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Archive for the ‘Gramática’ Category

Entrevista realizada por email, em setembro de 2008, que é publicada pela primeira vez neste momento. Nesta entrevista, o professor e lingüísta fala sobre seus livros, sobre Saramago e a Revista Veja, sobre o Acordo Ortográfico, e principalmente sobre seu livro Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz.

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Gaia — Marcos, em leitura do seu livro Preconceito Lingüístico ficou evidente a questão da linguagem com a qual você expõe as situações-problema, para alguns agressiva e para outros apaixonada, politizada. Preconceito Lingüístico é um livro científico ou um manifesto?

Marcos – O livro Preconceito lingüístico é um manifesto, sim, e isso é declarado já na apresentação da obra, em que tomo uma posição política bem definida, quando, nas primeiras linhas, cito Aristóteles e digo que é impossível tratar da língua sem fazer política ao mesmo tempo. Evidentemente, as idéias que sustentam esse manifesto têm fundamento científico, provêm das muitas pesquisas e descobertas feitas pelas ciências da linguagem no último século.

Gaia — O preconceito lingüístico, como abordado em sua obra, é resultado de um preconceito maior, de ordem social. A mudança de postura no ensino da língua pode colaborar para uma transformação social profunda?

Marcos – Acredito que sim. A pedagogia tradicional, no ensino de língua, foi a grande propagadora e perpetuadora do preconceito lingüístico, desde os primórdios da civilização ocidental. As noções de “certo” e “errado” tão impregnadas na nossa cultura foram incutidas, basicamente, por essa pedagogia que tratava a língua falada como um amontoado de erros, como uma realização imperfeita de uma “língua” supracelestial, uma espécie de entidade mística somente alcançável por meio da ascese e da iluminação espiritual. As novas práticas de ensino, voltadas para o reconhecimento do saber prévio dos alunos e para a valorização dos saberes locais, decerto podem vir a contribuir para a eliminação ou ao menos a diminuição do peso do preconceito lingüístico em nossa sociedade. De todo modo, o preconceito lingüístico é somente uma faceta de um preconceito social mais amplo e enraizado. Somente a plena democratização das relações sociais vai permitir, não a extinção dos preconceitos, porque eles fazem parte da própria natureza humana, mas vai permitir o combate sistemático a toda forma de discriminação.

Gaia — A questão do preconceito lingüístico se vê evidenciada também em outros países subdesenvolvidos de língua portuguesa?

Marcos – O preconceito lingüístico existe em todas as culturas, sejam elas desenvolvidas ou subdesenvolvidas. Muitos lingüistas estrangeiros, sobretudo europeus, quando lêem o meu livrinho dizem que a situação que descrevo para o Brasil também se verifica em seus países. Evidentemente, o peso da discriminação varia de país para país, mas ela sempre existe. A codificação de uma língua escrita, padronizada, e a imposição desse padrão lingüístico sempre cria, inevitavelmente, o preconceito contra todas as formas de falar que não correspondam a esse padrão.

Gaia — O ensino de gramática ainda é predominante nas salas de aula e ainda nos vemos sob a ditadura da análise sintática. A análise sintática é um bom método para aprender a língua? Quais outros métodos podem ser utilizados para ensinar língua para os jovens de ensino fundamental e médio?

Marcos – Já está provado e comprovado que não tem cabimento algum “ensinar gramática” nos primeiros anos de escolarização. A grande maioria dos lingüistas e educadores já abraçou a tese de que a sistematização gramatical, a metalinguagem, a análise lingüística etc. devem ser deixadas para o ensino médio. No ensino fundamental, a grande tarefa nossa é letrar os alunos, levá-los a se inserir plenamente na sociedade letrada. E para isso é preciso ler e escrever e não saber a suposta diferença entre “adjunto adnominal” e “complemento nominal”. Esse conhecimento não serve rigorosamente para nada.

Gaia — Saramago, no documentário “Língua — Vidas em Português” diz que a língua se tornou tão complexa que cada vez utilizamos menos palavras para nos expressar, e estamos passando por um processo de “involução” da língua onde logo estaremos emitindo sons guturais para nos comunicar. Na sua opinião, esta situação condiz, ou então te preocupa?

Marcos – Os escritores, em geral, são os piores comentaristas que existem para falar de língua. Essas declarações do Saramago só fazem comprovar isso. Qualquer lingüista sabe que não existe “involução” de língua nenhuma. Não existe língua complexa nem língua simples, todas as línguas são igualmente complexas, só que essa complexidade se manifesta, em cada língua, com maior predominância em determinado nível do sistema lingüístico: umas têm a sintaxe mais complexa, outras têm a morfologia, outras a fonologia, outras o léxico e por aí vai. O chinês mandarim, por exemplo, tem uma sintaxe extremamente simples e quase não tem morfologia; no entanto, sua fonologia é complicadíssima, as palavras têm diferentes tons, quase imperceptíveis para ouvidos ocidentais. Muitas línguas indígenas brasileiras têm uma morfossintaxe extremamente complexa, com uma riqueza de composição nominal, de recursos derivacionais capazes de deixar tonto qualquer falante de português…

Gaia — O próprio Saramago diz que não temos uma língua portuguesa, e sim, línguas em português. Evanildo Bechara diz que os educadores têm que tornar os alunos “poliglotas dentro da própria língua”. Mário de Andrade na voz de Macunaíma já elogiava ironicamente nossa capacidade de escrever em uma língua e falar em outra. Estaria a língua portuguesa já dividida em “romances” assim como o Latim esteve, só esperando por ganhar uma forma escrita definitiva? Como se posiciona o professor na sala de aula, tendo que conviver com um pseudo-bilingüismo, ou o que seja?

Marcos – Eu acredito que o português brasileiro (que já poderia ser chamado simplesmente de brasileiro) já é uma língua distinta do português europeu. Assim como podemos montar árvores genealógicas que partem do latim e se distribuem em ramos pelas diferentes línguas românicas, 500 anos de história colonial já nos permitem criar uma árvore genealógica que, partindo do galego arcaico, século XI-XII, se distribuiria em diferentes ramos que incluiriam o brasileiro e os crioulos de base portuguesa. Somente quando assumirmos que temos uma língua distinta da de Portugal é que poderemos abandonar as gramáticas normativas que tentam fazer uma descrição de uma super-língua que não é língua de ninguém, como a de Celso Cunha & Lindley Cintra, e fazer uma gramática que realmente descreva o brasileiro.

Gaia — Como você vê o novo Acordo Ortográfico assinado recentemente? Em que os professores, estudiosos e usuários da língua ganhamos e perdemos?

Marcos – Sou contra o acordo ortográfico e já sei de antemão que ele não vai entrar em vigor nunca. Aliás, é ridícula essa história: se o acordo é para unificar a ortografia, como é que bastam três países (dos oito) para que ele seja instituído? Isso tudo é maquinação de diplomatas. Educadores e lingüistas sabem que esse acordo não serve para nada, a não ser para jogar fora milhões de livros produzidos em países onde se publica pouco e mal.

Gaia — Sua obra tem muitos títulos voltados para o público infanto-juvenil, como por exemplo O papel roxo da maçã e O espelho dos nomes. Comente um pouco sobre o interesse do escritor em abordar temas voltados à língua para tal público.

Marcos – Em minha produção literária procuro sempre escrever em português brasileiro urbano contemporâneo, porque acho ridículo usar mesóclises e regências verbais quinhentistas quando se escreve hoje para crianças e jovens no Brasil.

Gaia — Há um certo tempo, a revista Veja publicou uma matéria de capa sobre como o português bem falado pode ajudar em uma carreira profissional bem-sucedida. Conte-nos, Marcos, quais os segredos da língua?

Marcos – Não acredito em “segredos da língua”. Se eles existem, estão ao alcance de todo e qualquer falante, e portanto não são segredos.

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Marcos Bagno é lingüista, escritor e tradutor. Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP, atualmente é professor de Lingüística na Universidade de Brasília (UnB). Entre seus principais títulos estão: Dramática da Língua Portuguesa, Português ou Brasileiro? Um convite à pesquisa e A língua de Eulália (ficção), além de dezenas de obras literárias. Traduziu autores como Balzac, Sartre e Oscar Wilde. (mais em www.marcosbagno.com.br).

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Entrevista a Lucas de Sena Lima

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O professor de português precisa ampliar competências e articular habilidades para ser proficiente no ensino de língua portuguesa como língua estrangeira.

No processo de aprendizagem, é preciso levar em conta:

  • diversidade cultural dos alunos;
  • interação aluno/professor;
  • métodos e abordagens no ensino de língua estrangeira.

Além disso, o professor precisa compreender a língua do aluno para que haja interação e as dúvidas possam ser esclarecidas, se necessário na língua materna do aluno.

É preciso formação diferenciada em relação ao professor formado pelo curso de Letras. Há pós-graduações e cursos específicos para professores que pretendem trabalhar com LP como LE.

O professor tem de:

  • ser especialista em língua portuguesa (conhecimento acadêmico);
  • desenvolver tarefas utilizando tipologia de exercícios diversos a fim de promover o aprendizado;
  • aguçar conhecimentos em sua própria cultura: mitos, lendas, personalidades, história da língua e do país, comidas típicas, etc.;
  • colocar-se no papel de aprendiz para compreender o processo de aquisição de uma outra língua (quando o professor experimenta aprender uma LE, reconhece os mecanismos de aprendizagem, possibilitando-o refletir sobre o processo de aquisição de uma LE).

Para explicar algumas expressões e dizeres o professor precisa utilizar recursos variados: música, arte, fotos, imagens, desenhos, etc. Tente explicar, por exemplo, para um estrangeiro a palavra “saudade”, ou então “dar um jeitinho” ou mesmo “samba no pé”.

O professor deve buscar materiais de apoio e preparar suas aulas com base de que seu aluno não possui a “bagagem” cultural e línguística suficiente da língua a ser ensinada. É necessário fornecer aos alunos cultura e informação com exercícios regulares e diferenciados, adotando, assim, uma metodologia adequada, a fim de desenvolver no aluno a compreensão da língua portuguesa numa situação de comunicação.

PAULA CRISTINA

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[devo o pôste à Profª Clarice que rifou esta obra em 2007 em favor do Jornal Epigrama e discutiu comnosco alguns ponctos da obra. Mui grato pelo incentivo às práticas ousadas de seus alumnos, Lucas]

Julio Ribeiro é conhecido por ter sido o autor do escandaloso “A Carne“, livro que foi publicado em 1888, abordando temas que constrangiam o recatamento social das moças e rapazes de sua época. Mas Julio também foi gramático. E se na literatura ele se mostrava um intelectual de idéias avançadas, não se pode dizer o mesmo da sua teoria científica da língua. Por quê?

Segue abaixo um trecho da sua Grammatica Portugueza. Minha edição é a de 1900.

 “ARCHAISMO – Dá-se este nome a termos que já foram usados e hoje estão esquecidos. Ex.: arteirice, hoje astúcia; avença, hoje concórdia, harmonia; britar, partir; catar, olhar, emprgado no composto catavento. NEOLOGISMO – Dá-se o nome de neologismo a palavras novas, quese vão introduzindo na língua. Ex.: carambola, periodicista, bilontra, nasoculos, cardápio, etc. 	A mania do neologismo é das mais detestáveis. O neologismo só se justifica pela necessidade de uma denominação nova, para uma descoberta que também é nova, para um novo instrumento; ou então quando vem apadrinhado por um nome respeitado na língua. HYBRIDISMO – Dá-se o nome de hybridismo às palavras de creação nova e que se formam com elementos de língua diferentes. Ex.: photogravura, oleogravura, em que um é latino, e o outro, grego. 	As palavras de creação nova devem ser pedidas unicamente a uma língua: telégrapho, telephono, são palavras de cunho legitimo.  Et nova fictaque nuper habebunt verba fidem, si Graeco fonte, cadent, parce detorta. 							(HORATIUS, Ars poética)”

“ARCHAISMO – Dá-se este nome a termos que já foram usados e hoje estão esquecidos. Ex.: arteirice, hoje astúcia; avença, hoje concórdia, harmonia; britar, partir; catar, olhar, emprgado no composto catavento. NEOLOGISMO – Dá-se o nome de neologismo a palavras novas, quese vão introduzindo na língua. Ex.: carambola, periodicista, bilontra, nasoculos, cardápio, etc. A mania do neologismo é das mais detestáveis. O neologismo só se justifica pela necessidade de uma denominação nova, para uma descoberta que também é nova, para um novo instrumento; ou então quando vem apadrinhado por um nome respeitado na língua. HYBRIDISMO – Dá-se o nome de hybridismo às palavras de creação nova e que se formam com elementos de língua diferentes. Ex.: photogravura, oleogravura, em que um é latino, e o outro, grego. As palavras de creação nova devem ser pedidas unicamente a uma língua: telégrapho, telephono, são palavras de cunho legitimo. Et nova fictaque nuper habebunt verba fidem, si Graeco fonte, cadent, parce detorta. (HORATIUS, Ars poética)”

Um arcaísmo, para Julio Ribeiro, é um termo esquecido (ou seja, que merece serlembrado); enquanto o neologismo é uma “mania”, e das mais detestáveis! É um autor que ignora a mudança linguística, alguém que certamente bradou pela volta do Latim como língua oficial do Ocidente. Já pensou?

Esta é uma bela definição de gramática, e da maioria dos gramáticos, já que não muita coisa mudou de lá pra cá. Estes estudiosos da língua são os que continuam desconsiderando que a língua é algo vivo, que acontece agora mesmo, e insistem em nos convencer que a língua está nos livros somente. São mais necrófilos. Têm atração pelas coisas mortas.

Próxima aula eu trago um trecho do Pasquale, professor que acha que só o Chico e o Caetano podem errar na língua.

Lucas de Sena Lima.

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