lançamento de O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, mais Boca do Inferno, de Otto Lara Resende, dá para anotar o ano de 1956 como uma demarcação na história da literatura brasileira. A superação do neo-realismo ficcional, a ascensão de novos anseios.

Na França, Albert Camus publicava A Queda. Um ano após, ganharia o Prêmio Nobel de Literatura. Mas em 1956 quem levou a láurea foi o poeta Juan Ramón Jiménez.

DMK modelo 1956 ipiranga Vemag

Carro DMK-Vemag modelo 1956, o primeiro da categoria a ser fabricado no Brasil, no bairro do Ipiranga. Hoje no bairro há uma rua com o nome da fabricante Vemag.

Erich Fromm publicava A Arte de Amar. Octavio Paz lançava novas bases para a leitura das artes poéticas com O Arco e a Lira – uma crítica literária celebrativa, tão poética quanto o próprio objeto de estudo. Paz provava que, para falar de poesia, deve-se responder à altura.

Um ano daqueles que não sabemos quando haverá outro, tão movimentado de coisas & fatos. Daqueles que dá saudade, mesmo sem ter nascido na época.

Lucas de Sena Lima

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O grande folclorista brasileiro!

— Já consultou o Cascudo? O Cascudo é quem sabe. Me traga aqui o Cascudo.

     O Cascudo aparece, e decide a parada. Todos o respeitam e vão por êle. Não é pròpriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sôbre costumes, festas, artes do nosso povo. Êle diz tintim-por-tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manisfestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha. Em vez de falar Dicionário Brasileiro poupa-se tempo falando “o Cascudo”, seu autor, mas o autor não é só dicionário, é muito mais, e sua bibliografia de estudos folclóricos e históricos marca uma bela vida de trabalho inserido na preocupação de “viver” o Brasil.

Carlos Drummond de Andrade

 

Quem foi Luís Câmara Cascudo?

Professor – Folclorista – Diretor de Escola – Secretário do Tribunal de Justiça – Jornalista – Antropólogo – Historiador – Brasileiro.

 

Cascudo (foto por Carlos Lyra)

Cascudo (foto por Carlos Lyra)

 

Nasceu em Natal no dia 30 de Dezembro de 1898 e morreu na mesma cidade em 30 de Julho de 1986.

 Sempre com o seu charuto, dizia que este fazia parte do seu rosto. Era um vício que possuia e que o fazia ser, de fato, Camara Cascudo.

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O charuto é quase uma extensão do meu rosto. Este é um dos meus vícios, é vício confessável, exibido. Um bom charuto é um prazer cotidiano, mágica fumaça consoladora.

Não é nada fácil dizer com certeza quantos livros Câmara Cascudo escreveu, já que nem o próprio sabia ao certo a quantidade: “Eu chamo a minha biblioteca de A Babilônia”.

A obra cascudiana é muito vasta e de acordo com o acervo de Carlos Lyra, “o homem que fotografou Cascudo”, temos 192 publicações entre livros e plaquetes (livretos).

Cascudo dizia que não fora ele quem correra atrás do folclore, mas o contrário: o folclore veio à galope em busca dele!

Faço questão de ser tratado por esse vocábulo que tanto amei: professor. Os jornais, na melhor ou na pior das intenções, me chamam folclorista. Folclorista é a p@#%#*@!!!. Eu sou um professor. Até hoje minha casa é cheia de rapazes me perguntando, me consultando.

 Ele, de fato,  era um sujeito muito bem humorado e que sabia ser irônico em algumas situações:

Um jornalista de Luanda entrevista o futuro autor de A História da alimentação no Brasil e Made in Africa.
     -Qual o motivo de sua presença na África?
     -Vim ver o sol se pondo no mar.

* * *

     Foi apresentado a um figurão da diplomacia, no Itamaraty.
     -Luís da Câmara Cascudo, Câmara Cascudo… parece que já ouvi falar no seu nome.
     -O senhor é muito mais feliz do que eu. Estou absolutamente certo de que nunca ouvi falar no seu.

 

Cascudo, lembrado até no selo dos Correios. (1998)

Cascudo, lembrado até no selo dos Correios. (1998)

Na cédula de CR. 50,000 (Período Collor)

Na cédula de Cr$. 50,000 (Período Collor)

 

Abaixo, listamos apenas 30 dos muitos livros de Cascudo para que o leitor possa conhecer um pouco mais da obra desse grande professor-folclorista:

001 – Alma Patrícia, critica literária – Atelier Typ. M. Vitorino, 1921
002 – Histórias que o tempo leva – Ed. Monteiro Lobato, S. Paulo, (out. 1923), 1924.
003 – Joio – crítica e literatura – Of. Graph. d’A Imprensa, Natal (jun), 1924
004 – Lopez do Paraguay – Typ. d’A República, 1927
005 – Conde d’Eu – Ed. Nacional, 1933
006 – O homem americano e seus temas – Imprensa Oficial, Natal, 1933
007 – Viajando o sertão – Imprensa Oficial, Natal, 1934
008 – Em memória de Stradelli – Livraria Clássica, Manaus, 1936
009 – O Doutor Barata – Imprensa Oficial, Bahia, 1938
010 – O Marquês de Olinda e seu Tempo – Ed. Nacional, S. Paulo, 1938
011 – Governo do Rio Grande do Norte – Liv. Cosmopolita, Natal, 1939.
012 – Vaqueiros e Cantadores – (Globo, 1939) – Ed. Itatiaia, S. Paulo, 1984.
013 – Antologia do Folclore Brasileiro – Martins Editora, S. Paulo, 1944
014 – Os melhores contos populares de Portugal – Dois Mundos, 1944
015 – Lendas brasileiras – 1945
016 – Contos tradicionais do Brasil – (Col. Joaquim Nabuco), 1946 – Ediouro
017 – Geografia dos mitos brasileiros – Ed. José Olímpio, 1947. 2ª edição, Rio, 1976.
018 – História da Cidade do Natal – Prefeitura Mun. do Natal, 1947
019 – Os holandeses no Rio Grande do Norte – Depto. Educação, Natal, 1949
020 – Anubis e outros ensaios – (Ed. O Cruzeiro, 1951), 2ª edição, Funarte/UFRN, 1983
021 – Meleagro – Ed. Agir, 1951 – 2ª edição, Rio, 1978
022 – Literatura oral no Brasil – Ed. José Olímpio, 1952 – 2ª edição, Rio, 1978
023 – Cinco livros do povo – Ed. José Olímpio, 1953 – 2ª edição, ed. Univ. UFPb, 1979.
024 – Em Sergipe del Rey – Movimento Cultural de Sergipe, 1953
025 – Dicionário do Folclore Brasileiro – INL, Rio, 1954 – 3ª edição, 1972
026 – História de um homem – (João Câmara) – Depto. de Imprensa, Natal, 1954
027 – Antologia de Pedro Velho – Depto. de Imprensa, Natal, 1954
028 – História do Rio Grande do Norte – MEC, 1955
029 – Notas e documentos para a história de Mossoró – Coleção Mossoroense, 1955
030 – Trinta “estórias” brasileiras – ed. Portucalense, 1955

Para saber mais:

http://www.memoriaviva.com.br/cascudo/index2.htm

http://www.histedbr.fae.unicamp.br/navegando/glossario/verb_b_camara_cascudo.htm

 http://www.mcc.ufrn.br/atual/

 http://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_da_C%C3%A2mara_Cascudo

 http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u289.jhtm

 

PAULA CRISTINA

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Literatura de Folhetos
Literatura de Folhetos

Literatura de Folheto é o que conhecemos por Literatura de Cordel. O nome “cordel” tem origem portuguesa, pois era comum em Portugal pendurar os livros em cordões para serem vendidos.* Não sabemos, ao certo, se no Brasil os “trovadores” penduravam os folhetos em cordões, mas por causa da cultura aportuguesa o nome ficou. A denominação “cordel” tem origem erudita e acabou chegando ao vocabulário dos autores populares. Surgiram, então, os neologismos “cordelista” e “cordelismo”.

No Nordeste é ainda comum falar em literatura de folheto ou folheto de trovador. Entenda-se a palavra trovador como a pessoa que a recita ou canta, e que se dedica á confecção dos folhetos populares.

 Nascida no interior do nordeste, espalhou-se por todo o país, pelo processo migratório do sertanejo/nordestino. Trata-se de uma manifestação cultural popular oral e que mais tarde, passou a ser escrita tal a qual conhecemos. As más (ou boas) línguas dizem que Lampião pedia aos “trovadores” de seu bando que fizessem “modinhas” para espezinhar o inimigo e acabava numa disputa “artística” entre os trovadores de Lampião e os do inimigo.

 No Brasil, prevalece a forma poética, preferentemente em redondilha maior (versos de sete sílabas contadas até a última tônica) e seis “pés” (versos), portanto a sextilha. As rimas ocorrem no segundo, quarto e sexto pés: ABCBDB.

 Os assuntos podem ser variados, mas há algumas predileções: Cangaço (Lampião e Maria Bonita), Padre Cícero (Padim Ciço) e Getúlio Vargas.

Ocorre ainda a presença da jocosidade. Existem folhetos que se valem da ironia ou ainda da exploração de lendas ou boatos e por isso, são muito engraçados e deliciosos de ler. Daí, da realidade para o fantástico é um pulo, o que explica algumas curiosas histórias.

As ilustrações, comumente em branco-e-preto, são perfeitas obras de arte. É comum ilustrar os folhetos utilizando a técnica da xilogravura. Com o avanço e a disponibilidade de recursos, hoje encontramos folhetos coloridos, mas a tradição no Nordeste é ainda em branco-e-preto.

A literatura de folheto tanto agrada adultos como crianças e deve ser valorizada, pois representa a cultura de um povo que muito nos pode ensinar. Uma boa dica para educadores é trazer para a sala de aula alguns desses folhetos e incentivar a produção escrita, levando os alunos ao mundo da poesia.

Quem é Costa Senna? 1
costasenna@gmail.com

Costa Senna é um sujeito culturalmente muito rico: se dedica a esta literatura, canta e interpreta os seus folhetos. Já tem Cds gravados e suas músicas são muito geniosas!

Criança, que bicho é este?

 Vive pelos oceanos

Lá onde mora a sereia,

Navegando pelas águas

Ela não se aperreia.

O mar é sua passarela

Ela é tão grande, tão bela…

Só pode ser a? … BALEIA

 

Esse é bem mais feroz

Que o próprio lobisomem,

Mata plantas e animais

E às vezes nem os comem.

É o único ser pensante

Mas vacila a todo instante…

Nós o chamamos de?…HOMEM !

 

Quem é Moreira de Acopiara? 2

m.acopiara@uol.com.br

 É o autor de dezenas de Cordéis, gravou dois CD’s com poemas de sua autoria e publicou seis livros, sendo os mais recentes “Livro de bolso” e “Cordel em arte e versos”. Em 2005 foi eleito para a ABLC, Academia Brasileira de Literatura de Cordel.

 Boi velho

 Meu velho pai já dizia

Que o homem é bicho mau;

É capaz de atrocidades

Para subir um degrau

E, pra se promover, mente

Na maior cara de pau

 

Por um pouco de dinheiro

Retira o que tem na frente,

Inverte valores, trai,

Descarta amigo e parente

E sem pena sacrifica

Um animal inocente. 


1.
Costa Senna é cearense de Fortaleza, apesar de ter vivido parte de sua infância e adolescência no Choró Limão, região de Quixadá. Ingressou na arte em 1980 e atuou nas peças teatrais A noite seca, Barrela, Deus lhe pague e O Caldeirão. Em 1990 muda-se para São Paulo, onde foi um dos precursores da nova face da literatura de cordel. Escreveu O doido, viagem ao centro da Terra (adaptação do clássico de Júlio Verne), Jesus brasileiro (em parceria com Marco Haurélio), Raul Seixas entre Deus e o Diabo, Jararaca, o bandido santo, A maldita ilusão, As lágrimas de Lampião, Escreveu, não leu, o pau comeu, entre outros.
Cantor e compositor, Costa Senna funde o universal ao regional, com influências tão inusitadas como Luiz Gonzaga, Raul Seixas, Belchior, Alceu Valença, o rap urbano e o repente dos grandes cantadores nordestinos. Tem gravados os CDs Moço das estrelas, Costa Senna em cena e Fábrica de unir versos. Humorista, fez sucesso com o espetáculo cômico Ria até cair de Costa, de grande repercussão nos anos1990.
É um dos poetas pioneiros na utilização de temas ligados à educação na literatura de cordel.

2. Nasceu em 1961, no município de Acopiara, Ceará, onde viveu até os 20 anos de idade, entre os trabalhos da roça, a leitura de bons livros, a convivência com os cantadores da região e a literatura de folheto, conhecida também por literatura de cordel.

 ______________________________

 * Para quem quiser conhecer as diferenças entre a Literatura de Cordel Lusitana e a nossa Literatura de Folheto, basta acessar:

http://www2.metodista.br/unesco/PCLA/revista10/res%20livros%2010-5.htm

 PAULA CRISTINA

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Uma grande incógnita: Paulo Coelho é Literatura Brasileira?

Essa pergunta me veio à cabeça, depois de ter “tentado” trocar alguns livros. Vou contar: estava eu com meus livros destinados à troca, deixei-os em cima da mesa da bibliotecária e fui logo na estante “Literatura Brasileira”. Lá, encontrei Machado de Assis, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Drummond, Raquel de Queirós e pasmem (!!!)  Saramago e tantos outros portugueses. Enfim, confusão básica. Na estante também estavam alguns brasileiros não lembrados e…Paulo Coelho.

O mais incrível é que também tinha Paulo Coelho na seção Espírita (!!!), Auto-Ajuda e Esotérico. Ou seja, Paulo Coelho dominou a biblioteca! Como queria um livro do Paulo Coelho, peguei na estante a obra O Zahir (também disponível nas outras seções acima descritas) e tã rã rã… fui até a mesa da excelentíssima bibliotecária: ” Moça, quero estes”. Eis que veio a resposta que deu origem à minha pergunta: “Paulo Coelho não é literatura.” Eu respondi: “Como não? Há uma monte de obras dele aqui e é sim Literatura!”. Ela: “Não. não é, colocaram errado na prateleira.”

Como também tinha alguns livros espíritas para trocar, peguei minha bolsa e saquei um Allan Kardec. Pronto. Agora eu conseguiria o livro. Eis a resposta: “Novamente errado na prateleira”. Eu: “Ah, sim”.

Voltei outro dia. Dois exemplares de Augusto Cury (auto-ajuda) e nada. Para ela, Paulo Coelho também não era Auto-Ajuda. Era Esotérico. Resumindo: levei o livro, mas deixei com a bibliotecária algum desses que falam de alienígenas…

Volto a pergunta para o leitor: Paulo Coelho é ou não Literatura Brasileira?

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Paulo Coelho nasceu em 1947, na cidade do Rio de Janeiro. Antes de dedicar-se inteiramente à literatura, trabalhou como diretor e ator de teatro, compositor e jornalista.

Escreveu letras de música para alguns dos nomes mais famosos da música brasileira, como Elis Regina e Rita Lee. Seu trabalho mais conhecido, porém, foram as parcerias musicais com Raul Seixas, que resultou em sucessos como Eu nasci há dez mil anos atrás, Gita, Al Capone, entre outras 60 composições com o grande mito do rock no Brasil.

Seu fascínio pela busca espiritual, que data da época em que, como hippie, viajava pelo mundo, resultou numa série de experiências em sociedades secretas, religiões orientais, etc.

Em 1982, editou ele mesmo seu primeiro livro, Arquivos do Inferno, que não teve qualquer repercussão. Em 1985, participou do livro O Manual Prático do Vampirismo, que mais tarde mandou recolher, por considerar, segundo suas próprias palavras, ”de má qualidade”.

Em 1986, fez a peregrinação pelo Caminho de Santiago, cuja experiência seria descrita em O Diário de um Mago. No ano seguinte (1988), publicou O Alquimista, que – apesar de sua lenta vendagem inicial, o que provocou a desistência do seu primeiro editor – se transformaria no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos. Outros títulos incluem Brida (1990), As Valkírias (1992), Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei (1994), a coletânea das melhores colunas publicadas na Folha de São Paulo, Maktub (1994), uma compilação de textos seus em Frases (1995), O Monte Cinco (1996), O Manual do Guerreiro da Luz (1997), Veronika decide morrer (1998), O demônio e a Srta. Prym (2000), a coletânea de contos tradicionais em Histórias para pais, filhos e netos (2001), Onze Minutos (2003), O Zahir (2005), A Bruxa de Portobello (2006) e a compilação de textos Ser como o rio que flui (2006), que está publicado apenas em alguns países.

Informação

http://www.paulocoelho.com.br/port/index.html

 

Paula Cristina

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[devo o pôste à Profª Clarice que rifou esta obra em 2007 em favor do Jornal Epigrama e discutiu comnosco alguns ponctos da obra. Mui grato pelo incentivo às práticas ousadas de seus alumnos, Lucas]

Julio Ribeiro é conhecido por ter sido o autor do escandaloso “A Carne“, livro que foi publicado em 1888, abordando temas que constrangiam o recatamento social das moças e rapazes de sua época. Mas Julio também foi gramático. E se na literatura ele se mostrava um intelectual de idéias avançadas, não se pode dizer o mesmo da sua teoria científica da língua. Por quê?

Segue abaixo um trecho da sua Grammatica Portugueza. Minha edição é a de 1900.

 “ARCHAISMO – Dá-se este nome a termos que já foram usados e hoje estão esquecidos. Ex.: arteirice, hoje astúcia; avença, hoje concórdia, harmonia; britar, partir; catar, olhar, emprgado no composto catavento. NEOLOGISMO – Dá-se o nome de neologismo a palavras novas, quese vão introduzindo na língua. Ex.: carambola, periodicista, bilontra, nasoculos, cardápio, etc. 	A mania do neologismo é das mais detestáveis. O neologismo só se justifica pela necessidade de uma denominação nova, para uma descoberta que também é nova, para um novo instrumento; ou então quando vem apadrinhado por um nome respeitado na língua. HYBRIDISMO – Dá-se o nome de hybridismo às palavras de creação nova e que se formam com elementos de língua diferentes. Ex.: photogravura, oleogravura, em que um é latino, e o outro, grego. 	As palavras de creação nova devem ser pedidas unicamente a uma língua: telégrapho, telephono, são palavras de cunho legitimo.  Et nova fictaque nuper habebunt verba fidem, si Graeco fonte, cadent, parce detorta. 							(HORATIUS, Ars poética)”

“ARCHAISMO – Dá-se este nome a termos que já foram usados e hoje estão esquecidos. Ex.: arteirice, hoje astúcia; avença, hoje concórdia, harmonia; britar, partir; catar, olhar, emprgado no composto catavento. NEOLOGISMO – Dá-se o nome de neologismo a palavras novas, quese vão introduzindo na língua. Ex.: carambola, periodicista, bilontra, nasoculos, cardápio, etc. A mania do neologismo é das mais detestáveis. O neologismo só se justifica pela necessidade de uma denominação nova, para uma descoberta que também é nova, para um novo instrumento; ou então quando vem apadrinhado por um nome respeitado na língua. HYBRIDISMO – Dá-se o nome de hybridismo às palavras de creação nova e que se formam com elementos de língua diferentes. Ex.: photogravura, oleogravura, em que um é latino, e o outro, grego. As palavras de creação nova devem ser pedidas unicamente a uma língua: telégrapho, telephono, são palavras de cunho legitimo. Et nova fictaque nuper habebunt verba fidem, si Graeco fonte, cadent, parce detorta. (HORATIUS, Ars poética)”

Um arcaísmo, para Julio Ribeiro, é um termo esquecido (ou seja, que merece serlembrado); enquanto o neologismo é uma “mania”, e das mais detestáveis! É um autor que ignora a mudança linguística, alguém que certamente bradou pela volta do Latim como língua oficial do Ocidente. Já pensou?

Esta é uma bela definição de gramática, e da maioria dos gramáticos, já que não muita coisa mudou de lá pra cá. Estes estudiosos da língua são os que continuam desconsiderando que a língua é algo vivo, que acontece agora mesmo, e insistem em nos convencer que a língua está nos livros somente. São mais necrófilos. Têm atração pelas coisas mortas.

Próxima aula eu trago um trecho do Pasquale, professor que acha que só o Chico e o Caetano podem errar na língua.

Lucas de Sena Lima.

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