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Archive for the ‘Educação’ Category

por: Carolina Cecatto


“Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”

Antoine Saint-Exupéry

 

Hoje em dia muitas pessoas podem contar com o braille, utilitária linguagem criada pelo francês Louis Braille em favor dos deficientes visuais. Desde 1824, ano em que o sistema foi concluído, até os dias atuais, esse é considerado ainda o método essencial para um deficiente visual poder se comunicar via escrita.

Há outros meios de um deficiente visual estabelecer e possuir uma autonomia na comunicação. Existem programas de computador, como o DOSVOX, que, basicamente, realiza através de uma voz sintética a leitura de textos, por exemplo. Há ainda os livros falados, que leem revistas, livros etc. Geralmente, o livro falado é distribuído em CD’s.

Existem também os instrumentos que auxiliam o deficiente visual na feitura do texto braille. Os cegos usam a reglete e a Perkins (máquina de datilografar específica) para elaborar o braille de imediato, quando não há a possibilidade de impressão. As impressoras braille e as máquinas Perkins ainda não são os instrumentos mais populares, no entanto, em instituições especializadas é possível encontrá-los.

A leitura do braille chega a ser tão habitual para alguns deficientes visuais que muitos deles chegam a ler cerca de duzentas palavras por minuto. E não é nada muito complicado de entender, não. Requer apenas concentração e tempo para memorizar os caracteres. Agora entenda um pouco mais como funciona a disposição dos caracteres no momento de decodificação tátil dos cegos:

 



Esta é uma cela ou célula braille ainda vazia, que indica apenas um caractere. A numeração ao lado dos pontos indica a ordem em que eles devem ser citados para a decodificação do caractere.

 

 

Se um deficiente escrever em sua Perkins a palavra “sol”, vai fazer desta forma:

Os pontos escuros referem-se aos pontos em relevo no braille.

 

Para redigir essa palavra (sol) o deficiente visual usou os pontos 2, 3 e 4 na 1ª cela; 1, 3 e 5 na 2ª cela; e 1, 2 e 3 na 3ª cela. Essa é uma forma muito comum de se comunicar cada símbolo braille, citando os pontos que o compõem, na sequência em que aparecem nesta composição.

Aqui fica um pedaço do universo braille compartilhado. Existem inúmeras tecnologias para facilitar a mobilidade dos cegos, pra proporcionar a eles mais autonomia e inclusão. O braille é um referencial no mundo do deficiente visual. Esses pontinhos, quando apreendidos, têm o poder de ampliar muito o repertório e a realidade, inclusive dos que enxergam.

 

Sites sobre braille:

Aprender o braille virtualmente – USP.

Fundação Dorina Nowill Para Cegos.

Senai – Apresentação do braille.

Entrevista com Dorina Nowill.

 

 

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O primeiro pensamento que se deve passar na cabeça de qualquer educador em relação á matemática é o que é Matemática e para que ela serve?

“Contar a história da disciplina que está sendo estudada pode ser uma forma de ilustrar as aulas e motivar os alunos. Assim, também o professor de Matemática pode e deve lançar mão desse recurso, apresentando à classe fatos interessantes sobre a vida dos matemáticos famosos, bem como descobertas e curiosidades nessa área do conhecimento” (NETO)

Quando estudamos a Língua Portuguesa, não estudamos os escritores famosos e conhecemos as suas obras? Então, por que não conhecer melhor os matemáticos? Essa pergunta faz sentido, pois atribui significado ao processo ensino-aprendizagem do aluno. Isto significa que ele está não só aprendendo a lidar com o raciocínio matemático, mas também torna esta disciplina significativa, quando o professor enfatiza a questão social e histórica.

“A missão dos educadores é preparar as novas gerações para o mundo em que terão que viver”. (SANTALÓ)

“(…) Trata-se de uma história social da Matemática, que coloca essa ciência como algo humano, um fato social, resultado da colaboração de todos, e que é estritamente ligada ás necessidades sociais.” (SANTALÓ)

O professor deve atentar para o fato de que cada faixa etária possui um certo nível de abstração para compreender a Matemática, logo é desejável que o conhecimento matemática parta do Concreto para o Abstrato, com a didática que melhor possibilite o aluno a internalizar e utilizar em sua vida o conteúdo apreendido e não apenas ser capaz de resolver contas e exercícios de fixação e memorizar fórmulas. Corrobora com esta idéia Neto ao afirmar que “(…) devemos considerar quando estamos lecionando, procurando colocar o assunto no nível do desenvolvimento do aluno”.

“Aos professores de matemática compete selecionar entre toda a matemática existente (…) aquela que possa ser útil aos alunos em cada um dos diferentes níveis de educação. (…)” (SANTALÓ)

Como o mundo contemporâneo parece, cada vez mais, estar acelerado com as ideias e informações, é preciso que o professor incorpore esse movimento em suas aulas, para que o ensino possa ser mais atrativo e contextualizado com a realidade.

(“…) A vida tem-se tornado mais difícil, e a escola deve evoluir para preparar indivíduos com capacidade para atuar neste mundo complexo e diversificado” (SANTALÓ)

Logo, o uso dos computadores e da internet, bem como dos jogos eletrônicos pode auxiliar o professor nesta etapa “acelerada” em que vivem as pessoas. As crianças nascem, hoje, numa geração virtual, onde tudo é muito rápido e prático. Daí, a necessidade da Matemática adaptar-se aos padrões do mundo de hoje.
É possível afirmar que o uso de jogos eletrônicos instiga e desperta interesse pelo raciocínio lógico e é justamente isso que o professor precisa deixar claro para os seus alunos: o objetivo de se estar “estudando brincando”, para que o jogo não seja visto como um motivo apenas de lazer. È preciso relacionar o prazer ao conhecimento, ao estudo.

“(…) como o mundo atual é rapidamente mutável, também a escola deve estar em contínuo estado de alerta para adaptar seu ensino, seja em conteúdos como em metodologias (…)” (SANTALÓ)

Mas e as escolas e/ou instituições educacionais que não possuem este recurso tecnológico?

É preciso agilizar as aulas e o uso de jogos de tabuleiro e jogos confeccionados pelos próprios alunos pode auxiliar muito para despertar os alunos a “desbloquear” e quebrar alguns tabus de que a Matemática não serve para nada, de que é difícil e complicada, que é preciso decorar tudo e que é uma matéria não humana, no sentido social da expressão.

Os jogos utilizados em sala de aula têm se mostrado eficientes para auxiliar o aprendizado da Matemática, pois além de mobilizar o aluno para aprender também é possível trabalhar conteúdos matemáticos, como, por exemplo, o uso do tangram para que o aluno reconheça formas geométricas e de que maneira elas são utilizadas no nosso dia a dia.
Essa postura pode ser adotada desde a educação infantil até as séries do Ensino Médio, variando o grau de dificuldade e lógica dos jogos.

Além de levarmos em conta a sociedade globalizada e “cibernética”, na qual estamos envolvidos, a didática coerente e a significação da matéria, é preciso atentar para o que o estudioso Gardner aponta como “Inteligências Múltiplas”. Ao prepararmos uma aula temos de levar em conta de que nem todas as crianças aprendem da mesma maneira e que é interessante reforçar o objetivo do estudo de maneiras que contemplam as mais variadas Inteligências Múltiplas. Isto não significa preparar 7 ou 9 aulas diferentes com o mesmo conteúdo, mas abordá-lo de distintas maneiras, utilizando ora a escrita para reforçar os conteúdos, ora músicas, figuras, brincadeiras em sala, jogos, etc.
Na verdade, não existem receitas prontas na área educacional, muitos acertos, que depois são observados e passam a ser alvo de nossos estudos, foram na verdade parte de muitas tentativas de ensaio e erro.

Talvez, a maior dificuldade dos professores seja a de transformar e/ou quebrar o tabu de que os conhecimentos estão prontos e os alunos os receberão em sua totalidade. O aluno precisa construir o seu próprio desenvolvimento, aprender a aprender e para que o aluno sinta-se confiante nessa jornada, é preciso dar subsídios a ele, mas também estimulá-lo a ponto de que os passos sejam por dados por ele, com significação e objetivos.

“(…), é importante ensinar a aprender, coisa que o aluno terá que fazer por si só quando concluir seu ensino na escola, e se liberar do professor” (SANTALÓ)

Vale ressaltar também que o aluno precisa querer aprender, e que os professores são os mediadores no processo ensino-aprendizagem. Daí, a insistência da motivação, da aprendizagem significativa para que o aluno queira aprender e seja ativo no seu desenvolvimento cognitivo-social, enfim para que desperte em si mesmo o “aprender a aprender” e o “querer aprender”, fatores imprescindíveis para uma educação de qualidade.

PAULA CRISTINA CORREA FRANCISCO

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Para saber mais:

NETO, Ernesto Rosa. Didática da Matemática. São Paulo: Ática. S/D.

SANTALÓ, Luis A. “Matemática para não matemáticos”, in PARRA, Cecília; SAIZ, Irma. (orgs). Didática da Matemática: Reflexões Psicopedagógicas. Porto Alegre: Artmed, 1996

http://www.mathema.com.br/default.asp?url=http://www.mathema.com.br/intel_multiplas/teoria_formac.html

http://www.mathema.com.br/default.asp?url=http://www.mathema.com.br/intel_multiplas/conhec_intel.html

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por: Carolina Cecatto

 

Quem aqui nunca leu um gibi da Turma da Mônica pra se entreter? E quem aqui nunca saiu com um riso após ler essas HQ’s?

A Turma da Mônica foi criada por Mauricio de Sousa em 1959. De lá pra cá os personagens do cartunista sofreram mudanças em seus traços, mas seus trejeitos sempre foram constantes.

Digo isso, porque li há uns meses, um artigo do Dioclécio Luz, do site Observatório de Imprensa, que me fez refletir sobre o ponto de vista dele e, consequentemente, discordar. Se vocês quiserem/tiverem um tempo podem ler aqui o tal artigo.

Ao discordar, num primeiro instante, perguntei-me inclusive o que me fazia ficar ali e perder meus bons minutos lendo um artigo que chafurdava na lama a principal HQ da minha infância. E assim foi: aquele artigo serviu-me de apoio para argumentar pontos favoráveis às HQ’s de Mauricio de Sousa. Vou falar por que é legal ler A Turma da Mônica e, para tal intento, vou contrapor o que li no artigo do Dioclécio.

A Mônica, a dona da rua, foi mencionada pelo já citado resenhista como sendo de comportamento extremamente violento, capaz de incentivar de maneira péssima as crianças que leem as HQ’s. Se por um lado temos esta faceta, é necessário observar até que ponto se dá esta influência: exemplos de casa vistos pela criança ou mesmo na escola podem ser determinantes. Tirando este fator, deve-se pensar um pouco além daquilo que se vê: o fato de uma criança acompanhar, por mais incrível que possa parecer, algumas cenas de violência num gibi – levando-se em consideração as adequações de faixa etária – serve de canal no qual a criança encontra um jeito de externar toda a sua raiva e repressão, sem precisar, para isso, descontar fisicamente num colega de escola. O gibi serve pra canalizar, focar essa energia que a criança carrega. Ao ler, parte dessa energia se esvai na leitura. Lindo, não? (Devo estas informações ao professor Reynaldo Damázio, num curso de HQ’s que fiz com ele).

Sobre a Magali, foi dito sobre o estigma de comilona. Tudo bem, isso é fato. Agora, como eu já disse, ficar no superficial não satisfaz. Bem, a Magali não é só uma garota que come e não engorda. Não é uma personagem que instiga a obesidade infantil. Ela incentiva a criança a comer. Prova disso é que a personagem ainda faz campanha junto com a mãe do Dudu para que ele se alimente. Quer uma personagem mais legal para os pais usarem de exemplo na hora de alimentar uma criança? A gente bem sabe como é difícil entreter algumas crianças na arte da comida.

Outro personagem que foi citado, o Chico Bento, merece algumas observações. Chico foi colocado como sendo uma personagem vista por um aburguesado, a visão que este tem do campesinato. À parte dos termos bem ligados ao socialismo, vamos entrar na questão linguística e, no bom clichezão, tentar ampliar os horizontes. Chico Bento é uma personagem que mostra esse meio rural, de forma caricatural sim, mas entendo que Mauricio, ao criá-lo, quis mais aproximar aquela realidade do que satirizar ou simplesmente rotular o meio rural. E, como disse antes, a questão linguística, no caso, a variante linguística que nos é apresentada vem também como forma de aproximar, dizer que mesmo nos muitos dialetos, podemos nos comunicar, salvo algumas expressões locais, é claro. É uma forma de tirar certos preconceitos linguísticos e também de conhecer um pouco mais dos vários tipos de falantes nesse nosso Brasil.

O gibi de Mauricio calha muito bem nesse sentido, inclusive recomendo altamente ser utlizado em sala de aula para atividades, se possível. Quando a gente analisa esta nona arte, precisamos expandir o pensamento. Se você presencia uma criança que curte leituras como essa, pode ter certeza que não é só porque a Mônica é violenta, ou porque a Magali é comilona e o Chico Bento é só um ícone do olhar burguês sobre o homem do campo. Há muito mais camadas por se descobrir. Algumas citei. Outras, cada  leitor poderá descobrir por si.

Antes que me esqueça: outro motivo que me fez escrever aqui foi porque, depois de muito tempo, voltei a ler os gibis da Turma da Mônica. Parte se deve à tumblr do Porra Mauricio. O site sacaneia as tirinhas do gibi, mas é engraçado – e o melhor: Mauricio de Sousa curtiu. Depois desse site muita gente, fiquei sabendo, voltou a comprar seus gibis.

Pra fechar parcialmente a questão, tenho que fazer minhas vezes de fã, de leitora que adora HQ’s da Turma da Mônica e que entende que a gente quando se afinca numa leitura é porque ali tem muito de nós, simples assim. O legal da Arte é se fazer caleidoscópica. É por essas e outras que vemos muitas interpretações, algumas às vezes muito taxativas (não trabalha com possibilidades), o que enfraquece a análise. Maravilha também é perceber outra coisa que a Arte deixa no rastro: repercussão e olhares distintos.

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Entrevista realizada por email, em setembro de 2008, que é publicada pela primeira vez neste momento. Nesta entrevista, o professor e lingüísta fala sobre seus livros, sobre Saramago e a Revista Veja, sobre o Acordo Ortográfico, e principalmente sobre seu livro Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz.

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Gaia — Marcos, em leitura do seu livro Preconceito Lingüístico ficou evidente a questão da linguagem com a qual você expõe as situações-problema, para alguns agressiva e para outros apaixonada, politizada. Preconceito Lingüístico é um livro científico ou um manifesto?

Marcos – O livro Preconceito lingüístico é um manifesto, sim, e isso é declarado já na apresentação da obra, em que tomo uma posição política bem definida, quando, nas primeiras linhas, cito Aristóteles e digo que é impossível tratar da língua sem fazer política ao mesmo tempo. Evidentemente, as idéias que sustentam esse manifesto têm fundamento científico, provêm das muitas pesquisas e descobertas feitas pelas ciências da linguagem no último século.

Gaia — O preconceito lingüístico, como abordado em sua obra, é resultado de um preconceito maior, de ordem social. A mudança de postura no ensino da língua pode colaborar para uma transformação social profunda?

Marcos – Acredito que sim. A pedagogia tradicional, no ensino de língua, foi a grande propagadora e perpetuadora do preconceito lingüístico, desde os primórdios da civilização ocidental. As noções de “certo” e “errado” tão impregnadas na nossa cultura foram incutidas, basicamente, por essa pedagogia que tratava a língua falada como um amontoado de erros, como uma realização imperfeita de uma “língua” supracelestial, uma espécie de entidade mística somente alcançável por meio da ascese e da iluminação espiritual. As novas práticas de ensino, voltadas para o reconhecimento do saber prévio dos alunos e para a valorização dos saberes locais, decerto podem vir a contribuir para a eliminação ou ao menos a diminuição do peso do preconceito lingüístico em nossa sociedade. De todo modo, o preconceito lingüístico é somente uma faceta de um preconceito social mais amplo e enraizado. Somente a plena democratização das relações sociais vai permitir, não a extinção dos preconceitos, porque eles fazem parte da própria natureza humana, mas vai permitir o combate sistemático a toda forma de discriminação.

Gaia — A questão do preconceito lingüístico se vê evidenciada também em outros países subdesenvolvidos de língua portuguesa?

Marcos – O preconceito lingüístico existe em todas as culturas, sejam elas desenvolvidas ou subdesenvolvidas. Muitos lingüistas estrangeiros, sobretudo europeus, quando lêem o meu livrinho dizem que a situação que descrevo para o Brasil também se verifica em seus países. Evidentemente, o peso da discriminação varia de país para país, mas ela sempre existe. A codificação de uma língua escrita, padronizada, e a imposição desse padrão lingüístico sempre cria, inevitavelmente, o preconceito contra todas as formas de falar que não correspondam a esse padrão.

Gaia — O ensino de gramática ainda é predominante nas salas de aula e ainda nos vemos sob a ditadura da análise sintática. A análise sintática é um bom método para aprender a língua? Quais outros métodos podem ser utilizados para ensinar língua para os jovens de ensino fundamental e médio?

Marcos – Já está provado e comprovado que não tem cabimento algum “ensinar gramática” nos primeiros anos de escolarização. A grande maioria dos lingüistas e educadores já abraçou a tese de que a sistematização gramatical, a metalinguagem, a análise lingüística etc. devem ser deixadas para o ensino médio. No ensino fundamental, a grande tarefa nossa é letrar os alunos, levá-los a se inserir plenamente na sociedade letrada. E para isso é preciso ler e escrever e não saber a suposta diferença entre “adjunto adnominal” e “complemento nominal”. Esse conhecimento não serve rigorosamente para nada.

Gaia — Saramago, no documentário “Língua — Vidas em Português” diz que a língua se tornou tão complexa que cada vez utilizamos menos palavras para nos expressar, e estamos passando por um processo de “involução” da língua onde logo estaremos emitindo sons guturais para nos comunicar. Na sua opinião, esta situação condiz, ou então te preocupa?

Marcos – Os escritores, em geral, são os piores comentaristas que existem para falar de língua. Essas declarações do Saramago só fazem comprovar isso. Qualquer lingüista sabe que não existe “involução” de língua nenhuma. Não existe língua complexa nem língua simples, todas as línguas são igualmente complexas, só que essa complexidade se manifesta, em cada língua, com maior predominância em determinado nível do sistema lingüístico: umas têm a sintaxe mais complexa, outras têm a morfologia, outras a fonologia, outras o léxico e por aí vai. O chinês mandarim, por exemplo, tem uma sintaxe extremamente simples e quase não tem morfologia; no entanto, sua fonologia é complicadíssima, as palavras têm diferentes tons, quase imperceptíveis para ouvidos ocidentais. Muitas línguas indígenas brasileiras têm uma morfossintaxe extremamente complexa, com uma riqueza de composição nominal, de recursos derivacionais capazes de deixar tonto qualquer falante de português…

Gaia — O próprio Saramago diz que não temos uma língua portuguesa, e sim, línguas em português. Evanildo Bechara diz que os educadores têm que tornar os alunos “poliglotas dentro da própria língua”. Mário de Andrade na voz de Macunaíma já elogiava ironicamente nossa capacidade de escrever em uma língua e falar em outra. Estaria a língua portuguesa já dividida em “romances” assim como o Latim esteve, só esperando por ganhar uma forma escrita definitiva? Como se posiciona o professor na sala de aula, tendo que conviver com um pseudo-bilingüismo, ou o que seja?

Marcos – Eu acredito que o português brasileiro (que já poderia ser chamado simplesmente de brasileiro) já é uma língua distinta do português europeu. Assim como podemos montar árvores genealógicas que partem do latim e se distribuem em ramos pelas diferentes línguas românicas, 500 anos de história colonial já nos permitem criar uma árvore genealógica que, partindo do galego arcaico, século XI-XII, se distribuiria em diferentes ramos que incluiriam o brasileiro e os crioulos de base portuguesa. Somente quando assumirmos que temos uma língua distinta da de Portugal é que poderemos abandonar as gramáticas normativas que tentam fazer uma descrição de uma super-língua que não é língua de ninguém, como a de Celso Cunha & Lindley Cintra, e fazer uma gramática que realmente descreva o brasileiro.

Gaia — Como você vê o novo Acordo Ortográfico assinado recentemente? Em que os professores, estudiosos e usuários da língua ganhamos e perdemos?

Marcos – Sou contra o acordo ortográfico e já sei de antemão que ele não vai entrar em vigor nunca. Aliás, é ridícula essa história: se o acordo é para unificar a ortografia, como é que bastam três países (dos oito) para que ele seja instituído? Isso tudo é maquinação de diplomatas. Educadores e lingüistas sabem que esse acordo não serve para nada, a não ser para jogar fora milhões de livros produzidos em países onde se publica pouco e mal.

Gaia — Sua obra tem muitos títulos voltados para o público infanto-juvenil, como por exemplo O papel roxo da maçã e O espelho dos nomes. Comente um pouco sobre o interesse do escritor em abordar temas voltados à língua para tal público.

Marcos – Em minha produção literária procuro sempre escrever em português brasileiro urbano contemporâneo, porque acho ridículo usar mesóclises e regências verbais quinhentistas quando se escreve hoje para crianças e jovens no Brasil.

Gaia — Há um certo tempo, a revista Veja publicou uma matéria de capa sobre como o português bem falado pode ajudar em uma carreira profissional bem-sucedida. Conte-nos, Marcos, quais os segredos da língua?

Marcos – Não acredito em “segredos da língua”. Se eles existem, estão ao alcance de todo e qualquer falante, e portanto não são segredos.

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Marcos Bagno é lingüista, escritor e tradutor. Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP, atualmente é professor de Lingüística na Universidade de Brasília (UnB). Entre seus principais títulos estão: Dramática da Língua Portuguesa, Português ou Brasileiro? Um convite à pesquisa e A língua de Eulália (ficção), além de dezenas de obras literárias. Traduziu autores como Balzac, Sartre e Oscar Wilde. (mais em www.marcosbagno.com.br).

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Entrevista a Lucas de Sena Lima

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                       Autismo Infantil e Síndrome de Asperger compõem o espectro autístico e se caracterizam pelos impedimentos graves nas áreas de interação social, comunicação verbal e não-verbal e outros interesses. No entanto, é preciso ressaltar algumas diferenças presentes em cada um dos transtornos.

                        Em 1943, Kanner propôs a definição “Distúrbio Autístico do Contato Afetivo” (Autismo Infantil) com as seguintes características: perturbações das relações afetivas com o meio, solidão extrema, inabilidade no ato da comunicação, presença de potencialidades cognitivas, aspecto físico normal, rituais (estereotipias), início precoce e incidência predominante no sexo masculino.

                        Sabe-se que em indivíduos autistas existe uma incapacidade na identificação, compreensão e na atribuição de sentimentos e intenções, o que ocasiona prejuízo nas relações interpessoais.

                        Em 1944, o estudioso Asperger definiu “Psicopatia Autística” (Síndrome de Asperger) como um distúrbio com severos problemas de interação social. Depois foi descrita com um transtorno de prejuízos específicos nas áreas da comunicação, imaginação e socialização. Também depois conhecida como a “síndrome do gênio autista”.

                        Para diferenciar um transtorno do outro foram considerados dois critérios importantes: período de aquisição da fala e a idade de identificação do diagnóstico.

                        A Síndrome de Asperger distingue-se do Autismo Infantil pelo fato de não de não se verificar retardo ou alteração significativa da linguagem, bem como do desenvolvimento cognitivo, embora os indivíduos apresentem dificuldade de reconhecimento de regras convencionais da conversação e uso restrito de sinais não-verbais, como o contato visual, expressão facial e corporal. Vale lembrar que não há uma idade “certa” para a manifestação desta síndrome, diferentemente do Autismo Infantil que é manifestado antes dos 3 anos.

                        É preciso que haja buscas por conceitos e critérios diagnósticos mais precisos, tendo em vista a dificuldade dos estudiosos em classificarem esses transtornos globais do desenvolvimento e, além disso, que intervenções adequadas possam ser identificadas tanto no caso de Autismo Infantil quanto no de Síndrome de Asperger.

http://www.youtube.com/watch?v=rloNvRuzwzE. Vejam esse matéria sobre Síndrome de Asperger publicada no Fantástico (Globo) sobre Glenn Gould, pianista com Síndrome de Asperger e um dos melhores representantes da música de Bach.

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PAULA CRISTINA

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Fonte: Artigo: “Uma breve revisão histórica sobre a construção dos conceitos do Autismo Infantil e da síndrome de Asperger”, por Ana Carina Tamanaha, Jacy Perissinoto, e Brasília Maria Chiari (2008).

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PRIMEIRA PARTE

Uma das grandes discussões de Foucault, em suas obras, é a relação entre discurso e poder. Para ele quanto menos uma pessoa exercer poder sobre outra melhor é a relação entre essas pessoas.

Sua filosofia diz que todo e qualquer discurso está impregnado de poder e, portanto, estabelece a relação de opressão, já que esta é produto da outra.

Em nossa sociedade capitalista cujos meios de comunicação são cada vez mais “ferozes” e os discursos mais sedutores, é de extrema importância dar luz às ideias de Foucault e trazê-las para a nossa realidade.

Nas relações humanas há o exercício do poder e este dita o que é ou não verdade. O que é verdade? São discursos sedimentados que foram aceitos ao longo do tempo. Acontece desta maneira: lança-se um discurso. Ou as pessoas aceitam, tornando-o verdade, ou não. Daí, pode-se pensar em “loucura”. Foucault transmite a ideia de que é um conceito social e não falta de razão, como acreditava Descartes (René Descartes, filósofo).

A loucura para Foucault era uma questão de discernimento em relação aos demais e determinadas situações. Há pessoas que sabem qual “comportamento” devem seguir para serem aceitas e outras simplesmente não têm tal discernimento.

Em sua obra Vigiar e Punir, o autor analisa o espaço (arquitetura) para o exercício do poder e o adestramento a ser realizado nesses espaços.

Como educadora, atento-me quando Foucault discorre sobre a arquitetura do poder com o intento de vigilância, exemplificando como modelos a fábrica, o manicômio, a prisão e a escola.

Entre outros aspectos, a disposição das carteiras em fileiras, a própria sala de aula em formato quadrangular (para o ser humano ser “enquadrado”, seguir normas) são evidências de contínuo uso do poder e da opressão nas escolas. Há também o sistema de vigilância com os chamados “inspectores”, carcereiros modernos. Além disso, professores-generais, que não estabelecem interação e mediação com os seus alunos, continuam comandando e oprimindo seus alunos.

Sem dúvida, Foucault é um dos filósofos que muito nos tem a ensinar, ou melhor, pretende aguçar nossas dúvidas e nos  instigar a buscar respostas. Pretendo na segunda parte abordar um pouco mais a questão do poder e introduzir um assunto um tanto polêmico: sexualidade. Sugiro algumas leituras e pesquisas:

FOUCAULT, M. História da Loucura.

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir.

FOUCAULT, M. História da sexualidade: a vontade de saber. vol. 1

FOUCAULT, M. História da sexualidade: uso dos prazeres. vol. 2

FOUCAULT, M. História da sexualidade: o cuidado de si. vol. 3

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loucura. s.f 1.distúrbio da mente do indivíduo que o afasta de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir. 2. perda da razão. (HOUAISS)

razão. s.f  1. raciocínio. 2 capacidade de avaliar corretamente; juízo. (HOUAISS)

discernimento. s.m 1. capacidade de separar o certo do errado. (HOUAISS)

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PAULA CRISTINA

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O professor de português precisa ampliar competências e articular habilidades para ser proficiente no ensino de língua portuguesa como língua estrangeira.

No processo de aprendizagem, é preciso levar em conta:

  • diversidade cultural dos alunos;
  • interação aluno/professor;
  • métodos e abordagens no ensino de língua estrangeira.

Além disso, o professor precisa compreender a língua do aluno para que haja interação e as dúvidas possam ser esclarecidas, se necessário na língua materna do aluno.

É preciso formação diferenciada em relação ao professor formado pelo curso de Letras. Há pós-graduações e cursos específicos para professores que pretendem trabalhar com LP como LE.

O professor tem de:

  • ser especialista em língua portuguesa (conhecimento acadêmico);
  • desenvolver tarefas utilizando tipologia de exercícios diversos a fim de promover o aprendizado;
  • aguçar conhecimentos em sua própria cultura: mitos, lendas, personalidades, história da língua e do país, comidas típicas, etc.;
  • colocar-se no papel de aprendiz para compreender o processo de aquisição de uma outra língua (quando o professor experimenta aprender uma LE, reconhece os mecanismos de aprendizagem, possibilitando-o refletir sobre o processo de aquisição de uma LE).

Para explicar algumas expressões e dizeres o professor precisa utilizar recursos variados: música, arte, fotos, imagens, desenhos, etc. Tente explicar, por exemplo, para um estrangeiro a palavra “saudade”, ou então “dar um jeitinho” ou mesmo “samba no pé”.

O professor deve buscar materiais de apoio e preparar suas aulas com base de que seu aluno não possui a “bagagem” cultural e línguística suficiente da língua a ser ensinada. É necessário fornecer aos alunos cultura e informação com exercícios regulares e diferenciados, adotando, assim, uma metodologia adequada, a fim de desenvolver no aluno a compreensão da língua portuguesa numa situação de comunicação.

PAULA CRISTINA

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